OPINIÃO

Estupro coletivo: Homens, unam-se à luta!

17/01/2017 20:16 -02 | Atualizado 17/01/2017 20:16 -02
NELSON ALMEIDA via Getty Images
Women take part in the Marcha das Vadias (Slutwalk) march protesting against sex violence and discrimination against women in Sao Paulo, Brazil on May 24, 2014. AFP PHOTO/NELSON ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Um crime horrível ocorreu em Brasília. Um bando de adolescentes e um jovem adulto estupraram uma menina de 11 anos. Filmaram o horror como se fosse um espetáculo. Se filmaram é porque há audiência - gente que precisa ver para crer que há barbárie contra mulheres e meninas. Ou gente que gosta de exercitar o olhar para o sofrimento dos outros.

Não sei bem a razão, se perversidade ou naturalização cultural da violência contra as mulheres. O estupro é um crime que despossui as mulheres, uma espoliação da existência pelo sexo.

Muitas mulheres e homens gritam frases para expressar o espanto por um crime tão bárbaro - "nenhuma mulher merece ser estuprada", "homens são violentadores de mulheres", "o estupro é um crime de gênero", "pelo fim da cultura do estupro".

As frases são palavras, quase fórmulas, para falar de um sentimento de indignação sobre o sem-sentido de um crime como esse. Quando vivemos um evento traumático - e mesmo como testemunha da história apenas - é que sentimos o quanto a linguagem é frágil para expressar nossos afetos.

As frases são formas de nos representar e contra-provocar os que não se espantam com histórias como a da menininha de 11 anos estuprada por um bando.

O curioso da circulação dessas frases é que há gente mais preocupada com os sentidos plenos de cada palavra do que mesmo com o evento que as motivou.

Esquecem-se de que são frases-fórmulas, repito - tentativas de representar dores e angústias - e passam a discutir representatividades semânticas. São abundantes os homens (algumas mulheres também, é verdade) que passam mais tempo a implicar com o universal "os homens" que mesmo em imaginar as dores e os medos vividos pela vítima. Talvez, valesse explicar algo aqui.

Se você é um homem civilizado, daquele que jamais irá violentar uma menina de 11 anos; ou, se ao menos é um homem bacana, daquele que jamais irá dar uma cantada em uma mulher na rua ou desrespeitá-la simplesmente porque é mulher, por que se indignar com algo que não o representa ou não o tem como destinatário?

A palavra "homem" é um substantivo genérico que fala de uma sexagem ampla. Sei que pode haver um tom agressivo na palavra, mas como ter uma mensagem eficiente e rápida?

E, cá entre nós, os estupradores são homens e as vítimas, mulheres.

Não vale sair contando uma história, singular e excepcional, de uma mulher que violentou um menino, ou de uma mulher que participou de uma violência contra outra mulher.

Há gênero no crime e no corpo do agressor: homens, estupradores; mulheres e meninas, vítimas.

Assim, eu pediria aos homens respeitadores e igualitários que não se ofendessem, mas se somassem à luta contra todas as formas de violência.

Uma delas é escutando o que é dito. Se não tiverem muito o que dizer para reverberar a mensagem certa, além do silêncio respeitoso, que não sejam vozes para discordar das mulheres pelo exercício de desdizer o que é dito com sofrimento.

Se não é sobre você que a mensagem fala, que tal nos ajudar a encontrar formas melhores de educar os homens, sensibilizar os meninos, ou mesmo, aprimorar mensagens?

Estou segura de que o foco não devem ser "os homens" ou "alguns homens" na frase que fala do horror, mas a menina de 11 anos violentada por um bando enfurecido.

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