OPINIÃO

A masculinidade tóxica que matou 12 pessoas em uma noite de Réveillon

02/01/2017 16:50 -02 | Atualizado 02/01/2017 16:50 -02
Neil Webb via Getty Images
Woman cowering in corner under shadow making a fist

A carta do autor da chacina em Campinas foi divulgada por um veículo importante de comunicação sem o cuidado de, ao menos, convidar uma especialista em feminicídio para explicar sobre o crime. Eu não sou especialista, mas sou mulher e tenho medo das consequências dessa carta. Alguns apontam que ser de direita foi uma das motivações para o crime. Eu não acho. Acredito, exclusivamente, que ser um homem machista que não teve suas vontades realizadas foi o suficiente para acabar com a vida de Isamara Filier e outras pessoas da sua família. Também não creio em loucura ao me deparar com esse tipo de crime. Creio em misoginia, machismo e a dificuldade de um homem aceitar que sua ex-mulher seguiu em frente sem ele. De qualquer forma, não me cabe analisar a sanidade do homem, mas suas palavras misóginas.

O assassino acusa o feminismo por sua motivação para cometer o crime. É preciso, então, explicar o que é feminismo:

Feminismo é um movimento político, filosófico e social que luta pelos direitos das mulheres, pela igualdade entre homens e mulheres e pela libertação feminina de padrões patriarcais que aprisionam, oprimem e paralisam. Padrões que só servem para controlar mulheres e mantê-las caladas e inertes. O feminismo não entra em uma casa e mata doze pessoas de uma só vez. Quem mata, estupra, violenta e acaba com a vida das mulheres são homens misóginos.

O que aconteceu em Campinas foi um crime específico chamado feminicídio. O feminicídio está tipificado no inciso 2º do artigo 121 do código penal, como: "matar cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição". E ainda: "matar mulher por razões da condição de sexo feminino".

Está explícito na carta escrita pelo criminoso o ódio às mulheres: "morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas", "a vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos", "quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia", "ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais", "tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha", "toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos" e "quero pegar o máximo de vadias da família juntas".

O ódio contra o sexo feminino está presente naquela carta o tempo todo.

Inacreditavelmente, estamos em 2017 e as pessoas continuam achando que a mulher teve culpa. Seja por, supostamente, não ter deixado o filho com o assassino ou por desobedecê-lo. Mulheres são estupradas e a culpa é delas, que usaram roupas curtas. Mulheres apanham e a culpa é delas porque provocaram. Mulheres sofrem violência doméstica e a culpa é delas porque não souberam escolher bem o marido. Mulheres são assassinadas por homens e a culpa continua sendo delas. Eu sonho com o dia que culparemos os verdadeiros culpados: estupradores, espancadores e assassinos. Não podemos aceitar a vitimização do criminoso nem a vítima exercendo o papel de culpada. Há uma inversão séria nesse caso.

Matar, agredir e violentar não estão relacionados ao amor, mas ao poder

Dar voz ao autor de uma chacina justificando seu ato é uma irresponsabilidade sem igual. Ali, temos um homem que não acredita na justiça, que acha que estar preso é um passeio, que deixa claro que não tem medo de morrer e que é capaz de qualquer ato criminoso para acabar com uma mulher, que acha que Direitos Humanos defendem bandidos e que ironiza a Lei Maria da Penha. Temos ali um portal obscuro e aterrorizante que dá margem a comentários de outros machistas que se identificam com ele, concordam entre si e se apoiam. A divulgação dessa carta é um perigo para a vida das mulheres que sofrem com o machismo todos os dias.

No entanto, não é uma carta com frases inéditas. É uma reunião de comentários que estamos acostumados a ler na Internet e a ouvir pessoalmente: declaração de ódio às mulheres, que são consideradas vadias quando empoderadas, repulsa pelo feminismo e um vale-tudo pelo poder. Matar, agredir e violentar não estão relacionados ao amor, mas ao poder. E a busca por esse poder que tem alicerce no machismo cega e mata. Mulheres no poder são periogosas para o patriarcado. Elas ameaçam uma masculinidade frágil que leva um homem a achar que, por não bater em uma mulher, é frouxo: "sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela".Essa masculinidade construída socialmente mata doze pessoas em uma noite de Réveillon. Essa ênfase excessiva na masculinidade e no poder produz assassinos e coloca em risco vidas femininas.

O criminoso deixa claro que não odeia todas as mulheres e que gosta apenas das "de boa índole". Essa mulher "de boa índole" opõe-se à mulher "vadia". Para homens machistas, mulheres de boa índole obedecem, acatam, calam-se enquanto as vadias rebelam-se, revoltam-se, não aceitam e usufruem da Lei Maria da Penha se assim for necessário. Estamos aqui por todas. Nós somos o saco de pancadas que se cala ou o obstáculo que grita pela liberdade. Os rótulos vão depender de como nos comportamos na nossa sociedade machista, do quanto tiramos o sono dos misóginos com nossa busca pela liberdade e do quão forte aprendemos a ser a cada dia.

Sidnei está na nossa casa, nas nossas festas, na nossa universidade, no nosso escritório

A morte de Isamara Filier e seus familiares é o efeito brutal do machismo na vida das mulheres. É por isso que o feminismo se faz necessário. É urgente pensar nas mais diversas formas de proteger mulheres e libertá-las. Sidnei, o autor do crime, não é um personagem fictício louco que habita um lugar longe do nosso planeta. Ele é aquele homem que brinca que lugar de mulher é pilotando fogão, é aquele tio que diz que política não se faz com mulher, é aquele primo que escreve posts machistas, é aquele marido que brinca que quem manda ali é ele, é aquele filho que não lava o próprio prato e explora a mãe. Sidnei está na nossa casa, nas nossas festas, na nossa universidade, no nosso escritório. Sidnei é mais comum do que você imagina.

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