OPINIÃO

A escola da Rocinha que não tem séries nem turmas

21/02/2014 18:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Um grande problema da escola é a forma como se demonstra que a cooperação, como prática cotidiana, principalmente entre estudantes, apenas acontece em "trabalhos de grupo" ou "lições de casa". Ou seja, acontece em casos isolados, pontuais e efêmeros, quando na verdade a cooperação precisa ser um direito que perpasse todas as instâncias do ensino.

Estudantes não deveriam ter como obrigação, ao longo do período letivo, a necessidade de provar um aprendizado, pois a sua prova natural se dá quando eles deixam claro, na cooperação, uns para os outros, que sabem alguma coisa e podem se ajudar ou que não sabem e desejam aprender. Aprendizagem é a potência da curiosidade.

Dessa forma, é possível mudar a lógica programática da escola atual, que é "ensinar para a cidadania", quando na verdade o foco pedagógico deveria ser "ensinar na cidadania". A escola não pode ser dissociada do ambiente externo no qual se encontra, pois ela não deveria ser um lugar onde você apenas experimenta uma simulação dos processos cidadãos para depois, talvez, executá-los na vida cotidiana: ela é a própria vida pública em toda a sua potência de relacionamentos e realizações cooperativas.

Quest to Learn, uma escola onde se aprende por meio de brincadeiras

Quest to Learn, em Nova York

Quando educamos em um ambiente que não se limita em seu próprio espaço físico, a aprendizagem se dá em qualquer tempo e em qualquer espaço na escola, por meio de qualquer interação, mediadas por um professor, não apenas nas lições ou no período pré-determinado de um trabalho em grupo, mas em atividades lúdicas que criam os momentos necessários para a alimentação da curiosidade, da experimentação coletiva e da invenção.

Os jogos são excelentes instrumentos de interação, cooperação e aprendizado. Já usado por empresas -- e presente em larga escala na infância fora da escola --, tem como exemplo educacional a Quest to Learn, escola pública da Nova York, primeira do mundo a educar 100% do tempo baseado em jogos, e que possui índices de aprendizados impressionantes e acima da média geral.

O Brasil não está tão distante dessa realidade, tanto quanto estamos acostumados a pensar. Foi criada, no bairro da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro e uma das maiores favelas da América Latina, o GENTE (Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais). Uma escola pública onde a educação é centrada no aluno e em sua curiosidade, e o ensino é mediado pelos professores e pela tecnologia. Não há séries nem turmas definidas, pois os estudantes se dividem por interesses em comum e a ajuda de um professor-mentor.

gente

Gente, na Rocinha

A cooperação, baseada na ludicidade exposta nos jogos "caso seja privilegiada desde o estágio mais inicial de nossa experiência escolar, poderá criar um ambiente social muito mais rico, focado na resolução de problemas que realmente interessam, e não na experiência individualista e segregacionista da competitividade. E podemos lembrar: qual era o momento da escola que todos mais gostavam? O recreio. E não era à toa.