OPINIÃO

Espírito Santo, um estado sem lei

Acontece que aqueles que ocupam os mais altos cargos políticos do Estado tem muito mais jogo de cintura que a Polícia Militar.

07/02/2017 18:05 -02 | Atualizado 08/02/2017 11:26 -02
Paulo Whitaker / Reuters
Oficiais do exército detém suspeitos de roubar lojas em Vitória, no Espírito Santo

A polícia parou, mas a polícia legalmente não podia parar. Nosso governo, que ficou famoso por saber administrar (o governador inclusive estava até ontem rodando o Brasil, palestrando sobre como o ES está superando a crise econômica), demonstrou que sua capacidade técnica não passa de uma grande balela, já que administrar cortando tudo não é administrar nada. É cortar e torcer pra nada dar errado. Mas deu. Mesmo assim, não negociou. Surgiu então a dúvida: a culpa é de quem?

Acontece que aqueles que ocupam os mais altos cargos políticos do Estado tem muito mais jogo de cintura que a Polícia Militar. Enquanto estes últimos, tentando não serem punidos por realizar o seu tão justificável direito de protesto, com um pleito mais que necessário, tentavam se defender de punições mais severas e militares, utilizando como desculpa a manifestação de seus familiares, os primeiros, os meliantes engravatados e sua trupe, deixaram o caos rolar, sabendo muito bem que a pressão ia pender, como sempre, para o lado mais fraco. Não deu outra. Tudo pura estratégia política.

Entregar a população à barbárie, esperando que os larápios governistas tivessem um pingo de decência de negociar com eles, foi um erro, tanto estratégico quanto humanitário.

Certamente, todo mundo sabe que os policiais saem do quartel quando quiserem. Mas ninguém quer ser punido, ainda mais quando a causa é justa. Pior salário do Sudeste, sucateamento da Instituição, péssimas condições de trabalho e pouquíssimos direitos. Mas a Polícia também errou, e errou feio. Entregar a população à barbárie, esperando que os larápios governistas tivessem um pingo de decência de negociar com eles, foi um erro, tanto estratégico quanto humanitário. Não os culpo, não são políticos, mas são responsáveis. São pais de família que querem colocar o sustento dentro da casa, tão pouco cientes do efeito de uma extrema ratio quanto qualquer um de nós. Mas quando que ignorância foi salvo conduto?

E nessa história atípica o final foi típico. A população já nem lembra mais do Governo. Só a PM é culpada. "Por que não mandam o exército tirar as mulheres de lá?" Grita a população, histérica e assustada. Ora, e de que adiantaria? Greve é greve, paralisação é paralisação, a única diferença é a cadeia e a exoneração que os policiais militares podem ou não enfrentar depois (Aqui, falar em desmilitarização é falar em dignidade desses profissionais).

A população erra em não saber reconhecer o culpado e erra em sua passividade frequente.

Agora, que as coisas começam a normalizar, com a presença do Exército (guerra civil?) em nossa cidade em chamas, pondo sob cortina de fumaça a importância daqueles que nos protegem diariamente (e não, não é o Exército), temos que saber ao menos identificar nossos erros e acertos, inimigos e amigos.

A PM errou em parar completamente e tem parcela de culpa na barbárie. A população erra em não saber reconhecer o culpado e erra em sua passividade frequente. Errou em eleger um crápula que nomeou outros crápulas para suas Secretarias. Erra em achar que o Exército é salvação e não alívio.

Mas quem erra mais é o grande vencedor dessa história. Ele, que sentou todo esse tempo protegido por segurança particular. Ele, que optou "não dialogar com movimento ilegal". Ele, que não fez investimento, e se fez, fez errado. Ele, que desviou verba o ano todo do orçamento da Segurança Pública. Ele, que escolheu deixar o circo pegar fogo, desde que saísse dos holofotes. Ele que atrasou o reforço, ele que fez book fotográfico com o Ministro da Defesa, ele que só apareceu segunda, ele que não está nem um pouco preocupado com você, como a PM é obrigada a estar todos os dias, mesmo estando menos preparada e armada que os próprios bandidos que ela enfrenta.

Ele, que você votou e vai votar novamente porque isso aqui não está passando de um feriado prolongado pra maioria dos capixabas

Ele, seu amigo, Governo do Estado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com

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