OPINIÃO

Um ano depois: Até que ponto o Oscar realmente era tão branco, e por quê?

Será que o Oscar realmente era tão branco antes? Hollywood está menos racista hoje do que era um ano atrás?

22/02/2017 15:23 -03 | Atualizado 22/02/2017 15:52 -03
Getty Images for BET

A controvérsia sobre o #OscarSoWhite chamou a atenção do grande público um ano atrás, diante da indignação provocada pelo segundo ano consecutivo sem nenhum ator negro ser indicado nas principais categorias de atores do Oscar.

Will Packer, produtor de Straight Outta Compton – A História do N.W.A., disse que era "uma vergonha absoluta dizer que o ápice da realização cinematográfica só foi alcançado por pessoas brancas". Stereo Williams escreveu que os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não estavam dando o devido valor a filmes com pessoas de cor, como Creed: Nascido para Lutar e Beasts of No Nation. A Academia reagiu, convidando para ingressar em sua organização um número recorde de novos cineastas, atores e técnicos, 41% dos quais membros de minorias.

As indicações ao Oscar 2017 foram anunciadas com resultados muito diferentes, mas possivelmente previstos. Foram indicados seis atores negros, além do indiano Dev Patel, e três filmes com atores de minorias – Moonlight – Sob a Luz do Luar, Estrelas Além do Tempo e Um Limite entre Nós — estão entre os finalistas para o Oscar de melhor filme.

Jada Pinkett Smith, que boicotou o Oscar no ano passado, disse que agora tem "muito orgulho de fazer parte da comunidade artística". A opinião generalizada é que, embora ainda haja trabalho a ser feito, foram conquistados avanços importantes. Mas será verdade?

Será que o Oscar realmente era tão branco antes? Hollywood estará menos racista hoje do que era um ano atrás? Comecemos pelos números.

Sim, o Oscar realmente era tão branco.

Entre 2006 e 2015 houve 200 indicados nas principais categorias de atores do Oscar. Se a composição demográfica dos Estados Unidos fosse representada no total de indicações ao Oscar, poderíamos prever 127 indicados brancos, 33 hispânicos, 24 negros e nove de origem asiática. Mas a realidade é que houve 173 indicados brancos, oito hispânicos, 18 negros e um asiático. Os atores indicados ao Oscar formaram um total muito mais branco que o país como um todo, com os brancos obtendo 36% mais indicações do que a composição demográfica do país faria supor.

Fato interessante é que os atores negros não foram drasticamente sub-representados, tendo recebido três quartos das indicações previsíveis. Outros grupos ficaram muito para trás. Os hispânicos tiveram apenas um quarto das indicações que seriam previsíveis, e a indicação de Rinko Kikuchi por Babel foi a única para uma atriz ou um ator asiáticos. A hashtag corresponde à realidade. Os críticos que descreveram o Oscar como "tão branco" tiveram razão.

Isso não se deve necessariamente ao racismo atual

Seria simplista concluir que o excesso de indicados brancos se deve sobretudo a racismo declarado da parte de membros da Academia, porque é fácil encontrar explicações alternativas para o #OscarsSoWhite. As indicações podem ser enviesadas em favor dos brancos porque a maioria dos britânicos é branca e atores britânicos de formação de alto nível têm recebido mais que sua devida parcela de papéis destacados nos últimos anos. Os roteiristas podem estar escrevendo papéis de destaque para atores brancos porque a maioria dos roteiristas é formada por brancos, e eles escrevem sobre o que conhecem. Os estúdios podem querer astros brancos consagrados nos papéis principais, simplesmente para minimizar seu risco financeiro. Todas essas são explicações plausíveis que não têm origem em qualquer desejo de oprimir as pessoas de cor.

Mas a explicação mais plausível do "atraso" das pessoas de cor na indústria cinematográfica é a mesma que explica seu atraso em muitos outros campos: que o legado de racismo nos EUA deu às pessoas brancas uma dianteira enorme e injusta. Hollywood, em especial, é cheia de legados. Filhos de atores, cineastas e executivos de estúdios se beneficiam do sucesso e dos contatos de seus pais. Além disso, o entretenimento é uma área profissional pouco prática, algo que pode ser feito mais facilmente por pessoas que já dispõem de recursos financeiros ou de tempo livre em abundância.

Os anos de indicados ao Oscar sobretudo brancos devem sem dúvida ser fruto de algum tipo de racismo, mas é mais provável que a disparidade seja decorrente do histórico repreensível de racismo da América, e não de alguns membros racistas da Academia. Se eu tivesse uma crítica a fazer ao #OscarSoWhite, tirando o fato de que é difícil solidarizar-se com Will Smith, é que a revolta se concentrou demais no sintoma – a escassez de indicações ao Oscar --, quando deveria ser voltada às suas causas. Enquanto não combatermos as disparidades raciais de renda e instrução, os profissionais vão refletir essas desigualdades onipresentes.

Assim, embora as indicações ao Oscar deste ano possam parecer uma vitória para as pessoas de cor, as batalhas mais importantes e menos glamurosas ainda precisam ser travadas. Esperemos que os mesmos astros que ficaram indignados com as indicações ao Oscar do ano passado continuem a lutar por avanços críticos nas áreas onde são realmente necessários. Quem sabe o que não poderia acontecer se #GoodSchoolsSoWhite (boas escolas tão brancas) recebesse tanta atenção quanto foi dada ao #OscarsSoWhite?

*Este texto foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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