OPINIÃO

As exportações brasileiras e os seus desafios

O País deve adotar políticas que não apenas busquem resolver entraves do ambiente econômico e de negócios, mas que também adentrem as empresas.

13/03/2017 14:55 -03 | Atualizado 13/03/2017 20:55 -03
Reuters Staff / Reuters
Fábricas preparam transporte de cargas em navios em Jaraguá do Sul (SC).

O ano de 2017 foi iniciado com notícias animadoras sobre o comércio exterior brasileiro. De acordo com dados da Secretária de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Secex), o Brasil registrou nos dois primeiros meses deste ano um crescimento das exportações e das importações de 23,6% e 12,0%, respectivamente, ante o mesmo período de 2016.

Com isso, o primeiro bimestre de 2017 suscita a expectativa de vários analistas e do governo de que tais resultados são bons sinais de recuperação dos preços e das quantidades dos bens exportados pelo Brasil para este ano, assim como, pelo observado nas importações, um indicativo da retomada da atividade econômica no País.

Contudo, embora com um desempenho positivo neste começo de ano, é imprescindível considerar que a evolução do comércio exterior pelos valores exportados e importados, por si só e isoladamente, não revela de maneira adequada as bases e os fundamentos de seu crescimento.

Pelo contrário, pode camuflar severas restrições e entraves para um comércio mais vigoroso e sustentável, conforme já alertado em artigo publicado em dezembro passado neste blog, intitulado "Muito além da balança comercial".

Diante desse contexto, é de extrema relevância que o comércio exterior seja analisado e pensado estruturalmente, com diagnóstico que exponha com clareza as suas fragilidades e, dessa forma, permita que esforços sejam direcionados para indução de incremento robusto, competitivo e sustentável.

Aliás, tal demanda não é nova no Brasil. Afinal, o comércio exterior compõe a agenda pública econômica brasileira desde meados do século XX, mediante amplo debate sobre a sua relevância para o crescimento da economia nacional, o que adquire maior intensidade em momentos de arrefecimento do produto interno do País.

O atual cenário não é diferente, retomando-se na esfera pública discussão sobre a necessidade de incentivar as exportações brasileiras, com foco na diversificação de mercados e produtos e na ampliação do número de empresas exportadoras, como bem explicitado no Plano Nacional de Exportações 2015-2018.

Porém, ainda que tema recorrente e normalmente acompanhado de políticas para esses fins, os resultados parecem pouco satisfatórios até então, dado o potencial brasileiro. Entre 2001 e 2015*, o Brasil ampliou 227,9% os valores de suas exportações de bens e 11,3% o número de empresas exportadoras (Secex, 2017). Entretanto, embora cifras expressivas à primeira vista, esse desempenho, quando analisado em conjunto com outras variáveis, descortina situações que demandam atenção.

Em primeiro lugar, destaca-se que, a despeito de um aumento considerável das exportações nesse período, outros países expandiram mais fortemente as suas vendas, fazendo que a participação brasileira nos fluxos mundiais não se alterasse muito, registrando uma média de apenas 1,2% (Secex, 2017). Mediante tal desempenho, o País não conseguiu avançar além da 25ª posição no ranking exportador, não obstante estar entre as 10 maiores economias do planeta.

Com relação à base exportadora agregada**, após rápida ampliação entre 2001 e 2004, iniciou-se encolhimento sucessivo até 2013, quando houve uma retomada a patamares próximos àqueles computados em 2006.

A diversificação de mercado também não ocorreu de maneira significativa. Desde 2001, cinco países praticamente respondem por 46% das nossas exportações, com destaque para China, que, nesse período, assumiu o status de primeiro destino e, em 2015, recebeu aproximadamente 20% do total das vendas brasileiras ao exterior.

Nesse tempo, a participação das exportações no PIB, após tímida melhora, atingiu, em 2015, praticamente o mesmo patamar de 2001, além do agravante da perda de produtos manufaturados na pauta exportadora, saindo de 56,5%, em 2001, para 38,3%, em 2014.

Dessa forma, configura-se um cenário em que ampliação das exportações brasileiras merece algumas ressalvas, a saber: i) encontra dificuldade para ampliar de maneira sustentável a sua base exportadora, ii) tem, em grande medida, reconfigurado a composição de sua pauta de exportação em detrimento dos manufaturados, iii) tem dificuldade de diversificar mercados de maneira mais intensiva e iv) não tem conseguido aumentar a participação das exportações na atividade econômica nacional.

Como superar tal situação? Para responder esta questão é importante qualificar o debate e considerar que o comércio exterior não se trata apenas de uma dimensão macroeconômica. Não obstante seja utilizado no discurso frases como: "o Brasil precisa aumentar as suas exportações" ou ainda que a "China é uma grande exportadora", é importante atentar para o fato de que, na verdade, os países não exportam, não fazem comércio! As economias nacionais são os ambientes, quem exporta / importa são os agentes econômicos, principalmente as empresas. Assim, não é possível pensar qualquer mudança robusta no padrão e no nível comercial de um país sem considerar as dimensões microeconômicas e empresariais presentes e determinantes dessa dinâmica.

Isso é relevante, pois, para muitos dos envolvidos nessa discussão, inclusive na esfera governamental, o perfil de expansão comercial brasileiro decorre apenas de variáveis macroeconômicas, com destaque ao câmbio.

Não por acaso, diversos setores industriais criticam a política cambial nacional, que, por longo período, resulta em um Real apreciado em relação ao Dólar Norte-americano, o que prejudica a competitividade dos exportadores, em particular dos manufatureiros, reduzindo o desempenho exportador do País. A favor desse argumento, observou-se que, em períodos de depreciação cambial, houve respostas dos exportadores, inclusive com a expansão do número de empresas que passaram a exportar.

Porém, é importante atentar que a expansão e a diversificação das exportações não se reduzem ao câmbio, embora este seja relevante. As exportações também dependem de dimensões microeconômicas, muitas vezes esquecidas, as quais, em grande parte, não são apenas do ambiente negócios (como infraestrutura, ambiente institucional etc), mas pertinentes ao nível das empresas, com destaque ao perfil do empreendedor / tomador de decisão e aos modelos organizacionais de gestão e de operações adotados pelos empreendimentos.

Essa conclusão é corroborada pela análise de dados de empresas exportadoras versus não exportadoras no Brasil e no exterior, que já permite observar que características internas, que vão desde a mentalidade e as competências dos tomadores de decisão das empresas, passando pela qualificação da mão de obra e modelos de gestão e de operações, até tecnologia e escala, são determinantes tanto da exportação quanto da permanência nesta atividade.

Tratam-se de variáveis que são críticas e prementes de destaque no debate nacional, uma vez que indicam que, mesmo que exista uma taxa de câmbio considerada competitiva, não necessariamente as empresas se tornarão exportadoras.

É fundamental que, além de melhorias no ambiente de negócios do País, o empreendimento esteja orientado e apto internamente a desencadear essa atividade, para que ela seja exitosa e sustentável no tempo.

O que no Brasil nem sempre ocorre, com entraves arraigados em uma mentalidade empresarial ainda muito voltada ao mercado interno, que por vezes restringe a possibilidade da inserção internacional, em que se somam lacunas de competências organizacionais, as quais resultam em baixa propensão à inovação e diversos outros problemas de gestão e operações que prejudicam a competitividade da empresa para internacionalização.

Dessa forma, é imprescindível que a agenda brasileira incorpore, simultaneamente, as dimensões macro e microeconômicas no desafio das exportações, com políticas que não apenas busquem resolver entraves do ambiente econômico e de negócios, mas também adentrem as empresas e impactem a mentalidade dos empresários e os modelos de gestão e de operações.

Nesse sentido, ações de capacitação, apoio informacional e de inteligência estratégica de mercado, a exemplo de várias frentes promovidas pela Apex-Brasil e pelo Sebrae, são bem-vindas e devem ser fortalecidas em escopo, conteúdo e direcionamento. Do contrário, o Brasil estará fadado a expansões comerciais tímidas, muito aquém de seu potencial empresarial instalado.

* Foram utilizados dados consolidados.

** Foram utilizados CNPJ com oito dígitos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.