OPINIÃO

A (des)importância do teatro no país do futebol

11/02/2014 09:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Um dos festivais de artes cênicas mais famosos, antigos e prestigiados do Brasil, o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, o FIT, está em crise. Há anos patrocinado pelo Sesc, perdeu essa parceria já para sua edição de 2014. Dizem que o motivo foi o desentendimento do Sesc com o secretário de cultura da cidade, não muito afeito a assuntos teatrais... Aliás, parece que o prefeito -- um médico e ex-professor de biologia nos cursinhos pré-vestibulares de Rio Preto -- também não é nem um pouco chegado a teatro. Em janeiro, cancelaram o também tradicional festival de teatro infantil, que proporcionava espetáculos a crianças carentes daquela região.

Sem a gorda verba que o Sesc sempre destinava ao FIT Rio Preto, a saída foi adiar o evento de julho -- tradicionalmente o mês em que sempre se realizava -- para agosto. Algumas atrações internacionais já teriam sido canceladas de antemão. O atraso no calendário seria uma tentativa de ganhar um pouco mais de tempo para conquistar novos patrocinadores, um pouco mais de tempo para organizar tudo sem a infraestrutura e a experiência logística do Sesc e, claro, a desculpa mais usada neste ano de 2014: a Copa do Mundo de Futebol já terá terminado em agosto...

Desde que oficializaram o Brasil como sede da Copa 2014, só se ouve essa justificativa para paralisar, cancelar, adiar, desistir dos mais variados eventos culturais do país. Muita gente nem tenta, joga a toalha antes, risca o calendário de vermelho nos dias que compreendem o cronograma de jogos. Há mais de 2 anos ouço a ladainha prévia e derrotista de que "não haverá dinheiro para a cultura em 2014", pois os patrocinadores cancelariam as verbas geralmente usadas para apoios culturais, desviando-as para publicidade e eventos relacionados à Copa. Ok, isso tem base na realidade e é um dado importante -- mas nem tentar??? Como se desiste fácil de tudo o que se relaciona à cultura, não?

Sim, o país todo vai parar enquanto a seleção brasileira estiver na disputa, ou seja, em dias de jogos do Brasil. Mas é só. Nos outros dias, seria perfeitamente possível manter uma peça em cartaz. Ou não? Haverá público, sim. Ou estou errado? Por acaso os cinemas vão fechar suas portas durante toda a Copa? Cadê a coragem dos produtores e dos programadores teatrais? Cadê a perseverança, a fé na qualidade artística de seus eventos, a capacidade de convencer diretores de marketing? Sei de vários espetáculos teatrais que terão de ser cancelados em junho e julho, porque os programadores dos teatros desse Brasilzão afora não querem arriscar. É óbvio que tudo fica mais difícil com a Copa, claro que fica, mas será que não entra nessa questão uma boa pitada de comodismo e, até, de baixa estima dos próprios realizadores culturais? Vamos acreditar mais na força do teatro, minha gente. Que tal? Cruzar os braços por 2 meses, esperando a bola terminar de rolar?!

Estava pensando nisso tudo, e no quanto não serei apoiado nem sequer compreendido pela maioria dos que me lerem aqui, quando recebo a grata notícia de que o Circuito Cultural Paulista, realizado anualmente pelo Governo do Estado de São Paulo, em quase 100 municípios carentes de eventos culturais, não vai suspender sua programação nos meses de junho e julho de 2014. Ajustes de horários deverão ser feitos, naturalmente -- e, sobretudo, como eu já disse, se for dia de jogo do Brasil. Mas o calendário será basicamente respeitado, com shows, teatro para adultos, teatro para crianças, dança e circo. Parabéns. Que sirva de exemplo.

A propósito deste tema, há em cartaz atualmente em São Paulo, no Sesc Santana (sempre o maravilhoso Sesc!), depois de uma bem-sucedida carreira no Rio (incluindo várias indicações para prêmios), a peça "A Arte da Comédia", do italiano Eduardo de Filippo, com bela direção de Sérgio Módena e um elenco de grandes talentos. O assunto é justamente esse: uma reflexão atualíssima sobre o papel do teatro em nossa sociedade. Podemos viver sem teatro? Olha a coincidência com meu tema: toda a ação transcorre no gabinete do prefeito de uma pequena cidade! Um embate sensacional entre artistas e autoridades. O prefeito de Rio Preto deveria ver. Todos os prefeitos e secretários de Cultura de cada cidadezinha do Brasil deveriam ver. A presidente do Brasil deveria ver, sentadinha ao lado de sua ministra da Cultura. Mas, enfim, quem já viu alguma autoridade governamental deste país na plateia de uma peça de teatro? É como procurar agulha em palheiro. Decerto, esses poderosos têm coisas mais importantes a fazer do que ir ao teatro... Ah, essa (des)importância do teatro...