OPINIÃO

Papa Francisco e o perdão do aborto

23/11/2016 11:38 -02
Franco Origlia via Getty Images
VATICAN CITY, VATICAN - NOVEMBER 23: Pope Francis attends his weekly general audience at the Paul VI Hall on November 23, 2016 in Vatican City, Vatican. In a lengthy Apostolic Letter, entitled Misericordia et misera, ('Mercy and Misery'), issued on Monday, Pope Francis extended the faculties of all priests to absolve the sin of procured abortion. (Photo by Franco Origlia/Getty Images)

Não há mais excomunhão para a mulher que aborta. Há perdão, disse o Papa Francisco.

Perdoar é sentir compaixão e misericórdia. Se não há excomunhão, não há mais porque ameaçar a mulher de inferno ou expulsão da Igreja Católica. Diz o Código de Direito Canônico, conjunto de regras que orienta as práticas religiosas, que um confessor age como um médico e um juiz. Se assim for, como um médico, deve cuidar da alma; como um juiz, deve se abster de punir. Só perdoar.

Há algo a ser celebrado neste anúncio. São milhões de mulheres que, em algum momento da vida, já fizeram um aborto no Brasil. Muitas delas são católicas. O sofrimento do aborto é resultado da clandestinidade; o refúgio do medo para o que deveria ser um cuidado de saúde. Se sofrem da alma é porque não queriam ser pecadoras. É preciso que todas elas agora saibam: o pecado do aborto é perdoável.

Para os que desacreditam da fé católica, o anúncio do Papa Francisco pode parecer qualquer coisa de enigmático ou de muito misterioso. Nada disso: é simples, justo e generoso. Para o Código de Direito Canônico, aborto é uma falta e um pecado grave, sem perdão. A misericórdia, como dizem os católicos, é o afago da alma, o retorno ao rebanho. As mulheres que já abortaram poderão retornar à Igreja Católica, confessar-se e receber o perdão. E como médicos e juízes que devem ser, os confessores devem cuidar e manter o sigilo da confissão.

Para uma democracia secular como a nossa, não deveria importar tanto o que dizem ou determinam as igrejas. Mas importa e muito. Mesmo criminalizado, o aborto é um evento comum à vida das mulheres no Brasil: uma em cada cinco mulheres, aos 40 anos, já fez pelo menos um aborto. São milhões de mulheres que poderão atravessar o confessionário e receber perdão pelo pecado. O próximo passo é a ordem legal inspirar-se no Papa Francisco e também tornar o aborto um crime sem pena.

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