OPINIÃO

Por uma universidade livre de machismo

11/11/2016 11:49 BRST | Atualizado 11/11/2016 11:49 BRST
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Nacho Doce / Reuters
A woman takes part in the "Marcha das Vagabundas" (Slutwalk) protest in Sao Paulo Jun 4, 2011. The demonstrators are protesting sexism, rape and sexual crimes following similar recent demonstrations in Canada where a Toronto policeman was quoted saying "women should avoid dressing like sluts in order not to be victimized". The banner reads "The male chauvinism kills". REUTERS/Nacho Doce (BRAZIL - Tags: CIVIL UNREST SOCIETY)

Há quase 30 anos estou na UnB (Universidade de Brasília). Fui estudante, e agora sou professora. Passei por vários departamentos e tradições - da saúde ao direito. Em todos os lugares, encontrei hierarquia, modos antigos de dominação, e abuso de poder. Faltou-me antropologia para relativizar essas práticas, pois elas sempre me impressionaram e inquietaram. Mas só ontem, ao ouvir uma multidão de jovens mulheres, assustadas e exauridas, entendi o quanto é urgente falarmos da universidade livre das hierarquias opressoras e abusivas. Elas estavam juntas para acomodar o luto pelo suicídio de Ariadne Wojcik, ex- aluna do curso de direito da universidade. Na melancolia compartilhada, falavam de todas elas. Ao ouvi-las, me inquietei sobre o meu lugar como professora.

Eram dezenas de meninas, pequenas pelo medo e fortalecidas pelo encontro em bando, se posso assim descrevê-las. Muitas sentadas pelo chão, dezenas lacrimosas pelas lembranças de histórias suas ou das outras. Como são mulheres, a hierarquia e a dominação que rege o ambiente universitário - o professor que sabe e o aluno que aprende - se amplificam pelo patriarcado". Sim, me deixem pronunciar esta palavra: a dominação universitária é patriarcal. Por isso, as histórias que ouvi são de desqualificação no pensamento por serem mulheres; de assédio sexual como moeda de troca para o que seriam conquistas de mérito na carreira acadêmica; de uso da transferência analítica como regime de controle. Nosso saber deve ser objeto de admiração para o aprendizado, jamais prática de controle.

women university

Foto: Gabriela Rondon. Luto na Faculdade de Direito. Universidade de Brasília.

Se a hierarquia universitária do saber ofende a todos na posição subalternizada do aprendiz, é às mulheres que a hierarquia se realiza como dominação de gênero. Por favor, não me desqualifiquem por usar linguagem que desconhecem e consideram perigosa ou descrevem como essa tolice de "ideologia de gênero, tais como feminismo ou patriarcado. Como professora, quero estar ao lado dessas mulheres para transformar o ambiente em que vivem os melhores anos da juventude. Quero falar de gênero na sala de aula, quero ouvir histórias de dominação e abuso sexual, quero espalhar para todos os cantos que a Universidade de Brasília será um espaço livre de dominação. À melancolia de ontem, somo hoje minha indignação e minha disposição para iniciar a travessia - enfrentarei com elas todas as formas de machismo na Universidade de Brasília.

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