OPINIÃO

A mulher, o corpo e o trabalho

11/11/2014 14:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02
George Marks via Getty Images

Desde a antiguidade a mulher é produtora. Embora seus contemporâneos não atribuíssem a ela o devido valor, o que vestiriam os filósofos que "gozavam", deleitados no seu ócio, se as mulheres não fiassem, não tecessem, não produzissem? Platão diz, muito seguro de seu pensamento que "se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao tear a propriedade de fiar sozinho."

Hoje nós, mulheres esclarecidas, podemos apreciar com certo escárnio o tipo de argumento ontológico do senhor Platão. Mas não sejamos tão otimistas. Para ele e milhares de gerações após, a mulher é definida pelas suas diversas funções e, especificamente as suas funções sociais, são definidas como "naturais". Esse argumento é poderoso até os nossos dias. Às atividades exercidas por mulheres é figurado um valor específico vinculado ao seu gênero, e grande parte da sociedade não lhes dedica mais consideração do que a uma árvore que produz frutos num quintal. A árvore é importante para o coletivo, ela é cuidada e mantida, mas ninguém atribui à própria árvore o sucesso de uma frutinha gostosa. Ou é a qualidade do solo, ou os adubos, ou o cuidado dispensado a ela. Também a atividade das mulheres, desde a antiguidade, não surge como expressão de seu livre arbítrio, de uma habilidade inteligente, suscetível ao aperfeiçoamento. Talvez até tenhamos menos prestígio que uma macieira nesses tempos de boom ecológico.

As sociedades, uma após a outra, foram prolixas em definições da "natureza" feminina. Na maior parte das vezes essa natureza é descrita a partir da norma masculina. Nas nossas civilizações patriarcais o estabelecimento dessas distinções assegurava, principalmente ao homem, algumas exclusividades que o "outro" não pode disputar sem o perigo de violar tal ordem. O pior: essa ordem é editada e aceita como a própria natureza, sagrada e inatingível. Então porque a Natureza assim decidiu, a mulher carregava os filhos, alimentava o bêbe e era a mais fraca.

O termo ordem exprime bem não só um desejo de um arranjo sistematizado, mas também a suposta impossibilidade de romper esse equilíbrio sem criar um escândalo. Esse escândalo é acompanhado de todas as sanções morais e sociais que contribuem para a manutenção de uma ordem específica.

A grande maioria das Revoluções, senão todas, não passam de personagens-título de livros de História, ali descritas apenas para fins didáticos e de memória. Explico: uma Revolução, assim como ela é definida conceitualmente, figura uma completa reestruturação e modificação de arranjos sociais que estão em curso. Na queda do Feudalismo, por exemplo, não vemos nenhum tipo de Revolução Capitalista ou algo do tipo. Os sistemas de divisão de gênero, por exemplo, não somente foram mantidos, mas adaptados à nova ordem econômica.

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Silvia Federici descreve a acumulação primitiva pós-feudal como um processo fundamental que nos revela as condições estruturais para a existência da sociedade capitalista. Ela explica que esse processo é sempre acompanhado de extrema violência: A acumulação primitiva consiste numa imensa acumulação de trabalho morto, na forma de apropriação individual de bens comuns da coletividade e trabalho vivo, na forma de seres humanos disponibilizados para exploração da mão de obra. Além disso, argumenta Federici, o surgimento da sociedade capitalista, da caça às bruxas e da perseguição sistemática de mulheres ocorreram simultaneamente. Isso mostra que a divisão de gêneros é condição específica das relações de classe.

Para a autora, corpos femininos e suas funções reprodutivas emergem como um discurso explicitamente político a partir do momento em que são explorados como um recurso. Nesse sentido, o Capitalismo seria responsável pela degradação e medicalização da sexualidade feminina que fugisse de sua função "natural", algo que redunda na função social dentro do novo sistema: gerar mão de obra. Num sistema onde todos os corpos devem ter uma utilidade que proporcione acumulação de capital, o próprio "estar-mulher" torna-se um trabalho, o corpo feminino é propriedade comunal e gerar filhos a única função que pode ser vinculada a sua sexualidade.

E a mulher que une trabalho à sexualidade, mas não está em função dos objetivos dessa sociedade?

Bem, a essa resta o escândalo.

Nunca nos questionamos - e, por vezes, nos sentimos gloriosas e superpoderosas - por estarmos vinculadas, desde a antiguidade, à tal mãe-terra. Infelizmente, nessa história de empoderamento pelo útero, esquecemos que existem vários desdobramentos perversos e que nos inscrevem diretamente nas instâncias do biopoder e da regulação dos nossos corpos. No século biotecnológico temos sido úteros que se tornam laboratórios minados por ovos, embriões, tecidos, células-tronco e somos usadas como úteros gestacionais em tecnologias de reprodução assistida na iniciativa privada. E o desenvolvimento desse biopoder, de todos esses milhares de dados e fatos sobre nossa sexualidade e "natureza" reforça a política do Capital. A promoção das forças da vida nada mais é que o resultado da preocupação com a acumulação e reprodução da força de trabalho morto, aquele que citei no início do texto. Lembra da Federici? Para ela, "o corpo humano foi a primeira máquina desenvolvida pelo Capitalismo."

O Trabalhador e a Resistência

Independente da narrativa econômica e política em curso, uma das táticas consagradas como resistência do trabalhador tem sido a simples retirada do seu trabalho do sistema. Quando usamos a sexualidade e o gênero como marcadores de trabalho, podemos citar a retirada de serviços sexuais na Antiguidade (Lisístrata) e de serviços de saúde reprodutiva (mulheres sem filhos, freiras, místicas, bruxas, profissionais do sexo).

O não-trabalho é uma desobediência. Antes que os moralistas de plantão e os bons trabalhadores venham me julgar, não, eu não sou rica nem tenho a opção de ficar de bobeira. Mas o que seria trabalho, segundo os moldes capitalistas? E o que seria o trabalho feminino? Não raro ouvimos a prostituta ser chamada de mulher de vida fácil, ou seja, que não passa pelo sacrifício do trabalho. Coincidentemente lemos o mesmo discurso que foi utilizado na caça às bruxas durante a Idade Média: mulheres que usavam a magia e outras operacionalizações do corpo de forma independente e autônoma a fim de conseguirem o que desejavam, "sem trabalho". Utilizando nossa matriz de pensamento sobre o Capitalismo, podemos pensá-las como mulheres desobedientes ao sistema normativo de reprodução e vigilância da sexualidade, fundamentais para a economia pré-capitalista.

A origem grega da palavra trabalho é o termo que está na raiz de "provação" e de "pão", em inglês. Platão distingue entre conhecer, fazer e agir. O fazer, tanto poético quanto artesão, era o menos considerado. O ato de produzir parece, aos olhos de Platão, inferior ao ato de gozar a vida. Não é difícil entender porque associamos diretamente trabalho ao sofrimento. Não somente porque é uma tortura acordar cedo numa segunda feira depois da esbórnia do fim de semana, mas porque tortura está na origem latina da palavra trabalho.

Ainda na Idade Média vemos a associação do trabalho ao sofrimento. Teólogos de destaque como Tomás de Chobham chegaram a afirmar que "as prostitutas deve ser incluídas entre as assalariados. Com efeito, elas alugam seus corpos e fornecem mão-de-obra. Mas, se elas se prostituem por prazer e alugam seus corpos de modo a obter deleite, isso então não é trabalho, e o salário é tão vergonhoso como o ato." A fala do teólogo contemporâneo a Tomas de Aquino revela algo importante: a sexualidade feminina deveria ser regulada pelo discurso e valores capitalistas acerca do trabalho. E para o capitalismo, trabalho e independência não andam juntos, muito menos com prazer. Afinal, o corpo da mulher, para a sociedade dicotômica de gêneros, é propriedade social e ela só obtem prazer ao exercer sua função de trabalho, que é a de gerar filhos para a sociedade.

Quando torcemos o nariz para uma mulher de vida-fácil não estaríamos, na verdade, chocados moralmente com a possibilidade de existir prazer no trabalho, de existir trabalho sem trabalho e, principalmente, prazer numa atividade que envolve erotismo, sexualidade e o protagonismo da mulher sobre seu próprio corpo? Não podemos esquecer que a mulher que une trabalho e prazer - e sexualidade! - fora do ciclo reprodutivo gera escândalo. É algo totalmente fora da ordem.

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De quem é nosso corpo?

Corpos são a mercadoria mais valiosa desde que a acumulação primitiva começou. Muito mais complexo do que a maioria das pessoas imagina, a objetificação dos corpos não é restrita ao universo feminino: todos somos objetos de um sistema de exploração e regulação dos corpos. O corpo é um objeto inserido na lógica do trabalho capitalista. Desde a Revolução Industrial, mais precisamente, o sistema impôs regras e horários para o corpo. Se você lembra das aulas de História da escola, sabe que a produção cafeeira, por exemplo, teve seu auge justamente nessa época - o consumo de café aumentou drasticamente, na ponta do consumo, pelo motivo mais torpe: manter as pessoas acordadas. Todos nós, homens ou mulheres, autônomos ou operários, feministas ou libertários, vivemos num sistema que se instrumentaliza, inclusive politicamente, a partir de inscrições de gênero, sexo, força e utilidade da nossa carcaça. Pra ordem vigente, somos nossas funções.

Ao mesmo tempo - e ainda bem! - o corpo é o mais importante local de soberania individual e contestação. A partir daqui de dentro, do meu corpo, é que surge uma ação transformadora ou resistente. Todos nós usamos o corpo como lugar onde se inscrevem sinais de beleza, saúde, prazer e sexualidade. Mas, porque não ir mais longe e usar a carne para além dos sistemas que se beneficiam da exploração da dualidade dos gêneros, essas atribuições "naturais" e as que são definidas artificialmente pela sociedade em questão?

Como vimos acima, o capitalismo é profundamente investido no sistema obrigatório de dois gêneros, e esse artificio é fundamental para a regulação dos corpos e das funções dos mesmos. O que é certo ou errado, para a sociedade, passa por essas definições, uma vez que garante a máxima eficiência e controle da produção e da reprodução da força de trabalho e o aproveitamento do biopoder. A recusa ativa em cooperar com esse sistema é uma ação radicalmente resistente. Para uma mulher, vivenciar a posse do próprio corpo e ganhar dinheiro utilizando-o no trabalho gera escândalo. E sair da ordem gera medo.

Eu também trabalho

Eu sou Dominatrix. Um trabalho que nem sei se posso chamar de trabalho, pois nessa forma atual é uma atividade única, inédita, nunca vista em nenhum documento histórico e totalmente fora dos padrões seculares de aprisionamento e regulação do corpo feminino, da vontade individual da "trabalhadora" e da força criativa da mulher. Desqualificar a atividade de uma dominatrix, por exemplo, passa por diversos filtros geracionais e sistêmicos: pra além de questionar a minha legitimidade enquanto polo dominante, já que estou recebendo pela atividade, o interlocutor deveria ser um pouco mais denso que o clichê "o cliente é quem manda". A quem duvida que não exerço nenhum tipo de domínio legítimo já que o dominante seria quem está pagando, tente ver a questão por outro anos menos simplório.

Entre o ser humano e a sociedade há uma relação de poder, mediada pelo sistema econômico, tão extrema e tão nociva que chega a ser pensada como irreversível. Mas existem algumas pessoas que desobedecem e se rebelam. O poder se desestabiliza, e esses indivíduos vivenciam muito mais domínio que as migalhas de liberdade que o Capitalismo pode oferecer. Pra eles, o sistema é switcher, não totalmente dominante. Eu vivo a posse do meu corpo.

Eu já fui uma Domme que rompeu algumas barreiras específicas do meio BDSM. Já cometi a sandice de falar em público que eu fazia sexo com o submisso se quisesse, ouvindo babaquices do tipo "dominadora não pode dar, senão não é dominadora". Hoje eu tenho plena vivência da minha liberdade, até para pensar na loucura extrema de fazer um concursinho público de novo... imagina a heresia, o que os libertários e anarquistas vão pensar de mim? Oh!

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