OPINIÃO

Não há como resolver a fissura da droga pela abstinência mágica

23/06/2016 15:46 -03
News Free/CON via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - JANUARY 03: Military police perform an operation to remove drug users and arrest traffickers in the region known as Cracolândia on January 03, 2012, in Sao Paulo, Brazil. Addicts who camped on Helvetia Street were displaced, but there was no record of serious incidents. Two women were arrested with 40 rocks of crack and 19 bundles of crack and a fake gun. Besides the two, a third woman was also taken to the 8th Precinct, it was sought by the Justice. (Photo by: Amauri Nehn/News Free/LatinContent/Getty Images)

Em 2015, passei algumas semanas na Cracolândia de São Paulo. O nome é curioso, pois emprega o sufixo de cidades - seria isso mesmo, um território para as pessoas que se juntam porque usam crack. Ali viveriam os crackeiros e, segundo o mapa do Google, o epicentro da Cracolândia se chama Zumbilândia. São os zumbis ou os noiados, o povo da maior cracolândia da América Latina.

Nos dias que permaneci por ali, conheci Brenda, uma travesti da rua, agora governanta de um hotel social; conheci um português que veio para a Copa do Mundo e perdeu-se na vida. Há gente diferente, é verdade, mas as pessoas que formam a multidão são parecidas entre si: gente pobre sobrevivente de manicômio ou presídio, povo da rua há tempo largo.

Chamamos de cidade pelo jeito da palavra, mas ali falta tudo para ser uma cidade decente. Dorme-se no papelão que é feito de banheiro, no mesmo pedaço de chão que se ocupa para escambo de qualquer coisa. Tudo se troca por tudo na terra do crack. É ato de bravura atravessar o fluxo sem o "salve" dos irmãos; não fiz isso por conta própria, entrei, permaneci e saí em segurança. Ao meu lado estava uma agente social do Programa de Braços Abertos. Carmem é assistente social e se movimenta no fluxo com um imaginário capacete azul da ONU para territórios de conflito armado - anda pela calçada de trânsito livre, mas também pelo lado direito da calçada, aquela em que só gente autorizada ousa pôr o pé.

Com Carmem, entendi a Cracolândia de outro jeito. É o povo da rua, é gente sobrevivente da loucura ou do crime, mas é também gente jovem refugiada da vida. O lugar é o fim da linha do abandono. Sem o capacete azul da ONU, Carmem se veste com um colete reluzente, anuncia a presença antes de ser vista. Seu trabalho é recolher os mais adoecidos, é oferecer cama e banho para quem parece estar mais cansado da vida na rua que os outros. Foi com ela que conheci Angélica, a personagem do documentário que filmei na Cracolândia.

Angélica é mulher jovem, vive na rua há quase uma década, passou por reformatório na adolescência e por internação compulsória para tratamento de drogas. Fugiu da clausura médica, pois não acreditou nisso de purificar-se compulsoriamente das drogas. Carmem acredita noutra forma de reviver quem dorme no chão da Cracolândia - é preciso ir devagar, muito devagar, sem julgar com voz alta ou reprimir, mas devolvendo experiências básicas do cuidado para a vida. E nada de polícia, menos ainda de pancada.

Acompanhei Angélica saindo da rua, deixando o papelão para trás, escondendo o cachimbo, chegando à pensão de d. Laíde, apresentando-se a Brenda como uma moradora do hotel social, uma pensão que oferece teto, chuveiro e comida para aprender, aos poucos, a diminuir a pedra fumada a cada dia.

Não há como resolver a fissura da droga pela abstinência mágica, e não há como sequestrar alguém que é povo da rua para um manicômio. Essas foram experiências tentadas e fracassadas. É preciso encontrar jeitos e formas de fazer o crack desaparecer como redescoberta de um corpo novo. Um bom começo é oferecendo colchão no lugar de papelão, banho ao invés de água da chuva.

Carmem não é heroína e nem quer ser. Deseja se manter como alguém que veste colete com nome de prefeitura, atua em área de conflito e desconhece o medo. É prudente, mas não obedece ordem fora da lei; só não precisa de arma ou grito para impor-se. Não quer polícia ou homem bravo ao seu lado: faz-se presente pela palavra, garante promessa pelo acolhimento diário. É isso: se há algo de excepcional nos números apresentados pela recente pesquisa sobre a Cracolândia e o sucesso do Programa de Braços Abertos (65% das pessoas não voltam para o crack, dizem os pesquisadores), sugiro que conheçam Carmem, a assistente social que visita os refugiados para lhes dizer que outra vida é possível, e sem cadeia ou manicômio.

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