OPINIÃO

Esqueça as promessas de campanha. A política externa de Trump é mais do mesmo

Trump tem se mostrado cada vez mais imprevisível e é aí que vive o perigo.

08/06/2017 14:52 -03 | Atualizado 08/06/2017 14:52 -03
THOMAS COEX via Getty Images
Donald Trump mentiu ou mudou de ideia?

Em novembro de 2016, logo após a eleição de Donald Trump para a Casa Branca, escrevi um texto em que me perguntava quais mudanças políticas estavam para acontecer com a chegada do novo presidente.

No texto, afirmei que Hillary Clinton representava a continuidade (ainda mais dura) das políticas de Barack Obama, principalmente das políticas problemáticas do país com relação ao Oriente Médio. Trump, o candidato "anti-establishment", um "outsider" em Washington, trazia uma perspectiva diferente, contrária à globalização, à abertura econômica e à influência dos Estados Unidos em assuntos internos de outros países.

Após quatro meses de governo, o que podemos perceber? Trump mentiu, pelo menos no que diz respeito à política externa. Se não mentiu, teve uma brusca mudança de pensamento. Nos debates, ele insistiu que a guerra do Iraque havia sido um erro e que o presidente Bush jamais deveria ter entrado naquele país. Segundo Trump, não se deveria cometer o mesmo erro na Síria.

No entanto, no dia 7 de abril, os EUA conduziram o primeiro ataque de mísseis a uma base militar do governo de Bashar al-Assad. O episódio se deu apenas uma semana depois de Trump declarar que tirar Assad do poder não era uma prioridade.

Cinco dias depois, em 12 de abril, numa conferência de imprensa do Secretário Geral da OTAN, Trump novamente mudou de ideia com relação às suas declarações de campanha, dizendo que a organização militar não era obsoleta. Ele havia declarado diversas vezes que a OTAN era de fato obsoleta durante a campanha.

As relações com a Rússia, sempre tensas, principalmente com a anexação da Crimeia e com o apoio aos separatistas na Ucrânia, parecia que melhoraria. Hillary no poder significaria um aumento das tensões, já Trump sugeriria o oposto: em diversos debates e entrevistas, afirmava que uma amizade entre os dois países seria mais do que bem-vinda. A realidade? EUA e Rússia já trocam acusações, justamente por ações dos governos Trump e Putin na Síria.

A situação da Coreia do Norte segue o mesmo caminho. Após uma campanha em que prometeu cobrar que seus aliados no Leste Asiático (Japão e Coreia do Sul) deveriam arcar sozinhos com suas defesas ou pagar melhor para que os EUA os ajudassem, no governo tudo mudou.

Trump, como seus antecessores, tem continuamente criticado as ações da Coreia do Norte, que, por sua vez, critica as ações militares dos EUA na região. Muitos cogitam inclusive uma guerra entre os dois países. O fato é que os EUA continuará exercendo seu papel de protetor dos seus aliados no Leste Asiático, visto que uma saída do EUA da região significaria um grande ganho de poder para a China, único país que poderá rivalizar o poderio dos estadunidenses nas próximas décadas.

Toda essa reviravolta entre o que foi declarado em campanha e o que vem sendo feito na prática nunca foi grande novidade na política. Promessas de candidatos muitas vezes procuram apenas convencer o eleitor insatisfeito. Contudo, Trump tem se mostrado, assim, cada vez mais imprevisível e é aí que vive o perigo.

Nas relações entre os países, assim como nas relações entre as pessoas, é preciso gerar confiança, e esta muitas vezes vem da capacidade que os países possuem de prever as ações uns dos outros. Ainda assim, algumas posições dos Estados Unidos não dependem do humor de Trump para serem alteradas. Quer o presidente queira ou não, os Estados Unidos são ainda o país mais poderoso do globo economica e militarmente, e tal poderio vem com responsabilidades.

Enquanto esse cenário permanecer, dificilmente Trump, ou qualquer outro presidente, conseguirá mudar a política externa dos EUA numa direção de isolacionismo e anti-globalização. O país continuará intervindo em outros países e comprando brigas com aqueles que desobedecem a ordem por eles imposta. A imprevisibilidade de Trump pode até aparecer no discurso, mas nas ações, ele é mais do mesmo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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