OPINIÃO

Fuja da Sequência Monogâmica de Propósitos: empoderando seus desejos sexuais

04/02/2016 18:42 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Ao invés da prisão das metas para um propósito, busque o empoderamento de MÚLTIPLOS DESEJOS para a liberdade

Depois de anos dedicando meu tempo para a felicidade de outras pessoas, percebi o quanto era uma mulher estressada e sem interesse pela minha própria vida.

Me tornei dominatrix, aprendi, mudei.

Mesmo assim, pouco depois me dei conta que era uma mulher independente e confiante, mas continuava movida por uma espécie monogâmica de propósitos: depois de atingir meu objetivo de vencer na vida profissional e quebrar tabus, surgiam mais propósitos e as prisões das "metas" e da cobrança.

Até no sexo eu tinha um propósito: me sentir desejada a partir do desejo do outro.

Eu só sentia um pouco de prazer se ouvia elogios pela minha performance sexual, pelo meu corpo, por quanto eu era ótima na cama. Obviamente, centrar-se tanto no outro, nas suas reações, preocupando-me com a posição perfeita pro espelho, se eu estava agradando, se eu estava fazendo tudo do jeito que a pessoa gostava, roubava totalmente minha atenção de mim mesma - e esse é um dos fatores que fazem tantas mulheres perderem o interesse sexual. No meu caso, esqueci que a vida é holística, um conjunto de desejos e vivências.

Obviamente não falaremos aqui de sexo não-consensual e violento (estupro, né gente!), pois nesse momento a mulher não deve focar em nada além da sobrevivência! Estou falando de sexo consensual, esse que você aceita quando está com suas faculdades mentais bem sãs, que envolve segurança e até uma certa cumplicidade. Nesse sexo, qualquer coisa nos desvia a atenção e torna o prazer quase um desafio. Mesmo as mulheres mais ativas fingem que estão pensando em si, quando na verdade estão focadas na reação que os outros tem à sua suposta liberdade. Ou lembrando das palavras que o fulano gosta de ouvir. Ou se perguntando porque estão ali. Ou griladas com o suvaco um pouco cabeludo, ou qualquer outra coisa desde que não seja do seu umbigo pra baixo, principalmente vagina e clitóris.

Estranho? Sim, parece estranho e pouco romântico, pouco bonito, pouco importante... aliás, como na história é pouco romântica, pouco bela, pouco importante a própria vagina. Com medo de sentir puro prazer, totalmente desapegado do outro, inventamos mil e uma fantasias e discursos mirabolantes pra não ficar cara a cara com um dos muitos fatos sobre nosso "aparelho reprodutor": o clitoris tem mais de 8 mil terminações nervosas voltadas apenas para sentir prazer. Apenas prazer, nada de procriação está envolvido ali.

2015-12-14-1450112443-3609908-christinewu.jpg

E você precisa de algo além de prazer na sua relação sexual? É justamente essa a questão com a qual não queremos nos confrontar, que escondemos de nós mesmas! Pois quase sempre qualquer coisa está envolvida na relação além do prazer: queremos elogios, romantismo, amor, nos sentir protegidas, nos sentir aceitas, enfim... cada uma de nós com uma historinha diferente. Quando você se dá conta disso é um baque!

Ter um propósito te faz viver em função desse propósito.

E NO CASO DA MULHER, ESSE PROPÓSITO É QUASE SEMPRE O OUTRO.

Sabe quando ouvimos que pra mulher é mais difícil de gozar, que os homens são mais preparados e o sexo vai no automático, que somos mais mentais, que qualquer coisa desvia nossa atenção ... pois é. E desvia mesmo: estamos muito preocupadas sempre. Preocupadas em garantir que o outro nos dê aquele elogio, ou que nos proteja; estamos preocupadas com nosso corpo e performance, com a lingerie, com os cheiros, com os pêlos, até com nossos pés que devem estar em posição de ponta, lindos e perfeitos. Pois pra mim está mais do que provado que esse monte de "qualquer coisa", que desvia nossa atenção e nos faz brochar, deve ser eliminado definitivamente. Chega de se preocupar com "qualquer coisa" e esquecer de si mesma. Vamos focar na vagina, no clitóris, nas sensações que esses orgãos nos dão. Simples assim. Ok, existem outras zonas erógenas, seios, nuca, axila, até atrás do joelho, mas se você não goza faz tempo o conselho é: pense primeiro na sua vagina, depois no seu joelho. O clitóris, por exemplo, pode te dar sensações eróticas automáticas e isso é biológico; já o joelho, nuca, pés ou cabelo dependem de um contexto fetichista, por exemplo.

Mas olha... é um percurso e tanto. Desligar-se de "qualquer coisa" não é como desligar uma chavinha. A primeira onda que vem é a culpa: "como assim vou só pensar em mim mesma... essa não é a comunhão do amor!", "ah, mas não é certo eu não gemer cada vez mais alto pra pessoa sentir que tá indo bem". A segunda onda do tsunami quando nos livramos de "qualquer coisa" é sentir-se incompetente: "mas como, não posso, eu? uma mulher super moderna, não curtir um mènage?", "ah não, como assim eu não consigo fazer igual essa atriz pornô e ficar quicando sem parar?". E a terceira onda pode ser pior ainda, o medo do abandono: "putz, vou me embebedar de novo senão a coisa não vai, que saco... mas vamos la, né", "ai, dane-se, nada é pior que ficar sozinha". Não caia nessas armadilhas morais, nessas presepadas psicológicas! Sexo para ser bom deve ser bom para você. Mas... o que é bom pra você? Você deseja algo que não dependa de um fator externo?

Um novo método de Coaching:

Você não tem UM propósito, você tem DESEJOS PRÓPRIOS E MÚLTIPLOS

Se eu consegui de alguma forma fazer você refletir sobre essas questões, é um sinal positivo: eu posso te auxiliar a redefinir quais são os seus próprios desejos. Não está na hora de pensar por si mesma, desejar por si mesma e para si mesma? Pra atingir a plenitude sexual você precisa reunir uma energia própria, que pode estar dispersa na pornografia, nos namorados, namoradas ou ficantes, no culto ao corpo, nos traumas, na comida, nos remédios, no álcool, ou no "super desempenho da super mulher independente contemporânea".

Já fomos tão disciplinadas, queimadas, julgadas e oprimidas durante séculos; inclusive nos ensinaram o que desejar, nos ensinaram a odiar nossos corpos e a viver em prol dos desejos dos outros... a hora é de vasculhar dentro de si, descobrir quais são os seus desejos e ter segurança, apoio e confiança para vivê-los plenamente!

LEIA MAIS:

- A nova geração de fotógrafos brasileiros que exploram o fetiche [+18]

- "'50 tons de cinza' é muito fraco", diz dominatrix francesa de 83 anos

Também no HuffPost Brasil:

12 filmes não-pornôs com cenas de sexo

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: