OPINIÃO

Imigração: liberdade em vez de xenofobia

18/06/2015 18:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Adam Bettcher via Getty Images
ST PAUL, MN - JULY 20: Archbishop Desmond Tutu takes the stage during the 2014 Starkey Hearing Foundation So The World May Hear Gala at the St. Paul RiverCentre on July 20, 2014 in St. Paul, Minnesota.(Photo by Adam Bettcher/Getty Images for Starkey Hearing Foundation)

Em setembro de 2012, escrevemos juntos um alerta sobre o crescimento da xenofobia, da intolerância e da política do medo (o post pode ser lido aqui: "God is not a Christian" -- Deus não é cristão). A situação piorou. A longa caminhada da África do Sul até a liberdade agora está ameaçada pela violência xenófoba. Nossos direitos humanos universais estão sendo erodidos na Europa com base no medo e na "segurança nacional". Imigrantes desesperados estão morrendo afogados no Mediterrâneo, e valas comuns de imigrantes foram encontradas na Ásia. A xenofobia e a imigração são questões mundiais urgentes.

O que fazer a respeito da imigração? Como passamos de um mundo de "terror" para um mundo de paz? Devemos, como disse Mahatma Gandhi, ser a mudança que queremos ver no mundo. A esta altura, parece uma frase velha - mas uma frase que ainda não colocamos em prática. Para ter a paz precisamos verdadeiramente ser a paz. A boa notícia é que isso não é impossível. Na verdade, está a nosso alcance, se pensarmos e ouvirmos com cuidado, porque, como sabemos, não se resolve um problema pensando com a mesma mentalidade que tínhamos quando ele foi criado.

Ver os outros sofrer, sabendo que podemos ajudar, não é só mais uma forma de violência? Uma violência contra nós mesmos, nossas almas, uma violência que nos impede de ser felizes? Ninguém escolhe ser refugiado ou imigrante. Pobreza, discriminação, violência, guerra, corrupção e desnutrição são prisões, pois impossibilitam uma vida plena. A imigração é a única saída.

A xenofobia é uma prisão - uma Ilha Robben da mente e da matéria - que nunca nos levará à felicidade ou à paz. Da mente, porque a sociedade é um reflexo das imagens que criamos uns dos outros, e são essas imagens percebidas que brigam e odeiam. Da matéria, porque nunca ergueremos muros altos o suficiente para manter os miseráveis do lado de fora - e, mesmo que conseguíssemos, não seria isso também uma prisão?

A xenofobia é definida como o ódio e o medo de tudo o que nos é estrangeiro ou estranho. A definição de xenofobia, segundo o dicionário, é "desconfiança, temor ou antipatia por pessoas estranhas ao meio daquele que as ajuíza, ou pelo que é incomum ou vem de fora do país". A xenofobia é ilógica, inexplicável e exagerada. Na verdade, essa é uma excelente notícia, pois também representa uma maneira de escapar dessa prisão mental.

Essa fobia pode ser vencida com educação e familiaridade. Podemos ser realistas sobre nossos medos e ajudar os outros a superar os deles. Podemos nos educar e aos outros, checar fatos sociais e econômicos sobre a imigração, realmente conhecer uns aos outros sem usar as vendas inflamatórias que a política do medo coloca sobre os olhos. Podemos perceber que odiar ou temer os outros significa corroer nossa paz e nossa felicidade interior.

Podemos liberar nossas mentes conscientemente. Que mensagens políticas escolhemos ouvir? Que tipo de notícias lemos? A que tipos de filmes, jogos, livros e até mesmo pessoas sujeitamos nossas mentes? As mentes de nossos filhos? Nossa paz interior? Podemos continuar passivos, nos sujeitando à violência e ao medo - ou podemos escolher as fontes que vêm do amor. Podemos nos lembrar de todos os líderes reverenciados e inesquecíveis da história -- Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Madre Teresa, Martin Luther King, gente como John Lennon - que defendiam uma coisa - AMOR --, não o medo.

É muito fácil ser influenciado negativamente pelo ódio e pela violência. Vemos e ouvimos o que queremos ver e ouvir, como resultado do que nos influenciou. Se procurarmos "terroristas" certamente vamos encontrá-los nos estrangeiros. Se procurarmos o ser humano nos imigrantes, vamos encontrá-lo também. Se procurarmos amor - encontraremos amor.

Nascido escravo, o filósofo grego Epiteto disse: "Nenhum homem que não é mestre de si mesmo é verdadeiramente livre". Podemos livrar nossas mentes da poluição do ódio e do medo. Com mentes livres, vemos que não há nada a temer além do medo. O medo vai nos aprisionar em nossos próprios países, tentando manter os outros do lado de fora. O medo vai levar a mais guerras e violência. O medo vai erodir nossos direitos humanos e nossa privacidade. Escolher a libertação desse estado mental de prisioneiro, nos tornamos não somente livres e felizes - nos tornamos a paz.

Esse é um daqueles momentos "a-ha!". É assim que, se quisermos, teremos a paz a nosso alcance.

"A liberdade faz exigências enormes de todo ser humano. Ela vem acompanhada de responsabilidade. Para a pessoa que não quer crescer, a pessoa que não quer carregar seu próprio peso, esse é uma perspectiva aterrorizante." - Eleanor Roosevelt, defensora dos direitos humanos.

Mas não temos como acomodar o mundo em alguns poucos países? Não temos condições de ajudar toda a população mundial? Temos, pois somente o custo financeiro do "terrorismo" e das guerras é muito maior que lidar com as questões direto na fonte. Não temos de ser contadores para entender isso. Gastar com guerras e "medidas antiterrorismo" é um argumento falacioso, quando precisamos resolver as reais origens dos conflitos. A liberdade vem acompanhada de responsabilidade, e precisamos ajudar as pessoas em casa e em seus próprios países. Na verdade, a maioria das pessoas quer ficar em seu próprio país, se puder. Este deveria ser o foco.

Para escolher liberdade em vez de xenofobia, precisamos de desenvolvimento e crescimento, como se os humanos importassem. Não mais desenvolvimento econômico medido em Produto Interno Bruto (PIB) ou valores monetários arbitrários (veja também o blog "About What Peter Buffet Said on Philantropy, ROI and Understanding" -- o que Peter Buffet disse sobre filantropia, retorno sobre investimentos e compreensão). A riqueza não chega aos mais pobres e não há igualdade de regras em sociedades desiguais. Depois de décadas de crescimento econômico e vários estudos sobre a felicidade, sabemos que a felicidade não vem do crescimento econômico, mas sim de relacionamentos humanos, compaixão e amor, coisas como passar mais tempo junto à natureza.

Precisamos libertar as pessoas, como argumentou tão bem Amartya Sen em seu livro de 1999, "Development as Freedom" (desenvolvimento como liberdade, em tradução livre). Afirmamos que, enquanto houver desnutrição, falta de acesso a água potável e educação adequada, discriminação, corrupção, contaminações ambientais, direitos e oportunidades desiguais, ninguém poderá ser realmente feliz ou livre. Somos todos uma família humana.

Podemos escolher conscientemente entre liberdade e xenofobia, ou, dizendo de outra maneira - escolher o amor, não o medo. Podemos começar essa jornada num piscar de olhos: pensando diferente e enxergando as coisas de um jeito diferente.

Podemos ser a paz, agora.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.