OPINIÃO

As lágrimas da adaptação escolar

28/01/2016 19:31 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Shutterstock / Diego Cervo

Adaptações escolares sempre me emocionam. Desde a primeira, quando minha filha tinha um ano e meio, não foi fácil. Na verdade, nossa primeira adaptação não vingou. Passei três meses frequentando a escola diariamente, ao ponto de muitos passaram a me cumprimentar como seu eu fosse funcionária! Toda vez que eu ia ao banheiro, minha filha chorava loucamente e eu, eventualmente, não tive coragem de insistir para que ela ficasse só. Voltou para casa e só foi para a escola um bom tempo depois.

As pressões sobre a mulher moderna são notórias, para as que são divorciadas ainda mais. Trabalhar, cuidar da casa, dar atenção aos filhos, dormir, se cuidar, ter tempo para os amigos e, quiça, o amor. Isso tudo quando, na maior parte dos dias, nem mesmo uma geladeira abastecida parece uma meta realizável, tal o volume de demandas por todos os lados. Então, as escolas infantis são inevitáveis e, eventualmente, vencemos uma segunda adaptação e minha filha passou a frequentar uma escola.

Passados alguns anos, uma nova adaptação se mostrou necessária. Agora mais velha, na hora "h" ela ainda se agarra nas minhas saias. As coisas agora estão mais claras na minha mente. Sei que ela precisa estudar e eu preciso trabalhar e é isso. Chamo sua atenção para as coisas bonitas da escola, os amiguinhos divertidos e as professoras delicadas. Ela se arrisca no parquinho e eu vou para a recepção esperar um pouco. O tempo passa e ninguém vem me chamar. Ouço que as crianças estão indo para o lanche e resolvo espiar.

Lá está ela, sentadinha ao lado de duas amiguinhas comendo um pedaço de melancia com gosto. O agito paira no refeitório repleto de crianças e professoras, mas ela está quietinha se alimentando e observando. O seu olhar perdido me remete ao tempo em que ela era novinha, na primeira escola, e a separação física era tão difícil. Sim, eu sei que é bom para ela e que eu preciso desse tempo. Sei que é preciso crer que o mundo pode ser bom e é preciso passar isso para os filhos para que eles desenvolvam confiança e autonomia... sei de tudo.

Mas... que vontade de abraçá-la bem forte e voltarmos para casa juntas. De dizer que mamãe recebeu uma ligação dizendo que não precisa mais trabalhar tanto, muito menos viajar, e que agora a gente vai poder ficar mais juntas. Que não precisa mais de escola. Que a gente vai voltar a ter nossa rotina de brincadeiras e passeios entremeados por lanches e visitas aos avós, como antes. Até o dia em que for inevitável ela ir para a escola aprender as coisas que a permitirão desenvolver seus talentos para um dia poder trabalhar e se defender no mundo.

Esse ciclo... essa redondeza toda da vida. Esse vai e vem. A repetição de tudo. A lua e o sol rodopiando entorno de nós e nós entorno deles sempre. É assim, não é? Não há como interromper o ciclo de nada. É cíclico e é isso. O que resta para nós, cuja profissão é estancar o tempo por alguns instantes e pensar sobre a roda gigante que nunca cessa, é a reflexão - expressão pública da lágrima.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:


29 fotos exemplificam a convivência com crianças de +- 2 anos