OPINIÃO

Ciclovias recreativas e ciclofaixas de lazer pela América Latina

18/03/2015 17:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

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Ciclovia recreativa em Medellín

Da Colômbia para o mundo: as ciclovias recreativas, majoritariamente dominicais, são uma verdadeira febre em toda América Latina e começam a conquistar outras partes do mundo.

As primeiras experiências de ciclovias recreativas em Bogotá aconteceram em 1976, por pressão dos próprios colombianos. Ruas e avenidas foram fechadas completamente para as pessoas caminharem, pedalarem, brincarem, curtirem a cidade promovendo qualidade de vida.

O sucesso desta política teve seu reconhecimento e ápice durante a gestão do então prefeito de Bogotá Antanas Mockus (1995), sob a liderança do criador das ciclovias recreativas Jaime Ortiz e do então secretário Guillermo Peñalosa. Nesse período, as ciclovias recreativas tiveram um momento de crescimento planejado e foram implantados novos serviços à população aos domingos.

O prefeito Enrique Peñalosa, que assumiu logo após a gestão de Mockus, deu continuidade às políticas da gestão anterior e compreendeu, a partir de diversos indicadores, que estas estruturas temporárias haviam criado uma cama suave e confortável para poder implementar, a partir dali, um ousado e inovador plano de 350 km de ciclovias permanentes - em espanhol chamadas de ciclorutas.

O plano não apenas foi executado com maestria e competência, como a participação da bicicleta nos deslocamentos de Bogotá saltou de menos de 1% para 6% (dado de 2013), mostrando que infraestrutura e políticas de promoção do uso são iniciativas que devem caminhar juntas para que haja um aumento considerável de ciclistas nas cidades.

Peñalosa esteve em São Paulo algumas vezes para conhecer e pedalar pelas ciclofaixas de lazer. Confira aqui matéria de 2009.

Com a experiência bem sucedida e já histórica de Bogotá outras cidades latino-americanas começaram a implementar seus programas de ciclovias recreativas, a partir da compreensão de que não são estruturas meramente para o lazer e para prática de atividade física, mas sim espaços de encontro, de socialização, solidariedade e brincadeiras. São iniciativas inclusivas, cidadãs e que promovem equidade social.

Medellín (Colômbia) criou suas ciclovias recreativas em 1984; Quito, no Equador, em 2003; Guadalajara, no México, em 2004; Santiago, no Chile, dois anos depois, em 2006 e São Paulo, em 2009.

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Ciclovias recreativas na América Latina

Este verdadeiro boom de estruturas viárias recreativas fez com que fosse criada, em 2005, em Bogotá, a rede Ciclovias Recreativas de Las Americas (CRA) - uma iniciativa das cidades e de organizações que visam a promover uma nova ocupação das ruas.

Todos os anos a rede CRA promove um encontro entre as cidades para troca de experiências, conhecimento e produção de conteúdo, pesquisa e estudos. Um dos resultados desses encontros foi a criação de um manual para implementar uma ciclovias recreativa.

Com relação à história mais recente, 2009 foi determinante para o crescimento das ciclovias recreativas pela América Latina, com mais de 40 cidades implementando seus projetos. A cidade de São Paulo, por exemplo, teve o primeiro trecho de ciclofaixa de lazer inaugurado em agosto de 2009. Nos anos que se seguiram, inúmeras cidades brasileiras também realizaram seus projetos de ciclovias recreativas, como Ribeirão Preto, Santa Bárbara d'Oeste, Recife, Salvador, Fortaleza, Campinas, Brasília e muitas outras.

Em recente palestra no Fórum Mundial da Bicicleta, o arquiteto e ativista Jaime Ortiz, criador das ciclovias recreativas de Bogotá, defendeu que as cidades latino-americanas buscassem suas soluções a partir das experiências da UNA (Unión de Naciones Asoleadas; em português, "União das Nações Ensolaradas"). Ou seja, que paremos de buscar soluções em cidades norte-americanas e/ou eurocêntricas e nos debrucemos mais sobre os desafios e realidades comuns dos países de cultura latino-americana ensolarada.

Nesse aspecto de União das Nações Ensolaradas, as ciclovias recreativas podem ser destacadas como políticas públicas que contemplam as culturas locais, que se apresentam como solução casada com o espírito e a vontade de socializar, de ocupar os espaços públicos, de interação e celebração da diversidade. Se o urbanismo latino-americano tem raízes aristocráticas, é nas ruas que as cidades irão recriá-lo. Bicicletas nas ruas, uma revolução bolivariana!

Lista com algumas ciclovias recreativas pela América Latina:

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(A viagem de Daniel Guth à Medellín contou com o apoio do Movimento Conviva e da Bradesco Seguros.)

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