OPINIÃO

Portão 21

20/01/2015 11:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Emile Krijgsman/Creative Commons

Eu achei que ia me perder - Acir projetou-se contando ao amigo, assim que seu voo chegasse a São Paulo - mas continuei, mesmo achando que seria melhor ter deixado tudo quieto (e ele se viu preso em dois erros: o espanto que precede a lembrança de sua ineficiência para o conflito e o desejo olímpico em manter-se com a razão em uma discussão), até que tomei a decisão de viajar.

Faziam-se exatos dois meses de sua separação, a qual nenhum familiar próximo estava ciente. Seu voo, já atrasado em algumas horas, de nada importava - sempre foi a favor dos atrasos; a demora, que a tantos é causa principal de impaciência e revolta, para ele era sinônimo de conforto e ambientação.

Apesar dos dedos que lhe eram apontados ao longo de sua trajetória literária, não se sentia o fracassado que a sua imagem social refletia - é preciso enfrentar os próprios demônios; essa visão católica da moral, herança familiar da luta entre o bem e o mal que sempre floresce na adversidade, ninho seguro das certezas, surgia abrupta à mente, a um tempo melancólica e saudosista. Sentia saudades sim, como todo o projeto de poeta também refletido em seu espelho:

- Não podia mesmo ter dado certo.

Ele novamente se projetou à conversa com o seu amigo, dessa vez o imaginando reativo ou em choque com essa afirmação derrotista; Mas eu que os apresentei, Acir! E você sabe que sou um ótimo santo casamenteiro. E Acir riu, aquele riso de alegria mesmo, consciente da graça das duas metáforas católicas que vieram à lembrança no curto espaço de tempo, e do sentimento do amigo estar mais preocupado com sua reputação satisfatória de Cupido a consolar sua separação. Ria muito e sozinho, já não se importando com os olhares desconfortáveis das pessoas que aguardavam o mesmo voo no portão 3, as quais novamente impacientes pelo embarque já ter sido trocado para o portão 3, 7 e 21, este que se encontra no primeiro andar.

Voltando à cena da ruptura, restava uma dúvida: como aquela constatação sem ênfase, não diferente das brigas anteriores, ele avaliou, visivelmente constrangido por não ter tido argumentos, se tornou o epicentro do conflito - Acir, eu imaginava de tudo, mas isso eu nunca pensei que você fosse capaz! - e a imagem da mulher, que a essa altura já figurava no hall de suas ex, remetia à adolescência, os primeiros escritos, a transgressão pela transgressão, a necessidade de criar história para vencer o tempo - é preciso enfrentar os próprios demônios, e agora, além da visão familiar, a voz moralista vinha de sua falecida avó, mulher valente e guerreira a qual nunca conhecera, se imaginava novamente contando ao amigo para justificar os bordões religiosos que não havia mais como controlar.

- Você nunca se apaixonou por mim! Você é apaixonado pela paixão, acha que isso alimenta teus escritos e usa isso como justificativa!

- Mas não há traição quando não há contrato...

Eu me arrependi de ter falado isso, - Acir se imaginou contando ao amigo e ao garçom que traria a terceira dose de chopp - e aí é quando minhas próprias frases de efeito me traem e a escrita não faz sentido. E o amigo, já ciente do drama ancorado em cada frase de lamento, apenas ouvia. Passa pela fila do embarque e entra no corredor que deságua na porta dianteira do avião. Sente um estranho prazer ao imaginar que aquela poderia ser sua última viagem em vida; tal prazer não motivado pela constatação do pânico e da dor de um possível acidente aéreo, e sim da certeza - duvidosa - de que Pilar, sua mulher (ex-mulher, o amigo ponderaria, achando que conseguiria fazer Acir sorrir, sem sucesso), iria sofrer, ao ver no jornal, que o voo onde seu marido estava (ex-marido, mas dessa vez o amigo só pensaria, sem interromper) sofreu um grave acidente, onde todos à bordo foram vítimas fatais.

Já em posse de novos pensamentos, muito mais amistosos do que a chacina mental que acabou de figurar em sua mente pré-decolagem (imagem essa registrada em seu novo tablet, com o intuito de, com alguma sorte e inspiração, virar um novo conto, de tamanho sucesso a ponto de reverter o esquecimento imposto pela "indústria cultural que recicla talentos como se fossem garrafas pet"). Ignorando os procedimentos de embarque, decola sem cinto e com o banco sem estar na vertical. Transgressão essa que lhe cabia no momento, gerou uma outra sensação de prazer (a vida não tinha mais a remota importância, lembrou da frase de seu último personagem, Fabiano, auto-retrato um pouco deformado pela vergonha de seu próprio passado, sempre passível de correção na literatura).

Já no céu, acompanhando a sombra do avião rastejar-se por entre as árvores de Curitiba, desejou que o amigo fosse realmente recebê-lo à porta de desembarque, como prometido.

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