OPINIÃO

Vargas na pena de Lira Neto

15/04/2014 09:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
Divulgação

Mergulhar na história é sempre um desafio prazeroso e cheio de descobertas. Envolver nesta busca uma ajuda de uma pena tão competente e sagaz quanto a de Lira Neto aumenta esta satisfação e garante a exatidão das informações e dados oferecidos. Na obra Getúlio (Cia. das Letras, 2012), LN busca material em todo tipo de fonte e vai encontrar muito conteúdo pessoal nos personagens partícipes. O mais importante vem do próprio Getúlio Vargas através de seu diário e de muitas alusões de parentes (a filha Alzira, entre outros) e pessoas próximas da intimidade pessoal e familiar e do mundo da política e do poder.

LN é um biógrafo do mesmo naipe dos grandes nomes do gênero no Brasil, que aliás tem sido uma marca especial de nossa literatura. Acumula uma experiência com uma série de títulos muito significativos, entre eles o do Padre Cícero, que pela mão de LN ajuda a explicar o Brasil de hoje e especialmente o fenômeno Lula e sua relação profunda com o nosso povo crente e esperançoso. A figura de Getúlio que emerge desta densa biografia em três volumes (os dois primeiros já editados) surge com riqueza e profundidade. O líder ativo e reflexivo, forte e pusilânime, afetivo e rigoroso, cheio portanto de contradições e conflitos, aparece fortemente em meio a momentos cruciais, desde as disputas locais na província até o golpe de 45, passando pelo governo do Rio Grande do Sul, pelo Ministério da Fazenda, destituição de Washington Luiz, o 9 de Julho, o Levante Comunista e finalmente o Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial. É o esboço do país em formação, na passagem da República Velha para a modernidade. De fato, há novidades nestas revelações porque partem de novas fontes.

A pressão inerente ao exercício do poder, e proveniente dos mais diversos setores, políticos e militares, o lidar constante com "os salvadores da pátria de sempre" e a habilidade, às vezes portentosa, da indispensável articulação para as costuras variadas do fazer político. O nascimento de um país moderno, nas relações de trabalho, na instalação das infraestruturas nacionais (CSN, Petrobrás), fortalecimento da nascente economia de mercado e de outra parte as carências de uma sociedade desigual e instável que em grande parte vai explicar acontecimentos do terceiro volume assim como os desdobramentos das era JK e Jânio/Jango que eclodem no golpe de 64. Este saudável mergulho nos faz entender melhor o quanto ainda temos pela frente.