OPINIÃO

A blogosfera materna é branca

Pensa rápido e cite uma página materna de uma mulher negra.

28/09/2017 15:46 -03 | Atualizado 28/09/2017 15:47 -03
Jim Young / Reuters
Mulheres mães negras deixam seus filhos em casa (sabe-se lá com quem) para limpar a casa das brancas.

Corro um risco neste momento de receber uma enxurrada de críticas. Não me importo. Eu me importo em me posicionar porque quem não se posiciona está do lado do opressor. E não é desse lado que eu nasci pra ficar.

Frequento a blogosfera materna desde 2007/2008. Em quase dez anos de blog, pude contar nos dedos de uma mão bogueiras maternas negras. Pensa rápido e cita aqui uma página materna de uma mulher negra.

Tem um montão de websubcelebridade. Quantas são negras? Quantas negras têm página com zilhões de seguidores? Quantas são Youtubers? Quantas blogueiras negras são patrocinadas por essas corporações que nos mandam e-mail quase diariamente? Quantas escreveram livros sobre maternidade? Quantas se tornaram coaches de maternidade? Quantas são chamadas para programas de TV? Quantas participam de congressos e dão workshops?

A blogosfera materna é branca.

Sabe por quê? Porque o privilégio que a branquitude nos proporciona - eu sou branca - não chega às mulheres mães negras. Elas são invisíveis. São elas que mais morrem no parto. Sim, mulheres negras morrem mais que as brancas. São elas que estão limpando as casas das brancas para que as brancas leiam livros, pensem e escrevam.

Tempo. Tempo é privilégio da branquitude. Mulheres mães blogueiras brancas conseguem manter páginas, blogs e canais no Youtube porque mulheres mães negras deixam seus filhos em casa (sabe-se lá com quem) para limpar a casa das brancas, para passar a roupa das brancas, para cuidar dos filhos das brancas.

Não estou apontando o dedo para você nem para mim. É um problema social, de gênero e de muito racismo. O que podemos fazer por enquanto é reconhecer que as mulheres negras vêm cuidando dos nossos filhos e deixando de cuidar dos delas para que a gente se engaje, frequente rodas de conversa, leia sobre feminismo e saia para trabalhar fora de casa.

Às vezes paro pra pensar: eu sou quem eu sou às custas de quem?

E você é quem é às custas de quem?

Não precisa responder.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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