OPINIÃO

A minha empregada é...

23/05/2014 14:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A minha empregada é anta. Faz tudo errado.

A minha empregada é burra. Nunca entende nada.

A minha é uma elefanta. Destrói a casa toda.

A minha, porca. Não sabe limpar direito.

Anta, burra, elefanta, porca.

As domésticas devem ser recrutadas na fauna brasileira.

Ou saem dos esgotos bichos escrotos.

E, se eu - o patrão - a trato como tal, sou também um animal!

Nesta semana, um perfil criado no Twitter apimentou o debate do classismo e da relação patrão-doméstica no Brasil.

A Minha Empregada reproduz tweets que contêm a expressão "a minha empregada".

Há postagens de perfis de ~humor~, mas muitas são de gente de verdade, jovens e adolescentes sobretudo.

Fiz uma curadoria dos retweets mais emblemáticos da @aminhaempregada.

Você vai perceber que os autores se consideram donos das empregadas de estimação:

Opiniões sobre trabalhadoras domésticas colhidas pelo perfil @aminhaempregada


Origens da "minha empregada"

Não se pode dizer que essas mensagens compartilhadas publicamente representam o que pensa a maioria dos brasileiros.

É evidente, no entanto, o ranço do pensamento que reduz empregados a bichos.

E a uma propriedade; afinal, a empregada é "minha".

Para o Geledés Instituto da Mulher Negra, é uma herança do escravismo.

Verdade; as mucamas da senzala eram (des)tratadas como animais.

Aprisionadas ao "ofício" na casa grande.

Surradas, espancadas, bacalhau no lombo.

Estupradas pelos senhores de engenho.

E é claro que a alforria não veio com a fraude do 13 de maio de 1888 (como já demonstrei nesse texto aqui).

empregada

Uma cozinheira, um burro, um cão perdido

A Minha Empregada me remeteu imediatamente a um artigo publicado pelo publicitário Nizan Guanaes na Folha de S. Paulo em novembro de 2011.

Em "Procura-se uma grande cozinheira", o executivo diz que o bom momento da economia brasileira reduz o número de mulheres qualificadas para a função - de prover banquetes deliciosos a famílias abastadas como a dele.

"Os primeiros anúncios publicitários feitos neste país foram de coisas triviais como vender um burro, achar um cão perdido ou buscar uma cozinheira", escreveu Nizan. "O peixe que um anúncio vende pode ser vender um carro, um perfume, recrutar uma cozinheira, mas anúncios são feitos para vender o peixe."

Em seu habitualmente engenhoso jogo de palavras, Nizan acabou nivelando a cozinheira ao cão, ao burro e ao peixe. Animais.

Também coisificou: um carro, um perfume, uma cozinheira.

Claro, a intenção dele era traçar um histórico dos anúncios publicitários no Brasil.

Mas a forma que escolheu, com os exemplos de bichos e objetos, inevitavelmente reforça estereótipos da cozinheira.

Ela vira uma posse ou é "animalizada" em um lar.

E nossos filhos passam a absorver esse pensamento e certamente reproduzi-lo no dia a dia.

Inclusive no Twitter.

maid

A humanidade da empregada e do patrão

Com o pensamento e a postura tratados neste blog, o contratante (e família) retira a humanidade da empregada.

Essa desumanização, por meio de ofensas, preconceitos e queixas constantes, revela o choque de diferentes realidades sociais, classes diferentes.

Para essa relação melhorar, é necessário ao patrão ter empatia com a funcionária e compreender o cotidiano dela (transporte público de n horas, SUS, filhos na escola pública).

Se a trabalhadora não está acertando, cabe a ele instruí-la. Cada lar tem seus hábitos; cada família, suas nove horas. Nenhuma pessoa é anta, burra, jumenta por não atender a uma expectativa específica.

Mais produtivo que ficar me queixando no Twitter que "minha empregada" passou a blusa quadriculada, em vez da listrada, pode ser aprender a passar minha própria roupa. Ou orientá-la mais claramente, compreendendo a singularidade da realidade dela.

Minha empregada não é minha. Não é posse.

É uma trabalhadora doméstica, com direitos assegurados pela lei desde 2013.

E é um ser humano.

E eu e você, patrões, precisamos também ser. Humanos.