OPINIÃO

Gilson, Wanderson e a dor seletiva da violência no Rio de Janeiro

21/05/2015 14:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
Montagem/Estadão Conteúdo

O Rio de Janeiro das desigualdades, do asfalto e do morro, da Lagoa e do Dendê, reflete o tato ambivalente dos brasileiros sobre uma mesma questão: a violência.

Parece que o assassinato do médico, ciclista, na zona sul do Rio dói mais.

Dói mais nas autoridades. Dói mais na imprensa. Sangra mais na TV.

Ontem mesmo, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame postou vídeo no YouTube classificando de "inadmissível" o esfaqueamento de Jaime Gold na Lagoa. A semântica de Beltrame não deixa lugar para dúvidas: a Lagoa é um lugar "querido por todos os cariocas" e, por isso, não pode ser alvo de crimes.

"É inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa Rodrigo de Freitas, um lugar querido por todos os cariocas, um lugar frequentado pela população do Rio de Janeiro, pela população estrangeira, por todos os turistas que vêm ao Rio de Janeiro. Não pode (sic) acontecer e se repetir cenas dessa natureza. (...) Um lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas não pode, de maneira nenhuma, ser alvo desse tipo de atitude porque é um local onde todos frequentamos, onde todos gostamos de ir, é um cartão-postal. (...) Ações dessa natureza nesse local, é inadmissível que isso aconteça. E o atual comando assume com essa primeira missão, que é a proteção total da Lagoa Rodrigo de Freitas."

Sobre os dois assassinatos no Morro do Dendê, na zona norte, nenhuma palavra de Beltrame.

Por que as mortes do adolescente Gilson Silva dos Santos, de 13 anos, e de Wanderson Jesus Martins, de 24, não mobilizaram autoridades estaduais e municipais do Rio?

Os dois foram condenados à indiferença perpétua por terem nascido, vivido e morrido na periferia -- e não em um cartão-postal?

O morro é menos que a Lagoa? Menos querido, menos importante e, por isso, menos digno de ter segurança e tranquilidade?

Não podemos banalizar a violência, independentemente da geografia do crime.

Foi, sim, uma tragédia o que aconteceu com Jaime. Precisamos acompanhar as investigações. Cobrar mais segurança na Lagoa.

Mas e quanto às duas mortes no Dendê?

Enquanto a cobertura jornalística delas deixou a desejar, o jornal Extra, em sua edição desta quinta-feira (21), defendeu que não podemos esquecê-las:

Um policial civil confessou hoje ter atirado em Gilson e Wanderson durante uma operação no Dendê. Ele alega que ambos estavam armados.

Os familiares das vítimas rejeitam a tese. Segundo eles, os dois foram comprar pão no momento dos disparos.

Ao Extra, a mãe de Wanderson disse que o jovem era "trabalhador", registrado em carteira desde o início do mês. Maria Aparecida de Jesus Melo condenou os policiais envolvidos na operação no morro:

"[Esses policiais] São assassinos. Eles mataram brutalmente o meu filho e o outro menino. Foi homicídio, os dois não tinham arma nenhuma. Meu filho tinha carteira assinada e era trabalhador."

violencia

Se houve imprudência ou excessos dos policiais, isso precisa ser apurado e esclarecido. Jornalistas devemos ajudar na investigação ao ouvir as vozes de todos -- das famílias das vítimas, das testemunhas, da polícia.

Um tiroteio na favela não pode ser considerado algo corriqueiro e portanto desprezível. Governantes e secretários de Segurança têm que levar as nuances de cada crime em consideração.

É inadmissível qualquer violência em qualquer lugar a qualquer tempo.

A dor e a mobilização consequente dela não podem ser seletivas.


MAIS VIOLÊNCIA NO RIO:

Crianças no Complexo do Alemão pedem paz