OPINIÃO

Charlottesville: Somos cúmplices?

'Se isso não é racismo sistêmico, não sei o que é.'

24/08/2017 20:11 -03 | Atualizado 24/08/2017 20:11 -03
Zach D Roberts/NurPhoto via Getty Images
"Continuaremos a aceitar passivamente o mal do racismo sistêmico ou finalmente lutaremos por 'liberdade e justiça para todos'?"

Depois dos trágicos acontecimentos de Charlottesville, juntei-me ao coro de brancos bem intencionados na condenação da condenar a violência da supremacia branca nas ruas americanas.

Culpei o vilão óbvio: homens com pedaços de pau e suásticas, e até mesmo armas semiautomáticas, que marcharam pela crença de que meus filhos birraciais são inferiores e não têm lugar no país em que nasceram. Culpei o presidente Trump, que deu vida nova a esses movimentos e os defendeu falar em falsas equivalências entre os racistas e seus adversários. Não culpei a mim mesmo.

Minhas palavras não foram suficientes.

Agora, à medida que as atenções se afastam de Charlottesville, é hora de me desafiar – e a todos os brancos americanos que aceita a premissa fundadora de nosso país segundo a qual "todos os homens [e mulheres] são criados iguais" – para combater o racismo sistêmico com mais do que somente palavras.

O imperativo de erradicar o racismo é claro. Os descendentes europeus cujos antepassados ​​colonizaram este continente à custa de milhões de vidas de americanos nativos são também os principais beneficiários de quatro séculos de escravidão, segregação e discriminação institucionalizada contra pessoas de ascendência africana.

Se nossas famílias eram donas de plantações que utilizavam escravos ou vieram como imigrantes pobres em Ellis Island, nossa cor de pele foi nosso passaporte e nosso escudo. Poucas – se é que houve alguma – leis restringiram nossos direitos de ter trabalho ou de frequentar escolas de alta qualidade, obter empregos altamente qualificados, acessar recursos financeiros, casas próprias e empresas, votar e ocupar cargos públicos, servir em júris e ser julgado por nossos pares.

Não se pode dizer o mesmo dos homens e mulheres americanos de descendência africana. Para eles, tais formas de discriminação perpetradas pelos brancos foram comuns até o século 20, e muitas continuam a existir – embora não oficialmente – hoje.

Um número crescente de pesquisas revela que, em 2017, os negros são muito mais propensos do que os brancos a crescer em situação de pobreza persistente, frequentar escolas de má qualidade, ter negados financiamentos estudantis e assistência pública, enfrentar discriminação para conseguir empregos ou casas, ser baleados pela polícia ou presos por crimes não-violentos, perder o direito de votar e servir em júris e transmitir o mesmo conjunto de injustiças aos seus filhos.

Some esses fatores e não é surpreendente que as famílias negras ainda estejam em desvantagem econômica e política na sociedade americana de hoje. De acordo com o Censo dos Estados Unidos, a família média de ascendência europeia é 12 vezes mais rica que uma homóloga afro-americana – que levará séculos para alcançar a branca se forem mantidas as tendências atuais. E, num sistema político financiado pela elite, no qual dinheiro, voz e poder muitas vezes significam a mesma coisa, as minorias de todos os tipos permanecem sub-representadas.

Se isso não é racismo sistêmico, não sei o que é.

Como, então, são pessoas brancas bem intencionadas podem responder? Cinco passos vêm à mente.

1. Confronte seu viés inconsciente. Junte-se aos 3,3 milhões de pessoas que fizeram o Teste de Associação Implícita no site http://implicit.harvard.edu e descobriram como sua mente percebe subconscientemente pessoas de diferentes raças. Caso você esteja relutante, saiba que foi surpreendente conhecer minhas próprias tendências racistas ao fazer o teste, apesar do meu profundo amor pela minha esposa sul-africana e pelos nossos filhos.

2. Aprenda os fatos sobre racismo sistêmico. Um bom lugar para começar é The New Jim Crow, de Michelle Alexander, e o ensaio de Ta-Nehisi Coates sobre reparações na revista The Atlantic. Então fale de forma carinhosa, mas persistente, conosco, pessoas de pele mais clara, sobre as maneiras pelas quais nos beneficiamos do racismo sistêmico e denuncie palavras e atos racistas.

3. Acabe com a segregação na sua vida. As escolas americanas têm o mais alto nível de segregação em quase 50 anos, de acordo com o Departamento de Educação dos Estados Unidos. Na próxima vez em que você se mudar ou escolher uma escola ou igreja, procure uma composição mais inclusiva. Atravesse as fronteiras raciais (e socioeconômicas) na vida diária, almoçando com pessoas de uma raça diferente, fazendo compras em estabelecimentos pertencentes a minorias e entrando para grupos em sua comunidade.

4. Aja com o bolso. Existem inúmeras organizações locais e nacionais com o objetivo de combater o racismo sistêmico, mas elas não podem ser eficazes sem o nosso apoio. Doe tempo ou dinheiro ou tempo para grupos como NAACP, ColorOfChange.org, Southern Poverty Law Center, Sentencing Project e National Urban League.

5. Envolva-se na política. Recrute, apoie e eleja candidatos em todos os níveis, independentemente do partido, que compreendam e se comprometam publicamente em acabar com o racismo sistêmico em suas muitas formas. Exija que seus candidatos apoiem políticas de ação afirmativa que criem oportunidades iguais em educação, saúde, emprego, policiamento, justiça, financiamento de campanhas e mais.

Em sua "Carta de uma prisão de Birmingham", de 1963, Martin Luther King, Jr. confessou seu "grave desapontamento" com os brancos bem intencionados. "Quase cheguei à conclusão lamentável de que o grande obstáculo dos negros em seus passos para a liberdade não é o ... integrante da Ku Klux Klan, mas o branco moderado, que é mais dedicado à 'ordem' do que à justiça; que prefere uma paz negativa, que é a ausência de tensão, a uma paz positiva, que é a presença da justiça."

A pergunta que me faço – e a todos os americanos que afirmam a promessa de igualdade de nosso país – é a seguinte: continuaremos a aceitar passivamente o mal do racismo sistêmico ou finalmente lutaremos por "liberdade e justiça para todos"?

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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