OPINIÃO

Somos todos pedófilos: Por um feminismo menos sádico

28/10/2015 19:57 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Shutterstock / luxorphoto
Foi uma semana aparentemente frutífera para aqueles brasileiros que já não mais vivem na idade das trevas. Pudemos nos deliciar no sadismo dos que presenciam uma surra paterna da qual são meros espectadores e não objeto. Como na fantasia descrita por Freud em "Uma Criança É Espancada" (1919), onde o gozo da criança depende do sofrimento de uma outra criança que a primeira odeia.

"O choro é livre" - a versão eufemística do homofóbico "Chupa!" - foi o refrão dos feeds nas redes sociais. O choro de alguns, claro, decorre no gozo de outros.

O "mimimi" dos reacionários, por exemplo, forçados a desnaturalizar a diferença de gênero ao menos por alguns segundos, não foi alvo das lentes-urubus que fotografavam o desespero dos barrados do Enem - o que não evitou que imaginássemos, em êxtase, seus sofrimentos ao lerem o tema da redação. Os retardatários, em sua maioria negra (de acordo com a evidência fotográfica viralizada), não tiveram a chance de degustar a citação-cliché de Simone de Beauvoir. Imagine a ira, ou absoluta desorientação, se tivessem se deparado com uma citação de Butler. Ou Sedgwick. Ou Preciado. Ou Edelman. Ou Muñoz. Ou qualquer outro filósofo com argumentos verdadeiramente inovadores sobre as questões de gênero.

Citar de Beauvoir em uma questão de gênero é como citar o rádio em uma questão sobre novas tecnologias. No que nós teóricos de gênero tentamos imaginar o que jaz além do horizonte do pós pós pós-queer, vem o Enem e acorda o gigante ao citar o mais dormente dos truísmos feministas. Talvez até os bem intencionados estejam na idade das trevas. Uma perversa coincidência de temporalidades.

Bem intencionados como alguns críticos do gozo pedófilo que o MasterChef Júnior suscitou, ou simplesmente literalizou, tanto nos tweets que cobiçaram o corpo da Valentina - linda, loira e branca, quanto os que achincalharam (uma espécie de negação grotesca da própria cobiça) o do Hytalo - pardo e de gênero não-conformante, por "ser viado e ainda n [sic] dar o cu por ser criança."

Já sabíamos que a sofisticação tende a não fazer parte do menu linguístico do brasileiro desde que começaram a mandar a presidenta da república tomar no cú. Mas na ocasião, poucos reclamaram, já que além de não ser criança (puras e angelicais como todas certamente são), não era homem mas também não era feminina, não era magra e nem bem casada, e ainda acha graça da invasão de ex-miseráveis em nossos aviões. O que demonstra que nem o mais coxinha dos tataranetos da ditadura precisariam entrar no mérito da violência física contra a mulher no Brasil para desenvolver o tema feminazi da maldita redação.

Enquanto isso, uma das juradas de Masterchef Júnior pediu a cabeça dos covardes que fizerem comentários pedófilos e homofóbicos na internet - "Luz na cara deles" - como quem encoraja a multidão que assiste os ataques de justiceiros a se apropriar da estratégia sórdida dos mesmos: Dos linchamentos apenas troquem o alvo. Uma espécie de olho-por-olho-dente-por-dente em nome da inocência infantil. Não precisamos de muito esforço intelectual para esboçar uma longa lista de barbáries cometidas pela a história em nome da a-sexualidade das crianças.

O problema dos bem-intencionados de plantão que incentivam a humilhação pública da meia dúzia de trolladores que se acham imunes a certos tabus é que estes projetam um problema constitutivo da cultura à figuras específicas e bem demarcadas (por vezes o local do "pedófilo" foi ocupado pelo homossexual, o negro, o judeu...). Nisso esquivam-se de qualquer responsabilidade: O "eu" sempre imune à cultura do estupro e outros males indispensáveis ao regime heterossexual, o "outro" sempre implicado como pessoa, jamais como sintoma de uma equação cuja autoria é de todos nós. Não se trata do incentivo da juíza do programa de TV à denúncia, mas do modo histérico de devolver o ódio na mesma moeda ("Denuncie. Denuncie. Denuncie. Denuncie."), para nos apropriarmos do gozo do outro, gozarmos por último, gozarmos melhor, pois "quem tem que ter medo são eles."

Todos os dias, autorizamos não só a violência de gênero mas o olhar pedófilo na maneira como reproduzimos os ditos de uma sociedade que precisa de ambos - o abuso naturalizado contra corpos femininos (cis-, trans-, entre outros) e a fetichização da figura, e do corpo, da criança, para se manter em pé. Por mais que repitamos "não me representa," como meme ou como mantra, a verdade é que enquanto ensinarmos meninas a serem princesas pudicas, e fadas vulneráveis (a serem "mulheres" ao invés de se tornarem, se assim for), estaremos modelando seus corpos como apetitosos e violáveis. Ao naturalizar a impotência cor-de-rosa como pré-requisito de legitimidade social, colocamos os corpos de nossas meninas na bandeja de prata para que sejam devorados por nossos meninos, os famintos pegadores futebolistas--estes sim os verdadeiros predadores.

Tentamos projetar essa fome nos trolladores do twitter, mas esse Frankenstein tem o nosso IP address. São nossos próprios filhos que a dão vida, e são nossas próprias mãos que providenciam a isca.

Se o olhar dos meninos, naturalizados como predadores inerentes, reconhecem suas presas prematuramente (antes de serem devidamente oferecidas pelos seus próprios pais na casa de Deus), trata-se apenas de um falta de sincronia. Como um consumidor que quebra o protocolo da economia de consumo ao chegar na loja da Apple antes do novo iPhone estar devidamente exposto na vitrine. Porque o olhar desses homens famintos nos choca se é exatamente em nome dessa fome que traçamos o destino imaculado de nossas filhas antes mesmo de nascerem?

Para a feminista Carol Patrocínio, conceitos complicados e instáveis como "infância normal," consentimento, culpa e corpo ("ela tem um corpo de uma menina de 12 anos") são postos como incontestáveis. Patrocínio procura no dicionário, aquela incontornável fonte de respostas feministas, o significado de palavras como "ninfeta" para provar seu ponto. Alguns de seus pontos, aliás, que se resumem a "errado e horrível" e "maldades sem fim." Patrocínio, para quem crianças "são apenas crianças. E qualquer intenção não fraternal direcionada a elas é crime," reitera as mesmas ficções da criança-querubim assexuada das maiores fantasias reacionárias. Talvez devêssemos nos perguntar o que realmente nos atrai - nós, todos nós - na imagens de crianças prodígio, crianças fofas, crianças brancas, crianças pintosas, adultas vestidas como crianças, ao invés de linchar os twitteiros trolladores como se de suas patologias não entendêssemos nada. Como se tivessem sido criados por uma cultura alienígena da qual não pertencemos. Como se o gozo escancarado do outro não tivesse nada a dizer sobre a maneira insidiosa de escamotearmos o nosso.

A cultura do estupro é uma cultura pedófila e ambas formam a cultura heterossexual que erigimos com tanto esmero. Essa relação triangular - pedofilia, estupro, heterossexualidade - se torna evidente, por exemplo, no programa de TV norte-americano "To Catch a Predator," onde a rede NBC e o FBI promovem operações para pegar predadores sexuais infantis minutos antes de cometerem o delito físico. Uma policial se faz passar por uma menor de idade na Internet e marca um encontro com o suposto predador. Quando esse chega no local se depara com o apresentador Chris Hanson (branco, alto, cabelo do Ken e pinta de jogador de golf), que o desmascara em frente as câmeras.

Em "To Catch a Predator," não basta pegar o predador. Temos que humilhá-lo. Mas nosso gozo vai muito além de um Schadenfreude gratuito. Hanson lê em voz alta as partes mais explícitas do diálogo online entre predador-em-potencial e a suposta criança. Ao tentar negar que suas intenções seriam sexuais, o predador se vê encurralado por Hanson: "Mas você disse que queria lamber a ____ dela...E que queria colocar seu pênis na frente e atrás!" O telespectador, confortável em seu discurso de nojo, prova do mesmo gozo do predador. Predador e telespectador se transformam na mesma figura, como diz a filósofa norte-americana Amy Adler, que também encontra uma relação entre o prazer de taxar o outro de pedófilo, para poder então atacá-lo e se redimir de qualquer "maldade sem fim," e a fantasia da criança sádica do texto de Freud: Uma criança, que não sou eu, está sendo espancada, y a mi me gusta!!!

O problema não é a meia dúzia de trolladores que anunciam suas ereções nas redes sociais para provocar gargalhadas em seus colegas machos (já dizia Luce Irigaray: a heterossexualidade é a homossexualidade entre homens mediatizada pelo corpo da mulher). O problema é a rede de condições que criamos para que essa meia dúzia se ache no direito de violentar quem quer que seja - menina ou mulher, criança ou adulta, mulher de família ou mulher-fruta. E essas condições são produtos do nosso dia a dia, de como construímos a ficção da criança sem libido, ou do olhar necessariamente assexuado do adulto para com a criança - quando, na realidade, os corpos infantis nos fascinam. "To Catch A Predator" é apenas um exemplo explícito desse fascínio que nos permeia e nos constitui. Nossas timelines estão repletas destes pequenos corpos macios - sorrindo, chorando, dançando, tomando banho. Aprendemos a negociar e higienizar nosso gozo pedófilo - aqueles que queremos tanto reservar para os poucos que articulam no quasi-anonimato virtual - ao impor nesses corpos que desejamos (observar, abraçar, morder, ninar) uma inocência que não lhes é intrínseca para que a sexualidade da criança não exponha a nossa própria. Se nos convencemos da a-sexualidade desses anjos nossa relação com eles não é perversa, mas sacra.

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