OPINIÃO

Por um Natal mais feliz e com rabanada de verdade

21/12/2016 09:31 -02 | Atualizado 21/12/2016 09:31 -02
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Japan

Quando você pensa que 2016 não pode ficar pior, vem a rabanada fit e te esfrega na cara que pode, sim!

Estou eu navegando na Internet e, de repente, uma enxurrada de hashtags ao redor da rabanada: #rabanadafit, #rabanadalowcarb, #rabanadasugarfree, #rabanadadobem. Parei por um instante e passou um filme de terror na minha cabeça. Lembrei da Páscoa, quando inventaram de colocar um mamão enrolado em papel de ovo de Páscoa para presentear crianças e também da caça aos ovos com uvas. Fim dos tempos, pensei. Não parou por aí. Teve também saquinho de Cosme e Damião com tâmara, passas, ameixa seca e barrinha de cereal. No final, chegou, debochando de mim, a rabanada fit! Não era possível acreditar. Não aguentei e escrevi um post irônico:

"Tô passando na sua timeline para deixar uma receita de #rabanadafit. Você pode usar pão de forma integral ou pão caseiro de batata doce. Molha o pão no leite de coco caseiro (sem açúcar! #sugarfree). Põe no forno ou frita no óleo de coco. Cuidado pra não deixar o óleo esquentar muito pra não perder as propriedades! Porque, né, mores, é Natal, mas a gente se preocupa mesmo é com as propriedades e qualidade dos ingredientes ingeridos na ceia. A gente vai anotar tudo que come no app Fat Secret. Não salpica açúcar na rabanada de jeito nenhum! Salpica coco ralado. Coco fresco, ralado na hora, obviamente. Você compra coco seco, tira a água, quebra o coco e rala na hora! Até porque você tem tempo e nem tá com calor nesse Hell de Janeiro fazendo sua ceia na cozinha que mais parece a filial do inferno. Pronto! Sua ~hashtag rabanadafit~ tá pronta! Você vai fingir que amou e todo mundo vai te achar #focado. Pode colocar whey protein também. Em 2017, você se preocupa em tratar seu distúrbio alimentar desenvolvido por conta de tanta restrição em 2016. Feliz Natal! Feliz Natal, merda nenhuma! Foco, força e fé! Esse negócio de ser feliz é balela. Bom mesmo é ser (apenas) fit."

Vejam bem, eu cozinho muito e quase não uso industrializados no meu dia a dia. Desembalo pouco e descasco muito. Evito açúcar e frituras. Aliás, detesto fritura porque suja tudo e, de fato, não é a coisa mais saudável do mundo para comer todos os dias. A fruteira está sempre colorida e gosto de pratos cheios de verde e variedades. Porém, tudo tem limites. É preciso ter bom senso e respeito pela cultura. Aquilo que você come todo dia precisa ser balanceado e ninguém discorda disso. Muito menos eu, que milito pela causa da alimentação infantil saudável. O problema é que dar mamão ao invés de ovo de Páscoa é uma ofensa ao coelhinho. Fazer saquinho fit de Cosme e Damião é passar de todos os limites da fé. Fazer rabanada fit/lowcarb/sugarfree/proteica é certamente não ter entendido nada.

O que eu quero dizer é que acho maravilhoso que as pessoas estejam mais conscientes acerca da alimentação e acho ótimo que isso esteja beneficiando a população, que anda sofrendo de diabetes, colesterol alto e hipertensão.

A questão é que existe uma linha tênue entre ser saudável e sofrer de ortorexia, um tipo de distúrbio alimentar caracterizado por uma obsessão por comer de forma saudável. RABANADA É SERVIDA UMA VEZ NO ANO. Não é o lanche escolar de todo dia, não é seu almoço, não é seu café da manhã dos 365 dias do ano. A rabanada do Natal não vai te fazer diabético. O problema é o que você come do dia 26 de dezembro de um ano ao dia 23 de dezembro do ano seguinte.

Não é mentira que comer mal é uma realidade brasileira. Não é mentira que a população tem adoecido por conta da comida. No entanto, o que precisamos combater é a publicidade desonesta de alimentos maléficos e não a tradição da comida feita carinhosamente na cozinha da vovó. Estamos errando o alvo! Mudar hábito alimentar é ótimo e saber o que é exceção, também. Comer, cozinhar e compartilhar comida em uma mesa linda não é perigoso, não é um atentado contra a sua saúde, não é "do mal".

O que precisamos é ter uma boa relação com o alimento, saber identificar os sinais do nosso corpo e, principalmente, ter a comida como aliada e não como um veneno. Perigoso é nos fazerem crer que não somos capazes de fazer nosso próprio alimento e que ele precisa vir, em sua maioria, embalado.

Cozinhar legumes no vapor ou fritar uma rabanada no Natal é um ato libertador e cheio de afeto. Não podemos sair de um quadro doentio de excesso de industrializados e cair em outro, o da ortorexia. Que a comida seja nosso remédio e nosso prazer. Que seja nosso remédio para o corpo e para a alma. Afinal, comer não se resume a nutrir só o corpo.

Feliz Natal com rabanada de verdade!

Entenda o "de verdade" como quiser.

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