OPINIÃO

As Tribos Políticas e seus Inimigos

As disputas políticas são conduzidas de maneira combativa, na busca de "espaços de resistência" e pela conquista de "territórios de disputa".

10/03/2017 18:54 -03 | Atualizado 05/04/2017 17:54 -03
runeer
Construir consenso não é mais prioridade neste período de acirramento de tribos políticas.

Não é novidade para ninguém que os ânimos políticos, no Brasil e no mundo, estão se acirrando. A cada eleição disputada, vencida ou perdida, vaias e aplausos são ouvidos. Nesse processo, cada vez mais as identidades políticas dos indivíduos ganham destaque. Dependendo da forma como isso ocorre e do fundamento invocado pelos próprios envolvidos na definição de sua identidade, isso não é necessariamente algo positivo para a própria política e para a democracia.

O que significa isso? Quero dizer que – a meu ver – vem se delineando um processo de formação de tribos políticas. As disputas políticas são conduzidas de maneira combativa. O discurso é pela busca de "espaços de resistência" e pela conquista de "territórios de disputa".

Conservadores comemoram as indicações de Donald Trump aos cargos do governo americano por ver nessas nomeações a conquista desses territórios de disputa. O mesmo vale para a forma como a esquerda articula seus nomes. Essa forma tribal de fazer política tem consequências.

Em primeiro lugar, a própria diversidade dentro dos grupos políticos é extremamente prejudicada. Categorias, que a rigor são fluidas (existem muitos tipos de liberais, ou de conservadores, por exemplo), tornam-se engessadas em blocos políticos, em busca de uma unidade política "forte", capaz de fazer frente aos "inimigos externos".

Em outras palavras, evita-se ao máximo o dissenso e a crítica interna dos grupos, numa tentativa de manter um corpo único. Isso é bastante ilustrativo no caso da esquerda brasileira pós-impeachment. Muitos dos críticos ao governo Dilma Rousseff, apesar de serem de esquerda, foram criticados por "fazerem o jogo dos golpistas".

Criticar a própria posição tornou-se sinônimo de traição à causa, seja ela qual for. Exemplos abundam disso: marxistas ortodoxos acusam outras vertentes de serem "influenciadas por ideais burgueses", feministas ligadas ao radfem acusam feministas interseccionais de não serem "feministas o suficiente", católicos ultraconservadores acusam católicos progressistas de serem falsos cristãos.

Dois são os possíveis caminhos nesse contexto: a supressão da voz minoritária ou a cisão em novos grupos distintos.

Em segundo lugar, o espaço para o diálogo com outros grupos, com pensamentos diferentes, torna-se mínimo. Elementos políticos por definição, como consensos e concessões, são abandonados por uma lógica de "it's my way or the highway".

Em vez de buscar estabelecer um novo quadro programático capaz de gerar estabilidade, a busca é por rupturas que beneficiem a tribo.

A partir do momento em que o diálogo perde força, os mecanismos institucionais de agregação de votos ou opiniões passam a ser a única forma possível de tomada de decisão. Quando isso ocorre, aqueles que são derrotados podem muito bem perder tudo, já que os vencedores não terão qualquer empatia com a causa dos vencidos.

"Não quero o consenso, eu quero a vitória" torna-se o mantra dessa forma de fazer política.

Alguém poderia replicar em defesa de sua tribo com outra frase famosa: "desperate times, desperate measures". Seria necessária essa política de combate para consolidar um discurso contra-hegêmonico.

Curiosamente, todos sempre acham que estão estabelecendo uma contra-hegemonia a alguma forma de dominação.

Marxistas acreditam estar contra a hegemonia do capital. Conservadores, contra a hegemonia do "politicamente correto" e do "globalismo".

Em todo caso, essa defesa da política tribal é a confirmação da minha linha de crítica: a partir do momento em que para avançar minha causa eu apelo para medidas desesperadas, eu entendo que minha causa vale mais do que a opinião de todos os demais.

Isso, evidentemente, pode ser feito. Acredito até que eventualmente, em situações excepcionais, isso deva ser feito. No entanto há um custo.

Ao dizer que minhas convicções valem mais que as das outras pessoas, as outras pessoas podem fazer o mesmo. Quando elas podem fazer o mesmo, elas podem vir a ganhar os "territórios de disputa". Se isso vier a ocorrer, eu não tenho o que dizer ao vencedor para que ele não me destrua.

Outra linha de defesa para a política das tribos seria dizer que uma vez que todos estão agindo tribalmente, devemos também fazê-lo; caso contrário seremos expulsos da arena política. Essa defesa é fatalista, representa a esfera política como uma cova repleta de leões ensandecidos, mas é bem verdade que essa representação possa vir a ser verdade (desejo com todas as forças que não).

Caminhar por esse argumento é abrir mão do diálogo e assumir a posição de mais uma fera lutando pela sobrevivência. Aqui, precisamos refletir: é realmente isso que desejamos ser? Há algum outro caminho?

( Agradeço ao amigo Victor Doering por debater este texto previamente comigo )

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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