OPINIÃO

Uma viagem pelo som da banda Bombay Groovy

21/08/2015 16:47 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação

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Tem músicas que te levam para muito longe. São verdadeiras viagens por universos desconhecidos e lugares distantes do palpável. Tudo que a gente precisa em muitos momentos. É o caso do som da Bombay Groovy, trio formado por Rodrigo Bourganos, Leonardo Costa e Jimmy Pappon.

Com um EP e um disco lançados (ambos levam o nome da banda), suas canções misturam sonoridades do ocidente e do oriente, um verdadeiro passaporte para outro mundo. Caso não conheça, espere ouvir muita sitar e teremim, algo muito diferente do, digamos, "convencional".

Os caras foram destaque no cenário da música instrumental brasileira em 2014, ganhando cada vez mais reconhecimento e público cativo. Eles estão entre os dez finalistas do Samsung E Festival Instrumental.

Uma excelente oportunidade de conhecê-los ao vivo é na próxima sexta-feira, dia 21, em São Paulo. Eles se apresentam no La Nave Festival 6, na Rua Augusta. Vale ficar de olho na agenda deles para as próximos shows.

Troquei uma ideia com eles por e-mail para saber mais sobre seus sons e história. Eles contam um pouco de suas origens, influências, os planos para o segundo álbum e também sobre a perda de um dos fundadores do grupo, Danniel Costa, morto em maio deste ano, em decorrência de uma arritmia cardíaca.

Dá o play no disco abaixo enquanto lê nossa conversa.

Quais as origens de vocês? Por que foram para o caminho da música psicodélica e não escolheram algo como uma banda de rock tradicional?

Rodrigo: O meu encontro com o Danniel se deu justamente por causa do sitar, já que fazíamos aulas com o mesmo mestre naquela época. A partir disso, descobrimos nossas afinidades dentro do universo do rock. Resolvemos marcar uma reunião na sala dele uma tarde para tocarmos sitar. Inevitavelmente saíram vários temas de rock. Já nesse dia bolamos o conceito da Bombay Groovy, que seria quase como uma banda de rock tradicional, à princípio, mas que substituiria o vocalista e o guitarrista pelo sitar, que também é um instrumento melódico, o rei dos instrumentos da música indiana.

Como acontece o flerte assumido com a musica brasileira e ritmos como o funk e o samba?

Sempre fomos entusiastas da pluralidade e seus "fusions" com o rock, sempre presente em nossa linguagem! As bandas que nos inspiram também buscavam várias fontes para enriquecer seu rock. O Led Zeppelin mesmo já bebeu em várias dessas fontes, inclusive do samba. Nós, como brasileiros, temos uma afinidade inata com esses ritmos (como o baião, que por sinal tem grandes semelhanças com a música indiana). A união de todas essas influências foi natural para a banda, e buscamos constantemente agregar novas linguagens, como a música cigana e o afrobeat que aparecerão no próximo trabalho.

Quais são as reações de quem vê vocês no palco tocando sitar como se fosse uma guitarra?

É sempre algo muito comentado e que sintetiza em si muito da nossa mensagem! Isso nos aproxima do rock and roll de maneira escancarada, nos afastando do universo da new age, world music e outros gêneros. Somos roqueiros assumidos! O sitar tocado como a guitarra facilita também nossa performance e tornam nossas apresentações mais enérgicas.

Qual a receptividade do público para as músicas de vocês? Há diferenças em alguns lugares ou cidades?

O público parece sempre muito receptivo e envolvido, desde grandes teatros, festivais até os "inferninhos" do circuito underground!

Leonardo: E não há muita diferença de acordo com a cidade que tocamos, pelo menos ainda não sentimos isso. Tanto na Grande São Paulo, no interior ou fora do Estado, a receptividade do público costuma ser a mesma: superpositiva, ainda bem [risos].

Quais são as influências musicais de vocês? Rola fazer uma listinha?

Rodrigo: São muitos!! Mas podemos colocar nomes como Led Zeppelin, Mahavishnu Orchestra, Emerson Lake & Palmer, Deep Purple, Soft Machine. Niladri Kumar, Jeff Beck, Yes, Gentle Giant, Traffic, Arthur Brown, Alice Coltrane, Debussy, Paco de Lucia, Django, Ananda Shankar...

Jimmy: Cinco nomes é pouco [risos]! De minha parte, posso citar Deep Purple, Frank Zappa, Black Sabbath, Mahavishnu Orchestra, Keith Jarret, Bach, Stravinsky, Villa Lobos... E vai longe ainda!

Rolling Stones também é uma influência? Essa versão (no vídeo acima) ficou bastante diferente da original, por motivos óbvios, claro. Chama a atenção do público esse tipo de cover?

Rodrigo: Rolling Stones influencia completamente! Brian Jones também adotou o sitar e instrumentos exóticos dentro do rock. Ele, assim como os outros Stones, também são grandes ícones visuais para nós. Os Stones tinham um gosto sofisticadíssimo dentro da moda roqueira "dandy flamboyant" dos late 60's e early 70's, estilo que mais nos instiga e que faz parte da personalidade visual do nosso grupo. Sempre que tocamos Jumping Jack Flash nas apresentações, são versões muito enérgicas em que o público se identifica imediatamente. A primeira versão de Jumping Jack Flash no sitar na realidade foi de Ananda Shankar, no fim da década de 1960, então ao tocarmos a peça, fazemos uma homenagem dupla!

Como e quando vocês se interessaram pelos instrumentos indianos?

Minha mãe fazia parte de um grupo de dança clássica indiana e em uma das viagens do grupo para a Índia, ela me trouxe um sitar. Eu já me interessava pelo instrumento principalmente por causa da atração que meus ídolos do rock tinham por ele, e foi um processo natural para que eu tentasse unir as duas coisas, e foi nesse ínterim que conheci o Danniel, que desejava fazer a mesma coisa.

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Vocês começaram a gravar um novo disco certo? O que podemos esperar?

As gravações de fato começam no meio do semestre, mas estamos na fase de composições e organização do material que será registrado. O disco promete manter uma harmonia com a linguagem desenvolvida no homônimo, mas transcendê-la ao englobar influências de jazz manouche, música flamenca, sons do mediterrâneo, ritmos africanos, rock progressivo, jazz fusion... A banda está muito feliz e realizada com o que vem sido desenvolvido para este álbum! Ele mantém o número de 10 faixas do primeiro, pois acreditamos que cada faixa deve representar um fruto da árvore da vida na cabala.

Infelizmente, vocês perderam um companheiro de banda este ano. Homenagens a ele estarão em novo disco?

Foi uma perda lastimável, não só de um membro da banda, mas de um irmão para todos nós e uma pessoa muito querida aqui na cena artística de São Paulo. O disco será repleto de homenagens a ele, a começar pelo nome "Dandy do Dendê", apelido dado a ele por Alberto Marsicano, precursor do sitar no Brasil. Também terá algumas composições que ele deixou algumas semanas antes do seu falecimento.

Quais os planos para o futuro do grupo?

O plano no momento é fazer um trabalho sublime no álbum "Dandy do Dendê" e fazer com que ele seja ouvido! Temos alguns planos ambiciosos de convidados especialíssimos! Somos finalistas no concurso Samsung E-Festival Instrumental, então também temos como objetivo vencer este concurso e dessa maneira abrir várias portas. Estamos no momento em fase de votação popular, que se encerra no dia 23 de agosto e uma ampla campanha está sendo realizada na nossa página do Facebook.

Como está a produção e o espaço para a cena musical instrumental no Brasil? Me parece que o público está mais interessado nesse tipo de som.

Percebemos que há um grande interesse nessa modalidade de som. A ausência de letras em si não compromete a apreciação de uma música. Boa parte da música eletrônica, que faz bastante sucesso, não contém letras. A banda Focus, que também nos inspira muito, emplacou vários hits instrumentais (que usam a voz como um instrumento), como Sylvia e Hocus Pocus.

Jimmy: A música instrumental não chega a ser um gênero, apenas é uma das várias formas de se estruturar uma música. O público tem encarado mais desta maneira, ultimamente, o que vem contribuindo muito com a aceitação e o interesse por bandas que se expressam desta forma.

Quem entrar agora no universo da música de vocês, quiser ouvir e ver ao vivo outras bandas brasileiras, quais vocês indicam?

Nós podemos indicar várias bandas parceiras que costumam se apresentar conosco e que compartilhamos afinidades estéticas! Dentre essas podemos mencionar Murilo Sá & Grande Elenco, Mescalines Duo, Tigre Dente de Sabre, Sexy Groove, Vaudeville, Anjo Gabriel, além de nomes mais antigos como Violeta de Outono.

Jimmy: O Rodrigo já citou ótimos nomes, mas acrescento a banda Dialeto, o trabalho do cantor André Frateschi, do Michel Leme... Entre os nomes antigos, eu citaria o Som Nosso De Cada Dia e O Terço. Gosto muito de Sepultura também.

Pra fechar e não fugir da pergunta clássica e clichê: qual a história do nome Bombay Groovy? Bombay é o nome de uma cidade da Índia. Já estiveram lá?

Esse nome busca ilustrar a proposta da banda! Nunca estivemos em Bombay, mas a menção da cidade tem como intenção remeter ao nosso vínculo com a Índia e ao mesmo tempo a pulsação, caos e barulho da metrópole indiana. "Groovy" no caso é uma gíria muito popular nos anos 60 e 70, que remete ao nosso vínculo com a época e ao mesmo tempo com o seu significado, que engloba o ritmo e o fato de ser algo excitante e atrativo.


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