OPINIÃO

Morte de DG: Douglas, Amarildo, Claudia e a tensão permanente com a Polícia Militar nas favelas do Rio

24/04/2014 13:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
Divulgação/Facebook

Amarildo, ajudante de pedreiro, trabalhador honesto, pai de seis.

Claudia, auxiliar de serviços gerais, trabalhadora honesta, mãe responsável pela educação de oito - quatro filhos e quatro sobrinhos.

Douglas, dançarino com fama na TV, trabalhador honesto, pai da pequena Laylla.

Em comum, o suor da labuta e a dedicação à prole.

Em comum, também, as circunstâncias da vida e da morte.

Os três viviam em favelas cariocas.

Os três foram assassinados.

Nos três casos, investiga-se a ação criminosa da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Douglas Rafael da Silva Pereira, 26, foi encontrado morto em uma creche na favela do Pavão-Pavãozinho, em Copabacana, zona sul do Rio.

A princípio, a polícia disse que a morte foi provocada por uma "queda".

A mãe do jovem, Maria de Fátima Silva, logo contestou: "tenho certeza que [policiais] torturaram e mataram ele".

Copacabana ardeu em protestos.

Ao jornal O Globo, diversos moradores da comunidade denunciaram agressões que os jovens sofrem de policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local.

Um adolescente disse que quase todos os amigos dele já foram estapeados por PMs.

"Basta estarmos parados conversando para eles nos tratarem como bandidos", revelou.

Por que jovens e adultos sem envolvimento com o crime são tratados como bandidos?

Qual é o problema da PM do Rio de Janeiro, que é mais temida que respeitada nos morros?

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DG, o ídolo na favela

Douglas ou DG do Bonde da Madrugada era um jovem herói para os amigos do Pavão-Pavãozinho.

Estrela de TV, dançava no programa Esquenta, de Regina Casé.

Já não morava mais na favela, mas frequentava a comunidade para ver a família.

Fazia questão de lembrar as origens, das quais tinha orgulho:


O "simples moleque da favela" via no trabalho o passaporte para uma vida melhor.

Gostava de curtir com festas e garotas.

Bancava o fã e tirava selfies com as musas do momento, como Anitta e Valeska Popozuda.


Era um jovem como tantos outros, que havia conseguido uma visibilidade de poucos.

Quem o conhecia diz que era bom menino, sem qualquer laço com crime.

Mesmo inocente, foi alvo de um tiro fatal durante um tiroteio entre PMs e traficantes na noite de segunda-feira (21).

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Polícia militar em xeque

O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse ontem (24) que os dez policiais envolvidos na troca de tiros foram identificados.

Ele não descarta a participação deles na morte de Douglas, mas afirma que não existem "indícios claros de envolvimento" dos PMs.

Por isso, eles continuam em serviço.

Com o caso de DG, mais uma vez a abordagem dos PMs nas ações nas favelas e mesmo a eficácia das UPPs estão em xeque.

Chegar atirando...

Trocar tiro sem identificar claramente quem está do outro lado...

'Esculachar' jovens e tratar a maioria deles como bandidos...

Que pacificação é essa?

Que segurança é essa oferecida pela polícia, que deixa a comunidade se sentindo mais insegura com a presença dos PMs?

O governo do Rio de Janeiro precisa encarar como prioridades a reeducação de suas tropas e as ações visando à melhoria das relações entre polícia e comunidades.

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