OPINIÃO

Mulher espancada no Guarujá: dona de casa morre após ser alvo de justiceiros em meio a boatos

05/05/2014 15:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

- Aê, é ela mesmo.

- É ela mesmo.

- Tem certeza, irmão, que é ela mesmo? Tem certeza?

- Ah, lá, na foto.

- Vou pegar a foto ali.

Essa conversa foi captada em um dos vídeos do YouTube que mostram o espancamento de uma mulher no Guarujá, na Baixada Santista (SP), no fim de semana.

O diálogo ilustra bem as circunstâncias do linchamento de Fabiana Maria de Jesus, dona de casa, mãe de duas crianças.

Ela já havia sido linchada, amarrada e espancada.

Mas as dúvidas persistiam: era ela mesmo a pessoa que merecia aquela sova fatal?

E por que mesmo um ser humano merecia aquele castigo irracional?

Moradores do bairro Morrinhos teriam confundido Fabiana com a suspeita de sequestros de crianças na cidade.

Havia uma foto com uma mulher parecida com ela.

E havia um boato.

Foi o suficiente para explodir a sede de justiça e de vingança da vizinhança de Morrinhos.

O advogado da família de Fabiana diz que o problema começou na comunidade do Facebook Guarujá Alerta, que informou sobre boatos de crianças sequestradas para ritual de magia negra.

Segundo o G1, a página publicou um retrato falado com imagem semelhante à da vítima.


Como a comunidade informou, não havia crime.

Portanto, não deveria haver criminosa.

Mas a comunidade de Morrinhos interpretou que havia crime, havia criminosa e ela devia pagar.

Devia ser punida.

E fez justiça com as próprias mãos, tal qual a turma de justiceiros do Rio de Janeiro que, no início do ano, torturou e prendeu um rapaz pelo pescoço a um posto no Flamengo, onde ele praticava roubos.

justiceiros

Estado de Natureza

A onda de justiceiros, aplaudida por setores da sociedade considerados reacionários, se espalhou pelo País neste semestre.

Expressões como "vagabundo" e "tem que aprender" são comuns nesse discurso, que nada mais é que uma apologia ao crime como resposta ao crime.

Por mais que a sociedade deseje a punição dos responsáveis pela violência, existem instrumentos do Estado para garantir o castigo.

À polícia, cabe reprimir e investigar. À Justiça, julgar e punir.

O cidadão deve denunciar, cobrar da polícia, acionar a Justiça, recorrer, bradar.

Mas quem nos deu o direito de violar o próximo?

De espancar uma mulher?

De julgar quem é um criminoso quando nem um crime existe?

Que poder foi esse que nos foi conferido de supetão para nos reunirmos em bando e sairmos linchando, amarrando em poste, batendo, chutando um menino ou uma dona de casa?

Com crime ou sem crime, justiçamentos são indefensáveis. Eles não melhoram a sociedade.

Eles não nos melhoraram.

Pelo contrário, reduzem-nos a animais sem civilidade, em uma fase bastante anterior à sociedade com suas instituições que permitem (ou ao menos tentam) o bem-estar coletivo.

Para protestar, é imperativo que a razão seja mais vigorosa que qualquer estado natural hobbesiano.

Se o homem é o lobo do homem, precisamos lutar por mais razão, mais educação, mais instrumentos normativos para que a civilidade paute nosso caráter e nossas ações na sociedade.