OPINIÃO

Uma política feita por homens não contempla políticas públicas para mulheres

Equidade entre homens e mulheres, para alguns, representa perder vantagens e controle sobre as mulheres.

24/03/2017 15:09 -03 | Atualizado 10/05/2017 11:49 -03
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"A reforma da previdência, quando iguala a idade de aposentaria, não considera que mulheres trabalham 7,5 horas a mais que homens."

"Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher", declarou Michel Temer (PMDB) em uma cerimônia pelo Dia Internacional da Mulher. O Presidente da República também comentou sobre a participação da mulher na economia: "na economia também a mulher tem grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços no supermercado do que a mulher". Segundo o presidente, nesses discursos, o lugar da mulher é em casa, no supermercado e cuidando dos filhos.

Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, não vê iniquidade entre homens e mulheres na nossa sociedade. "Quando você quer caminhar para um equilíbrio, tem que ser um equilíbrio em tudo", disse ele. Para o parlamentar, homens e mulheres devem se aposentar com a mesma idade, de 65 anos.

O relator do projeto que regulamenta a terceirização das atividades laborais no país, o deputado federal Laércio Oliveira (SD-SE), declarou que "somente no setor básico, asseio e conservação, é unanimidade, se terceiriza em todo lugar. Somente nessa atividade tem mais de dois milhões de trabalhadores, 60% dessa mão de obra é feminina, porque faz limpeza. Ninguém faz limpeza melhor que a mulher", disse o deputado.

Michel, Rodrigo e Laércio são três homens brancos e ricos que, além de não reconhecerem que mulheres precisam urgentemente de políticas políticas para elas, demonstram, com convicção, que lugar de mulher é em casa, no supermercado, fazendo a limpeza e cuidando dos filhos. Esse pensamento arcaico e machista assusta, mas não surpreende.

Homens não estão interessados em perder o privilégio de serem servidos e cuidados por suas mães, mulheres e até filhas. Para eles, é interessante que mulheres continuem ganhando menos, dependendo deles financeiramente e que permaneçam responsáveis pela criação das crianças. Afinal, mulher no poder e em cargos de autoridade significa homens tendo que adentrar um campo nunca habitado por eles pela falta de interesse: o campo do trabalho doméstico, de cuidar dos filhos e da casa. Equidade entre homens e mulheres, para eles, representa perder vantagens e controle sobre as mulheres.

O problema é que mulheres ainda são submetidas à dupla ou tripla jornada de trabalho. Elas cuidam da casa, dos filhos e, hoje, saem para trabalhar fora para assegurar uma renda maior para a família. A reforma da previdência, quando iguala a idade de aposentaria, não considera que mulheres trabalham 7,5 horas a mais que homens. De acordo com o estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de horas semanais dedicadas ao trabalho doméstico é de 25 horas para as mulheres e 10 horas para os homens. A taxa de desemprego da população feminina é maior que a masculina porque o mercado de trabalho não tolera mães, descarta mulheres após o término da licença-maternidade e dificilmente contrata mulheres em idade fértil que estejam recém-casadas. Além disso, mulheres recebem 30% a menos que os homens pelos mesmos trabalhos.

Ao retirar a primeira mulher eleita democraticamente da presidência, comprometemos as decisões sobre as políticas públicas para as mulheres. Deixamos que eles decidam, como sempre, o que será da nossa vida. Entregamos a eles nosso presente e futuro de nossas filhas. Delimitar o lugar da mulher a cuidar das crianças e negá-las o direito à equidade justa e necessária, é reforçar os mesmos estereótipos de sempre: o de bela, recatada e do lar. É contentar-se com meninas de apenas 7 anos que já se sentem pressionadas a ter aparência perfeita, é fechar os olhos para o fato de que meninas de 6 anos não se acham tão inteligentes quanto os meninos, é negar-se a enxergar que o trabalho doméstico rouba tempo de brincadeira e estudo de meninas.

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