OPINIÃO

A teatralidade que faz de 'Dois Irmãos' uma obra prima da televisão

13/01/2017 18:55 -02 | Atualizado 13/01/2017 18:55 -02
Divulgação

Dois Irmãos, a minissérie da TV Globo em dez capítulos adaptada do consagrado livro homônimo de Milton Hatoum, tem a grandiosidade que um épico que se passa no Amazonas requer. Leva também a assinatura do intrépido Luiz Fernando Carvalho na direção artística, o mesmo da novela Velho Chico, ainda tão fresca na nossa memória.

Daí que vemos novamente cenas poéticas, do rio, da chuva e da natureza, figurinos de época um tanto arrojados para quem vive no calor da linha do Equador, há um casarão, um grande drama familiar, mulheres imponentes e closes nos atores, religiosidade e misticismo, com trilha sonora que evolui de acordo com o tom e peso de cada cena. E tem ainda a repetição de Antônio Fagundes como patriarca, inicialmente como um dos contadores da história na sua velhice.

Um projeto acalantado por Luiz Fernando Carvalho pelo menos desde 2009, a minissérie traz em repetição muito do estilo consagrado do diretor num prazo demasiado curto para nos distanciarmos da última novela que ele conduziu. Assim, o período escolhido para sua exibição - três meses desde o final de Velho Chico- teria tudo para se tornar o grande erro da produção.

Só que, neste caso, o erro virou acerto.

Lembremos como começou triste este mês de janeiro com um episódio marcante na região onde a trama é ambientada. A imensa grande tragédia nos nossos noticiários de início de ano aconteceu exatamente num presídio em Manaus, cidade da história de Dois Irmãos, que começa bem uns 70 anos atrás. E acaba sendo providencial que a arte nos transporte para ali neste momento com seu recado, até mesmo para que não nos esqueçamos desta dicotomia da vida real, onde o belo e o terrível convivem tão de perto.

Outro senso de oportunidade e "timing" para a obra. Nunca se fez tão importante o resgate de uma cultura como a árabe, hoje em muitos aspectos envolta em preconceito, por tanta generalização e correlações com situações de guerra e terrorismo. A beleza do idioma e cultura árabe são destaque na história da minissérie, em referência principalmente aos libaneses.

Também o patriarca da família é de origem muçulmana. Nestes dias em que imperam preconceitos não apenas de religião, mas de etnias, o olhar e delicadeza do diretor e de toda a produção sobre os detalhes e sutilezas do povo do Oriente Médio são de imensa contribuição. Vale lembrar que há poucos dias um rapaz foi expulso de um vôo comercial na Europa simplesmente por estar falando árabe ao telefone.

Sobre a trama: Dois Irmãos tem por mote um dos dramas mais antigos da humanidade, desde o conflito bíblico dos irmãos Caim e Abel. Aqui na obra de Hatoum - adaptada pela roteirista Maria Camargo - se tratam de gêmeos, o que proporciona incríveis desempenhos de todos os atores nas 3 fases da vida dos irmãos Omar e Yaqub. São 4 atores diferentes para os papeis ao longo dos anos dos personagens: os gêmeos Enrico e Lorenzo Rocha na adolescência, Matheus Abreu na juventude e Cauan Reymond na fase adulta.

A estreante Gabriella Mustafá, Juliana Paes, e depois a também exímia Eliane Giardini vivem a matriarca Zana, num papel carregado nas cores para uma mãe árabe totalmente exagerada no afeto pelo rebento caçula. O patriarca tem as interpretações sequenciadas de Bruno Anacleto, Antonio Calloni e Antônio Fagundes. Todos os atores estão perfeitamente encaixados nos papeis, num outro momento feliz de Carvalho na escolha do seu elenco.

O diretor trafega bem no mundo árabe tão bem quanto mergulha no interior do Brasil em busca das histórias, causos e vicissitudes regionais. Há 20 anos, Carvalho foi ao Líbano, câmera em punho, fazer um laboratório para posterior trabalho numa obra de autor de origem libanesa, Raduam Nassar, escritor de "Lavoura Arcaica". Dos registros libaneses saiu um documentário magistral, "Que Teus Olhos sejam Atendidos" para o GNT. Foi um preâmbulo e tanto para o longa-metragem e agora, quase duas décadas depois, para a minissérie que também remete a assuntos do Líbano.

Neste Dois Irmãos não há concessões das telenovelas em geral. É trabalho bem mais autoral, e o diretor opta em muitos momentos por uma linha conceitual, uma certa teatralidade. A não linearidade da obra original foi mantida no roteiro, o que causou algum estranhamento ao telespectador em especial nos capítulos iniciais, com suas idas e vindas no tempo. O horário, sempre bem após 22h, também não ajuda muito pra quem espera uma TV de contemplação, num momento quando boa parte do público vê na televisão uma forma de descanso.

Mas a beleza da paisagem, a profundidade do texto e a qualidade das interpretações sçao tantas que vale o esforço do entendimento. A dica é revisitar depois, assistir com calma no aplicativo da Globo, ou no portal da emissora. Ou mesmo esperar até lançarem o DVD. Dois Irmãos merece, sim, ser apreciada.

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