OPINIÃO

A reeleição de Dilma e a desigualdade de gênero

07/11/2014 11:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Chimney Red via Getty Images

Pouco após reelegermos Dilma Rousseff presidente do Brasil, foi divulgado o ranking "Abismo de Gênero", elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, grupo que realiza reuniões em Davos. As notícias não foram positivas: O Brasil caiu nove posições no ranking e ocupa a 71ª colocação na lista, enquanto ocupava a 62ª colocação no ano passado. Ficamos atrás de países como Nicarágua, Ruanda, Moçambique e Cuba. Na América Latina, o Brasil está na 15ª posição entre as 25 nações no índice. Parece que não estamos bem mesmo. Como eu já disse: temos muito o que avançar.

São 142 países que integram o ranking que leva em conta quatro variáveis principais: participação econômica (salários, oportunidade e liderança), educação (básica e avançada), capacitação política (representação nas estruturas de tomada de decisão) e saúde e sobrevivência (expectativa de vida e coeficiente sexual). Em áreas como saúde e educação, o Brasil manteve os índices em relação ao ano passado (e segue empatado em primeiro lugar com outros países), porém perdeu posições nos indicadores que mensuram participação feminina na economia e na política.

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Participação e oportunidades econômicas

Na avaliação da participação das mulheres na economia do país, o Brasil vai mal. Bastante mal. O item com a pior avaliação é o de igualdade de salários em trabalhos com funções parecidas. Dos 142 países avaliados, ficamos na 124ª posição! O salários masculino é 70% maior do que o feminino. E essa diferença existe para os mesmos cargos, e considerando que temos o mesmo preparo técnico. O Brasil investiu na educação, mas não conseguiu remover barreiras para a mulher entrar no mercado de trabalho.

Participação Política

Empoderamento político foi outro índice que fez o Brasil perder posições no ranking. Esse item contabiliza mulheres no Congresso, em posições ministeriais e na chefia de Estado. Ao que tudo indica, ano que vem nossa posição não vai mudar muito. Embora nas eleições desse ano o número de candidatas tenha aumentado bastante (inclusive em função das cotas na política), o número de mulheres eleitas permaneceu inalterado. Mesmo com uma mulher presidente (reeleita!) e com um crescimento da presença feminina da política, esse é um quesito em que o Brasil ainda está bastante atrasado.

E o que a reeleição de Dilma tem a ver com isso?

O que me preocupa é que de quatro quesitos, tiramos primeiro lugar em dois (saúde e educação), e mesmo assim pioramos nossa colocação justamente nos quesitos que deveriam ser foco de atenção da presidente Dilma: economia e política, afinal ela é economista e política.

Durante um dos debates da campanha, Dilma e Aécio falavam sobre a questão das mulheres. Aécio focou na questão da violência doméstica, enquanto Dilma citou economia, empreendedorismo feminino e educação técnica. Até comentei no meu perfil do Facebook que ficava contente em ver a discussão sobre as questões da mulher ultrapassarem as barreiras da saúde e da violência doméstica (que são importantes, não me entendam mal) para assuntos que normalmente são deixados de lado. Parabenizei a Dilma pelo preparo para o debate. E, no fim, ela ganhou as eleições.

Algumas pessoas acham que uma mulher ser eleita presidente é, por si só, uma vitória para as mulheres. Sim e não.

Até pouco tempo atrás não podíamos votar, não podíamos abrir conta em banco sem autorização de nossos maridos. Ainda hoje somos minoria nos altos cargos das grandes empresas e nas esferas de poder político. Termos uma mulher à frente do Palácio do Planalto é bastante simbólico, sim, para as conquistas das mulheres e para nossas conquistas enquanto sociedade verdadeiramente democrática.

Ao mesmo tempo, para que as mulheres ganhem espaço na economia, no mercado de trabalho, nos negócios e na política é necessário comprometimento, investimento e planejamento. É preciso muito mais do que política, é preciso embasamento técnico e teórico, é preciso conhecimento de causa, é preciso diálogo com iniciativa privada e com a população.

Ou seja, a eleição (e reeleição) de uma mulher presidente não é um fim em si no que tange às conquistas femininas - é muito mais um meio e um marco histórico. É apenas o primeiro passo de um processo mais complexo.

Investir nas mulheres não deve ser visto como caridade, ou política de bem-estar social e sim como investimento estratégico para o desenvolvimento de uma economia sustentável. Não é à toa que os países nórdicos, conhecidos pelos altos índices de qualidade de vida e pela economia forte (inclusive com boa recuperação pós-crise de 2008) são os primeiros colocados no ranking do "Abismo de Gênero". O segredo desses países? Eles investem nas mulheres.

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