OPINIÃO

Pós-boteco: A última semana de Rodrigo Janot como procurador-geral da República

Logo depois de pedir a prisão de Joesley Batista, o PGR foi flagrado em bar de Brasília com advogado do empresário-delator.

11/09/2017 00:03 -03 | Atualizado 11/09/2017 15:33 -03
Reprodução/O Antagonista
De óculos escuros, Rodrigo Janot tomou cerveja artesanal com Pierpaolo Bottini.

Em seus derradeiros momentos como procurador-geral da República, Rodrigo Janot está estremecendo a Praça dos Três Poderes com uma série de denúncias apresentadas de última hora e atitudes que colocam em xeque a condução de seu acordo com a JBS, empresa alvo da Operação Lava Jato.

Em menos de uma semana, o PGR:

- Denunciou duas vezes os ex-presidentes petistas Lula e Dilma Rousseff: por organização criminosa, pelos desvios de dinheiro na Petrobras, e por obstrução da Justiça, pela nomeação de Lula para a Casa Civil de Dilma em 2016. A segunda denúncia já foi remetida do STF (Supremo Tribunal Federal) à primeira instância;

- Denunciou a cúpula do PMDB no Senado por organização criminosa, incluindo Renan Calheiros e o ex-presidente José Sarney. A denúncia está relacionada à delação premiada de Sérgio Machado, ex-diretor da Transpetro, empresa subsidiária da Petrobras;

- Admitiu em público a revisão do acordo de delação premiada com os executivos da JBS, alvo de críticas pelas aparentes vantagens dadas a Joesley Batista e a cúpula da empresa, sobretudo a imunidade penal. Com a inclusão de novos áudios como provas, Janot revelou que seu ex-auxiliar de confiança Marcello Miller pode ter atuado como "agente duplo", incumbido do processo ora na procuradoria, ora em escritório de advocacia da empresa de Joesley;

- Pediu ao STF a prisão de Joesley e Ricardo Saud, diretor da J&F, pegos em áudio comprometedor, e de Miller. O ministro Edson Fachin acolheu parte do pedido e mandou prender Joesley e Saud em caráter temporário;

- Enfim, sábado à noite, dia seguinte a ter pedido a prisão de Joesley, encontrou-se às escondidas com o advogado do empresário, Pierpaolo Bottini. A foto da conversa entre os dois, em um boteco de Brasília, foi revelada pelo site O Antagonista. Disseram tratar-se de um encontro "casual".

Em nota enviada ao G1, a procuradoria informa que Janot "frequenta o local rotineiramente" e a pauta da conversa não foi nada além de "amenidades".

O inusitado — e pouco ético — encontro entre o PGR e o advogado de Joesley é só a cereja do bolo de uma sequência de falhas ou inconsistências que cercam a delação mais bombástica da Lava Jato.

Conforme a Folha apurou, há várias incógnitas, como o paradeiro do arquivo original do diálogo entre Joesley e Michel Temer, primeiro presidente a ser denunciado no exercício do mandato por corrupção. A conversa que a princípio comprometia Temer e podia lhe custar o mandato, como o próprio HuffPost Brasil defendeu, pode ser anulada como prova, haja vista as irregularidades que estão sendo apuradas no acordo que teve Miller como um dos principais articuladores.

Faltando apenas uma semana para Janot passar o bastão para Raquel Dodge, os brasileiros ficam à espera de explicações do PGR sobre suas últimas atitudes — sob pena da instituição que ele representa também sair arranhada nessa interminável crise de reputação que acomete a República brasileira.

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