OPINIÃO

A esquerda brasileira precisa acordar

23/11/2016 14:35 -02 | Atualizado 23/11/2016 14:35 -02
Sergio Moraes / Reuters
Marcelo Freixo, a 45-year-old state assemblyman and Rio's Mayor candidate speaks during a rally campaign in Rio de Janeiro August 24, 2012. To many in this coastal metropolis, Rio de Janeiro has never had it so good. After decades of decay, crippling crime rates, and a loss of big business to rival Sao Paulo, Rio is on the rise. A recent boom in Brazil's economy, the discovery of massive offshore oilfields nearby, and Rio's hosting of the World Cup and Olympics later this decade have restored some of the splendor to the tropical city of 6.5 million people. But one local official is tired of the exuberance. Freixo, a 45-year-old state assemblyman, thinks Rio needs a reminder of all that is wrong -- from uneven development to deep inequality to corruption and organized crime so powerful that, facing death threats, he fled to Europe last year. Now, the schoolteacher turned human-rights activist turned politician hopes his call for a reality check can help him, in October elections, topple the popular mayor who presides over all the preening. Picture taken August 24, 2012. To match with Feature BRAZIL-RIO/ REUTERS/Sergio Moraes (BRAZIL - Tags: POLITICS)

Marcelo Crivella se elegeu com 59,37% dos votos válidos contra 40,63% do Marcelo Freixo. Freixo conseguiu o maior número de votos, principalmente, na Zona Sul enquanto Crivella conquistou grande parte da Zona Norte e a Zona Oeste. O candidato do PRB obteve 1,7 milhão de votos. Freixo, 1,2 milhão. A soma entre brancos, nulos e abstenções foi de 2.034.352 votos, número que ultrapassou a quantidade de votos dos dois candidatos.

A reação da Esquerda foi imediata. Não faltou xingamento para os eleitores do Crivella e dos que optaram por não escolher nenhum dos dois: 'ignorantes', 'burros' e 'alienados' foram termos utilizados para desqualificar o voto da maioria, o que é, no mínimo, desonesto e antidemocrático. Aceitemos a derrota. Sem tristeza? Não, mas com um sinal de alerta ligado: essa esquerda não está dialogando com o povo. A igreja, sim. Nada mais natural que votar em quem abre as portas do templo e oferece a água que cura o que o Estado não dá conta de curar. Nosso desafio agora é combater essa política sem desdenhar da fé alheia. Respeito, sempre.

Ao invés de vociferar palavrões contra a maioria que elegeu um candidato, é preciso analisar o contexto que entregou o Rio a Crivella. Observando alguns dos principais comentários na página do candidato vencedor no Facebook, é possível notar que a população elegeu um aquele que prometeu CUIDAR do povo e AJUDAR as pessoas, que é espelho desse povo por ser um HOMEM DE DEUS, por sua suposta SIMPLICIDADE e por estar pessoalmente NO MEIO DO POVO:

"Chegou a hora do povo do Rio de Janeiro ter alguém que CUIDE deles e que TRABALHE POR eles. O carioca vai se surpreender, porque não está habituado a isso e nunca teve alguém assim que cuide das pessoas." (F.S.)

"Crivella 10 humildade SIMPLICIDADE bom caráter sabe ouvir às pessoas." (M.C.)

"Parabéns Prefeito! A Bahia também te ama, obrigado por nos ter deixado com um projeto tão lindo, que AJUDA muitas famílias até hoje!! O Rio também merece essa bênção! Um justo governando!" (C.G.)

"Na Bahia ele gravou um cd com lindos louvores e usou o lucro do CD intitulado projeto nordeste para a construção de um oásis na caatinga. A fazenda Canaã que funciona até hoje com escola, alimentação, plantação, gerou emprego nessa fazenda, fez uma panificadora, atendimento médico e odontológico e muito mais. Em 1999 tenho o CD até hoje. Sou de SP admiro muito esse homem. Rio EM BOAS MÃOS." (E.N.)

"Nunca vi um prefeito eleito, comemorar a vitória dentro da favela, recebeu a notícia da vitória aki na minha comunidade, Vilar Carioca NO MEIO DO POVO.... Parabéns meu Prefeito." (M.A.)

"Filhão, você é inteligente, abençoado, FILHO DE DEUS, COMO TODOS NÓS,, então torço muito para que você consiga fazer o Rio de Janeiro crescer de novo." (N.P.)

Com seu slogan "chegou a hora de cuidar das pessoas", Crivella investiu na construção de uma imagem pacífica e paternalista. Diante de uma população que sofre todos os dias com violência das mais variadas formas, seu discurso caiu como uma luva. Em uma cidade caótica como o Rio de Janeiro, Crivella adotou um mecanismo poderoso em seu discurso durante toda a sua campanha e nas suas considerações finais no último debate, o de tranquilizar a população assustada e prometer CUIDAR da cidade como um pai cuida de seus filhos: "quero tranquilizar você", "vote no candidato que tem mais maturidade, que pode suportar todo o calor disso tudo e manter a calma e controlar o Rio de Janeiro", "quero governar pra você", "chega de briga", "chegou a hora de cuidar das pessoas, me dê a honra de fazer isso por você".

Por outro lado, Freixo, com um programa de governo democrático e promissor, com sua bandeira de mudança, redução de desigualdades e o comprometimento de beneficiar os trabalhadores, fez questão de deixar claro que seu papel não é decidir pela população, mas com a população: "Eu não vou cuidar de você porque você não precisa que eu cuide de você. Eu vou governar com você. Você sabe se cuidar. O que você precisa é de democracia e de ser ouvido. E isso vai acontecer". No entanto, seu apoio veio de coletivos e militâncias privilegiadas que não representam a maioria da população.

A população vota em quem fala a sua língua, em quem promove a sensação de pertencimento e em quem lhe representa, seja por ser do povão ou da igreja. Freixo não se enquadrou em nenhum deles. Se a esquerda não aprender a se comunicar para além das universidades, dos coletivos e de uma militância que não chega à periferia, estaremos fadados ao obscurantismo de um Estado desigual e demagogo.

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