OPINIÃO

Sou uma mulher negra. E tenho muita raiva

Porque não existe um único lugar no mundo que não tenha sido influenciado pela supremacia branca.

28/04/2017 15:33 -03 | Atualizado 28/04/2017 15:42 -03

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Foto por Femi Matti

Porque quando eu tinha 5 anos minha colega no jardim de infância me falou que eu não podia ser a princesa na nossa brincadeira, porque meninas negras não podem ser princesas. Porque eu estava na terceira série na primeira vez em que uma professora pareceu chocada por ver que eu falava tão bem. Porque na quarta-série me disseram que o garoto por quem eu estava apaixonada não gostava de meninas negras.

Porque na sexta série, outro garoto me falou que eu era bonitinha –para uma menina negra. Porque na sétima série o bairro suburbano de maioria negra onde eu vivia foi apelidado de "Spring Ghettos", em vez de seu nome real, Spring Meadows (guetos em vez de campos). Porque na oitava série fui chamada de biscoito Oreo pela primeira vez e me disseram que eu "não era realmente negra", como se isso fosse um elogio.

Porque na nona série, quando troquei de colégio, um garoto me disse que sabia que eu devia ser mestiça de alguma coisa, para ser tão bonitinha. Porque na décima série, eu e meu grupo de amigos fomos convocados para a sala da direção e nos perguntaram se éramos uma gangue ou se tínhamos figuras paternas. Porque na 11ª série meu professor de inglês de nível avançado me falou que eu não escrevia como uma estudante a caminho da faculdade (se bem que mais tarde eu tirei dez no exame).

Porque no verão daquele ano, quando fiz um trabalho voluntário em Costa Rica, assobiaram para mim e me chamaram de "negrita" (negrinha). Porque quando perguntei ao meu "pai", na família com quem estava morando lá, se isso era como ser chamada de "nigger" (crioula, termo pejorativo), ele disse que não, que era um elogio, porque as mulheres negras eram consideradas muito boas na cama. Porque eu era menina.

Porque fiquei vendo da arquibancada um funcionário do colégio não deixar meu irmão participar de uma partida de futebol, depois de confundi-lo com outro aluno negro que tinha sido proibido de participar. Porque o funcionário jogou spray de pimenta na cara do meu irmão por ele insistir que o funcionário estava enganado. Porque eu fui suspensa por dizer ao funcionário que ele não merecia respeito. Porque meu namorado no último ano do colégio falou "nigger".

Porque eu fui uma de apenas duas alunas negras no primeiro ano da faculdade. Porque nas reuniões promovidas para discutir como atrair mais estudantes negros, alguém sugeriu que a faculdade atraía determinado tipo de pessoas (que gostavam de viver de modo sustentável, cultivar hortas e tinham uma mentalidade meio hippy, de modo geral), e que talvez pessoas negras "simplesmente não se interessassem por coisas do tipo". Porque meu namorado na faculdade me chamou de "negra inflamada", de brincadeira, quando pediu comida para mim num restaurante. Porque o namorado depois daquele terminou comigo por eu ter dito que ele tinha privilégios. Porque não posso voltar para a cidade onde fui criada sem ser parada pela polícia quando estou dirigindo.

Porque quando me casei, as pessoas imaginaram que eu tinha me casado por estar grávida. Porque pessoas que sabem que sou casada chamam meu marido de "baby daddy" (alguém que assumiu o filho de uma mulher com quem teve uma relação apenas passageira). Porque quando estava grávida de meu filho, passei a gravidez assombrada por vídeos mostrando vidas negras sendo ceifadas a sangue fria. Porque os assassinos desses negros ainda estão livres nas ruas.

Porque o país me transmitiu a mensagem de que a vida de meu filho não tem importância. Porque quando Tamir Rice foi assassinado, eu me encolhi em cima da cama e chorei, abraçando minha barriga. Porque meu filho me ouviu chorando, de dentro da barriga. Porque eles não se importam conosco. Porque quando eu estava grávida de sete meses meu vizinho me pediu para ajudá-lo a carregar uma cômoda para o andar de cima.

Porque não sou vista como mulher. Porque não me permitem ser frágil. Porque a enfermeira que me atendeu no hospital, quando fui dar à luz, não olhava meu marido nos olhos. Porque a imensa maioria das pessoas não olha meu marido nos olhos. Porque quando os médicos puseram meu filho nos meus braços e eu vi que ele era tão escuro quanto seu pai, percebi que a vida será ainda mais difícil para ele.

Porque ele será visto do mesmo jeito que eu fui vista. Porque ele será forçado a virar adulto antes da hora. Porque desconhecidos na loja acham que tudo bem passar a mão no meu filho, no seu carrinho de bebê, sem nem sequer me pedir permissão. Porque nós não temos direito a limites. Porque eles acham que nós existimos para o prazer deles. Porque as pessoas não nos enxergam como gente.

Porque meu sobrinho me falou que não vai poder ser Homem Aranha, como quer ser, porque o Homem Aranha é branco. Porque, quando tinha 4 anos, ele disse que queria ser branco para poder andar de barco, como as pessoas na TV. Porque eu não pude poupá-lo disso. Porque não posso proteger meu filho. Porque não posso proteger a mim mesma.

Porque sinto medo cada vez que vejo um carro de polícia. Porque quando meu marido sai de casa à noite, tenho medo de ele ser morto por se parecer com alguém. Porque tenho medo de que, se eu desaparecesse, como as outras 64 mil mulheres negras deste país desaparecidas, as autoridades não fariam força para me encontrar. Porque sou descartável. Porque sou odiada. Porque não paramos de morrer. Porque eles justificam nossa morte. Porque ninguém é chamado a prestar contas. Porque sou manipulada psicologicamente.

Porque me disseram que, por me manifestar contra o fato de eu ser oprimida, estou me colocando na posição de vítima. Porque nossos assassinatos são filmados, mas ainda assim são perdoados. Porque não sei o que significa ficar à vontade e fazer o que me dá na telha. Porque fazer coisas que meus pares brancos fazem com a maior tranquilidade poderiam me custar a vida: invadir prédios abandonados, fumar um baseado, usar moletom com capuz, encarar um policial olho no olho, tocar música em volume alto, existir. Porque tenho medo de relaxar. Porque sou traumatizada.

Porque não existe um único lugar no mundo que não tenha sido influenciado pela supremacia branca.

Porque estou presa aqui numa armadilha. Porque as condições de jogo não são iguais para os dois lados. Porque gosto de minha pele. Porque gosto de ser mulher. Porque não odiar a mim mesma é visto como ser radical. Porque já fui chamada de racista por me defender. Porque todos os principais protestos são em defesa de homens negros cisgêneros. Porque já me disseram que falar sobre as mulheres que morreram significa roubar atenção do problema real.

Porque nunca tenho uma folga, nunca posso ficar sem lutar. Porque tudo é uma luta. Porque minha raiva não é validada. Porque não dão a mínima para minha dor. Porque não acreditam na minha dor. Porque se perdoam, sem terem expiado seus erros. Porque não sou livre. Porque a consciência disso permeia tudo. Porque isso não está acabando. Porque ensinam as crianças que já acabou. Porque alguém vai afirmar sua supremacia sobre mim hoje. Porque alguém vai fazer isso amanhã.

Porque eu quero mais. Porque mereço algo melhor.

Este post apareceu originalmente em Those People.

Este post foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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