OPINIÃO

Novo estudo aponta que Ômega-3, encontrado em peixes, pode prevenir esquizofrenia

31/08/2015 18:48 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
AlexRaths via Getty Images
Raw salmon fish fillet with fresh herbs on cutting board

Um estudo publicado há duas semanas no periódico científico Nature Communications traz uma revelação surpreendente: a ingestão de ácidos graxos poliinsaturados ômega-3 pode prevenir o surgimento da esquizofrenia em indivíduos considerados de alto risco para a doença.

A esquizofrenia é uma doença mental grave que traz um impacto tremendo na vida do indivíduo, pois os seus sintomas se manifestam, em geral, na juventude, e a pessoa vai ter que conviver com ela para o resto da vida.

Dependendo da gravidade, a esquizofrenia pode comprometer seriamente o futuro da pessoa, prejudicando-a no trabalho e nas relações sociais.

Não é somente a saúde mental que está afetada na esquizofrenia, já que as pessoas que sofrem com esse problema têm uma expectativa de vida menor do que a população geral (até 10 anos menos). Essa interrupção mais precoce da vida é atribuída a problemas metabólicos e cardiovasculares e ao suicídio.

O tratamento medicamentoso e social da esquizofrenia está bem estabelecido, e é certo que quanto mais precocemente ela é tratada, maiores as chances de recuperação total.

Um grande problema está no fato de que o tratamento não busca a cura da doença, mas sim o controle dos sintomas. É por isso que, assim como em outras áreas da medicina, a chave para o melhor desfecho possível pode estar na prevenção da doença.

Define-se o início da esquizofrenia com o surgimento das alucinações e/ou delírios (a psicose ou os sintomas psicóticos).

Uma área muito importante de pesquisa tem se concentrado na identificação e na intervenção em pessoas com alto potencial para o desenvolvimento desses sintomas psicóticos.

A esse estado prévio à doença dá-se o nome de pródromo (do idioma grego, que corre à frente), que nada mais são do que os sintomas precursores da doença.

No caso da esquizofrenia, tais sintomas precursores são alterações inespecíficas, como isolamento social, redução no desempenho escolar ou laboral, e o aparecimento de experiências psicóticas por um período curto de tempo, sem que cheguem a provocar desconforto emocional.

Quando se identifica uma pessoa com essas características e que tenha também risco genético, isto é, tenha um parente de primeiro grau com esquizofrenia, diz-se que ela tem alto risco clínico para desenvolver o transtorno psicótico.

O empenho dos cientistas está em encontrar meios eficazes de impedir a chamada conversão, que se dá quando o indivíduo que estava num estado de alto risco desenvolve a esquizofrenia. Até o momento, no entanto, não há nenhuma técnica ou recurso que se mostre definitivamente eficaz.

O uso de medicações antipsicóticos é uma opção, mas, além da contradição de se medicar quem ainda não está doente, essas substâncias estão longe de ser inócuas, podendo levar a diversos efeitos colaterais.

Em meados da década passada, pesquisadores separaram dois grupos de jovens com média de idade de 16 anos (variando entre 13 e 25 anos) com alto risco clínico para a psicose, de acordo com critérios internacionalmente estabelecidos.

As características dos jovens de cada um dos grupos eram em tudo semelhantes, exceto pelo fato de que os integrantes de um dos grupos receberam, diariamente, por 12 semanas, cápsulas de óleo de peixe contendo ácidos graxos poliinsaturados (AGPIs) ômega-3, isto é, 700 mg de ácido eicosapentaenoico e 480 mg de ácido docasahexaenoico, enquanto o outro grupo tomou placebo.

Após um ano, verificou-se que apenas 2% dos indivíduos do grupo do ômega 3 haviam tido a conversão para o transtorno psicótico, enquanto 27,5% dos que formavam o grupo placebo haviam feito a transição para o transtorno psicótico.

Foi, sem dúvida, um resultado extraordinário, levando-se em conta que o índice de conversão, em longo prazo, quando não há uma intervenção específica, é de 30%.

No entanto, o pequeno número de indivíduos avaliados no estudo e a falta de replicação dos resultados em experiências semelhantes inibiram o entusiasmo inicial, afinal, esse efeito dos AGPIs ômega-3 poderia bem ser obra do acaso.

Quase dez anos depois do primeiro estudo, os pesquisadores procuraram reavaliar o maior número de participantes de cada um daqueles grupos, o que tomou o ômega-3 e o que tomou placebo, para verificar se enfim, após tantos anos, o óleo de peixe continuaria sendo um protetor para a conversão para a esquizofrenia, já que o risco de conversão não havia deixado de existir.

Os achados dessa nova pesquisa foram surpreendentes e ganharam as páginas de publicações da mídia tradicional.

Após tantos anos, o grupo que tomou os AGPIs ômega-3 continuava mais protegido contra a esquizofrenia, pois a sua taxa de conversão foi de 9,8%, enquanto a do grupo placebo foi de 40%.

Considerando todos os participantes do estudo que acabaram desenvolvendo a doença, quem tomou os AGPIs ômega-3 demorou mais tempo para manifestar os sintomas, o que, de qualquer forma, trouxe-lhes grande vantagem, pois quanto mais jovem se é no início da esquizofrenia, mais prejuízos ela causa.

Os indivíduos do grupo do ômega-3 também tinham melhores resultados nas escalas que mediam o nível de funcionamento, significando que o desempenho deles nas diversas áreas do cotidiano (trabalho, estudos, relações sociais) era mais satisfatório.

Além disso, havia menor probabilidade de que indivíduos que tomaram AGPIs ômega-3 desenvolvessem qualquer outro transtorno mental, como, por exemplo, depressão e ansiedade.

A cautela nos manda aguardar que outros estudos possam replicar tais achados, mas é óbvio que o entusiasmo é grande quando se vê que uma substância que praticamente não produz efeitos adversos, afora o gosto de peixe na boca, e que pode ser encontrada nas prateleiras das farmácia e levada para casa sem a necessidade de uma receita médica, possa salvaguardar os indivíduos em alto risco clínico de desenvolver a esquizofrenia, vários anos após o seu uso por um curto período de tempo.

Não é de hoje que se atribui aos AGPIs ômega-3, encontrados em peixes gordos como o salmão e a cavala, mas também disponível em cápsulas de óleo de peixe, uma gama de benefícios à saúde em geral.

Há dados que mostram que os AGPIs ômega-3 têm propriedades antiinflamatórias, de modo que a suplementação com cápsulas de óleo de peixe pode ajudar no combate a doenças inflamatórias autoimunes, como a artrite reumatóide.

Além disso, o consumo de gordura contendo ômega-3 é um dos pilares da dieta mediterrânea, considerada a mais saudável entre todas e a que mais ajuda a prevenir problemas cardiovasculares.

Dentro do contexto da saúde mental, alguns estudos já mostraram que a suplementação alimentar de cápsulas de AGPIs ômega-3 pode incrementar a resposta ao medicamento nos casos de depressão.

Os autores do estudo afirmam não saber quais os mecanismos de ação dos AGPIs ômega-3 no sistema nervoso central que poderiam explicar o efeito de prevenção da esquizofrenia, mas especulam que a grande amplitude de suas atividades neuroquímicas, por meio da modulação de neurotransmissores, da melhora da fluidez da membrana celular e do incremento da neurogênese, possa ter um efeito protetor no cérebro, quando usado em períodos críticos do desenvolvimento e modulação dos neurônios, onde há maior suscetibilidade ao adoecimento mental.

Espera-se que estudos com maior número de participantes e em diferentes centros de pesquisa possam chegar a conclusões semelhantes, pois seria um alento se finalmente fosse encontrada uma forma segura, relativamente barata e amplamente disponível, de barrar o surgimento dos sintomas psicóticos que levam à esquizofrenia, possibilitando uma vida livre de uma doença muitas vezes incapacitante, permitindo que ao indivíduo seja dada a chance de cumprir todo o seu potencial.

Ainda que seja cedo para se recomendar a suplementação dietética de AGPIs ômega-3, e antes de pensar em gastar o seu dinheiro, que anda curto, em frascos contendo cápsulas de óleo de peixe, há ao menos uma importante recomendação que se pode tirar deste estudo para a nossa vida diária. Devemos buscar sempre uma alimentação saudável! Se ao coração faz bem o consumo de frutas, vegetais, fibras e gorduras ricas em ômega 3 (quando foi a última vez que você comeu peixe?), por que não faria bem também ao cérebro?

Referência

Amminger GP, Schäfer MR, Schlögelhofer M, Klier CM, McGorry PD. Longer-term outcome in the prevention of psychotic disorders by the Vienna omega-3 study. Nat Commun. 2015 Aug 11;6:7934.

MAIS ALIMENTAÇÃO NO BRASIL POST:

Comidas que vão "acalmar" o seu estômago


SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: