OPINIÃO

Smartpeople vs. smartphones

06/07/2015 17:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
Shutterstock / Fabiana Ponzi

Todo mundo detesta conversar com alguém que fica olhando no celular direto. Todo mundo conversa com as pessoas olhando no celular direto. É uma doença da sociedade moderna, dessas contagiosas como foi a praga na Idade Média. Você encontra alguém que adquiriu um smartphone e a pessoa está um saco, toda hora olhando no celular, até o dia em que você adquire um e se torna também uma pessoa que não consegue mais estar em lugar algum. Eles venceram, os smartphones. E você passou a integrar a classe de pessoas que estão presentes de corpo, mas com a alma em outro lugar.

Pode parecer exagero ou esoterismo essa coisa de separar corpo de alma, mas é isso mesmo. O corpo da pessoa está ali, mas ela não quer estar ali. Há dentro dela um ímpeto, claramente incontrolável, de olhar regularmente para aquele caixote de plástico repleto de neurotransmissores que pode transportá-la a qualquer instante para o mundo de uma notícia internacional ou de um novo trabalho ou, ainda, para o de uma paquera mais interessante do que a que está no seu entorno.

Antigamente, o jornal chegava pela manhã, lia-se as notícias e depois sabíamos que novas notícias só viriam no dia seguinte. Então, nossa alma descansava do afã de saber as coisas por 24 horas. O carteiro passava em casa uma vez por dia e no resto das horas pouco adiantava ficar olhando pela janela para a esquina de onde ele surgia as 15hs. Os namorados se ligavam pelo telefone fixo e por mais que ficar em casa esperando telefonema pudesse gerar ansiedade, em algum momento saiamos da casa e vivíamos com o fato de que até a volta não haveria notícias.

Com os smartphones, praticamente não há separação entre a novidade e você. A cada segundo, podemos descobrir o que está acontecendo no Oriente Médio e porque Cristiano Araújo morreu. Mensagens de trabalho podem chegar a qualquer momento e a cada segundo que não chegam é como se negativas disparassem na sua direção. Com as paqueras é a mesma coisa... convivemos continuamente com a não ligação, a não mensagem - uma rejeição por segundo. Mesmo quando os smartphones não apitam, as pessoas olham e olham para eles. Desesperadas, verificam se a conexão está estável para ter certeza.

Por causa isso, o mundo empalideceu. Hoje, quando você finalmente sai para jantar com a sua namorada, ou lê a notícia que revelou a causa de morte de Cristiano Araújo ou é notificado que sua entrevista de emprego novo será na terça-feira, há uma sensação de vácuo e você continua engrenado querendo mais. Mais notícias, mais mensagens, mais qualquer coisa que apite. Você continua precisando verificar o celular a cada instante, para saber... você nem sabe mais o que, mas você precisa e você olha. E se não há nada, verifica se a conexão está estável.

Sua namorada, bem ali na sua frente, não parece tão importante quanto quando enviava mensagens que produziam apitos constantes no Whatsup. Ela está presente, falando de algo interessante, mas puxa, será que as ações da Petrobrás caíram mais? Bem que o Jonas podia me mandar um torpedo, só para eu dar uma olhadinha. Ele não manda, mas puxa, que mal há, vou dar uma zapeadinha... e você dá... e no próximo instante, sua namorada descansa o haxi e também dá uma olhadinha. Então, tudo bem... ela estava com vontade também. Você aproveita e verifica seu extrato bancário.

Tudo certo, ela é como eu. Somos feitos um para o outro.