OPINIÃO

Você precisa ouvir 'auê', segundo disco da banda Circo Motel

12/04/2016 10:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Divulgação

Groove bom pra dançar, feijoada, meme, solidão, alegria, fundo do poço, coisas boas da vida, coração tropical, funk e rock and roll. É isso que te aguarda nas 11 faixas de auê, disco novo da banda Circo Motel, que você ouve em primeiro mão aqui no HuffPost Brasil. Uma ótima pedida sonora para os caóticos e intensos dias atuais.

Este disco é resultado de pelo menos quatro anos de trabalho do grupo, das primeiras ideias às composições, ensaios, gravações, passando por uma campanha de crowdfunding no Catarse e, finalmente, os shows de lançamento a partir deste mês. A produção fica por conta de Cris Scabello, do Bixiga 70, e o álbum será lançado em CD, vinil e um compacto com versões dub assinadas por Victor Rice.

Este é o segundo disco da Circo Motel. A banda é formada por Felipe Seabra (baixo), Rafael Charnet (guitarra), Rafael Gregorio (voz), Rodrigo Machado (guitarra) e Thiago Coiote (bateria). Encontrei os caras para um papo sobre este trabalho, a cidade de São Paulo, Tim Maia, roupas vermelhas, gifs, entre outras coisas.

Boa parte das músicas deste álbum são bem diferentes das do primeiro disco da carreira de vocês: Sobre Coiotes e Pássaros, de 2011. Como aconteceu essa mudança?

Rafael Charnet: O disco anterior era um pouco uma experimentação para chegar em algum lugar que a gente não sabia muito bem qual era, então reflete as mudanças do que a gente estava ouvindo. As referências de funk, Motown, sons brasileiros, tropicália.

Rafael Gregório: Desde 2010, a gente ouvia muita coisa de funk, soul, samba rock, Jorge Ben. A gente estava nesse caminho mas ainda não estava transmitindo tanto para as composições. O Sobre Coiotes foi meio que uma foto em movimento, até meio borrada.

Rodrigo Machado: Acho que é o primeiro disco que a gente termina e aonda gosta. o último disco quando terminou a gente queria fazer outra coisa.

Rafael Gregório: É verdade, um mês depois a gente já tava criticando. Depois a gente queria um som mais orgânico, com guitarras conversando. Foi esse processo natural. Da minha parte também foi um exercício de humildade, de jogar certas ideias fora. Você fica um tempo achando que tudo que faz está uma bosta.

O disco mostra a que veio já com a primeira música batizada de James Brown. Em um vídeo no Facebook vocês mostram muita influência de Tim Maia no trabalho. O auê reflete uma mistura dessas influências?

Rafael Gregório: Sim. James Brown e Tim Maia foram muito importantes. A gente ambicionou uma intersecção autoral entre o rock, soul e funk. A gente até cogitou colocar o titulo Tim Maia nessa canção, mas eu venci e colocamos James Brown.

Rodrigo Machado: Sobre o Tim Maia, tem um disco muito específico que marcou muito esse processo, o de 1977. Da fase pós Racionais, quando ele estava no auge da forma. É sensacional.

Rafael Gregório: É verdade, esse disco é muito importante mesmo. O Rodrigão levou esse disco para colocar no meu carro tem um ano e meio e está lá ainda. A gente ouve ele do começo ao fim, três vezes por dia.

Algumas das letras mostram uma certa melancolia, como em Terna Bahia, Coração Tropical e Coisas Pequenas. Outras, as angústias típicas de um morador de uma cidade como São Paulo. Vocês concordam com essa impressão?

Rafael Gregório: Esse disco tem uma carga emocional muito grande. Desde 2012 teve todo tipo de merda nas nossas vidas: mortes, doenças, separações. A gente tornou o projeto uma cura para as nossas vidas e trouxe isso para as letras. Cada letra e música têm uma interação com a gente.

Felipe Seabra: Coisas Pequenas é uma letra que me salvou, salvou minha vida. Tem vários momentos que vão da alegria ao fundo do poço, à saída do fundo do poço. A gente molhou as mãozinhas com a lama do fundo do poço, mas saiu, e saiu dançando.

Rafael Gregório: Também tem muita reflexão sobre o cotidiano. A gente estava muito aflito com São Paulo, falamos da correria, da loucura, da histeria das pessoas. Tem muito da claustrofobia urbana, das coisas pequenas do dia a dia.

Isso fica mais forte na letra de Cara Normal. Quantos de vocês têm um pouco de Cara Normal?

Rodrigo Machado: É a que fique mais evidente, é um cotidiano descrito com certa agonia.

Rafael Gregório: Eu me sinto um cara normal muitas vezes. Quando tem que fazer tudo no automático e perder as coisas bonitas que passam.

Rodrigo Machado: Mas aí a gente tem um coração tropical para valorizar essas coisas pequenas.

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Da esquerda para a direita, Circo Motel é Rafael Charnet (guitarra), Felipe Seabra (baixo), Rafael Gregório (voz), Rodrigo Machado e Coiote (bateria).

Vocês são todos de São Paulo? Tenho impressão de que esses sentimentos são mais fortes em quem é de fora e vem morar na cidade.

Rafael Charnet: Somos todos daqui. O Coiote, o baterista, é de Itanhaem, o caiçara da banda.

Rodrigo Machado: Está tão difícil, mesmo a gente que nasceu aqui, é calejado, está incomodado, imagine alguém que chega de fora.

Rafael Gregório: mesmo assim eu me sinto alguém de fora em São Paulo, é esquisito. Principalmente essa coisa política, está esquisitíssimo, pesado.

Estamos em uma fase em que a gente está se preocupando com a cor da roupa.

Rodrigo Machado: hoje eu vi uma menina de vestido vermelho e falei "por aqui você pode ficar de boa, mas dependendo de onde você estiver podem te chamar atenção".

Rafael Gregório: isso incomoda bastante. Embora a mensagem tenta ser positiva, óbvio que a gente está preocupado com as coisas que estão acontecendo.

E na música Feijoada vocês cantam "Crime ocorre, nada acontece, feijoada" no refrão. É uma espécie de homenagem ao coreano daquele meme maluco, infame?

Rafael Gregório: A gente pira com humor nesse meme, porque é muito absurdo e essa construção "crime ocorre, nada acontece feijoada" é maravilhosa. Só que hoje em dia virou até normal isso aí, do cara falar "Lula Dilma terrorista...". Na verdade, Feijoada é uma metáfora sexual.

Vocês imaginam fazendo músicas inspiradas em outros memes?

Rafael Charnet: Com certeza, assim como tudo no dia a dia é inspiração, se você é bombardeado por memes e gifs, isso faz parte.

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Isso tudo reflete o nome do disco?

Rafael Charnet: O auê vai desde a bagunça, a festa, a folia até a desordem, confusão. É esse monte de coisa.

Rafael Gregório: teve um momento que a gente parou em casa, pegou um dicionário, e quando a gente viu auê percebeu que era tudo, festa, desordem, resistência, balbúrdia.

O auê tem produção do Cris Scabello, do Bixiga 70. Eu gostaria de saber mais sobre o papel dele no álbum e na parceria com vocês.

Rafael Charnet: Nesse disco a gente esperou mais para fazer do jeito que a gente imaginava. Em 2014 a gente estava pensando em quem iria produzir e fomos no Estúdio Traquitana bater um papo.

Rafael Gregório: A gente foi bem chato, chegou e falou "queremos um som orgânico, gravar ao vivo".

Felipe Seabra: Eu sou um cara bem cético, bem desconfiado quando o tema é gravar. Eu estava meio descrente frente a nossa proposta de fazer um som orgânico. Eu não conhecia o Cris e quando a gente chegou no Estúdio e ele só falou "meu negócio é fazer som orgânico, dar um REC e deixar a pessoa fazer do começo ao fim aquele take que é o take eternizado". Eu virei pro Rafinha na hora e falei: "Estou apaixonado por esse cara". Rolou essa química, não foi forçado.

Como foi pensada e criada a capa do disco? (abaixo)

Rafael Charnet: A capa é uma tela de madeira de um metro quadrado do Santi, um artista argentino. A gente conversou, mostrou os sons e ao longo de dois meses ele foi pintando um monte de coisa nessa tela e mandando fotos do processo. Abaixo da capa tem um monte de camadas, como um Photoshop. Parte desse processo está no projeto gráfico do CD e vinil. Vai ter imagens que já pertenceram aquela tela e estão sobrepostas. Essa tela é um dos prêmios do Catarse, mas estará exposta na lojinha no show de lançamento do disco.

Felipe Seabra: Tem a ver com o momento, as construções das músicas foram momentos da vida de cada um e ele teve a brilhante sacada de fazer esse lance de camadas irem sobrepondo. Porque a vida é isso, tem a marcação do que é a vida naquele momento e amanhã é um novo dia que vai sobrepor e é óbvio que algo que tinha antes vai aparecer. A medida que o tempo vai passando, a camada vai ficando ainda mais imperceptível. Se olhar com muita atenção, todas elas estão lá. Foi uma boa tradução da arte para a música.

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Queria aproveitar e perguntar sobre o Catarse, como foi a experiência de vocês, vocês recomendariam para outras bandas e artistas?

Rafael Gregório: Recomendo, mas tem que fazer muito planejamento, muita conta, o que é um saco. Nós tínhamos um orçamento muito grande e não teria como terminar o disco sem o Catarse. Foi um desafio de sacar até quanto dinheiro a gente podia pedir, quanto de recompensa a gente poderia dar. Deu tudo muito certo, mas com muito esforço.

Rafael Charnet: A gente ficou quase um ano analisando o catarse e a conclusão é que não existe uma fórmula. Precisa entender que tipo de interação você tem com o seu público e o que você pode fazer. Se coloca na posição do cara que vai receber as recompensas. Uma das nossas é fazer uma feijoada com um show acústico. Não dá pra falar pra outra banda fazer uma feijoada.

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Depois de todo esse caminho e com o disco pronto, agora vem a parte dos shows. Quais as expectativas de vocês para os shows que virão em breve?

Rafael Charnet: Depois desse processo todo fora a música, finalmente a gente está zerando e focando em ensaio. Virou a diversão, coisa mais legal em ter uma banda.

Rafael Gregório: A gente estreia dia 22 de abril no Sesc Pompeia. A gente está felizão de voltar ao Pompeia, a gente fez o Prata da Casa lá. Estamos nos esforçando muito para preparar esse show. Em junho a gente toca no Z Carniceria. Vai ter uma participação muito especial do Saulo Duarte, que é um cara que a gente admira muito. Vai fazer a luz o Paulo Fluxus, que é um cara que a gente curte desde as atuações políticas dele com o projeto Tanque Rosa Choque. A gente vai ter o Décio do Bixiga fazendo a percussão e nos teclados a Irina Bertolucci, do Garotas Suecas, que praticamente já faz parte da banda.

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