OPINIÃO

Para Nós, Chega!

Um regime de trabalho excessivo e sem reconhecimento produz muito mais pessoas com transtornos psicológicos do que cientistas brilhantes.

31/10/2017 08:55 -02 | Atualizado 31/10/2017 08:55 -02
gevende via Getty Images
Um doutorando do Instituto de Ciências Biomédicas da USP cometeu suicídio neste ano.

Não conheço o aluno de doutorado do Instituto de Ciências Biomédicas da USP que cometeu suicídio, conforme reportou o jornal Folha de S.Paulo na última sexta-feira (27). Jamais desrespeitaria sua memória alegando conhecer sua dor ou experiência individual. Mas, tendo recentemente concluído o doutorado, foi impossível não sentir empatia ao ler a frase que ele deixou gravada na lousa: "I'm just done", traduzido livremente como "para mim, chega".

Acredito que, assim como eu, a grande maioria dos pós-graduandos no País compreende uma parcela do que ele quis dizer. Acredito que a maioria de nós, em algum momento, disse para si mesmo essa mesma frase.

As dificuldades financeiras, emocionais e pessoais pelas quais passam aqueles que pretendem se dedicar à ciência são tão conhecidas quanto antigas. Alunos de pós-graduação stricto sensu são obrigados a se virar com uma bolsa de pesquisa com valores defasados (o último reajuste das bolsas da CAPES e CNPq ocorreu em 2013), e sem qualquer garantia ou direito trabalhista.

Isso quando têm a sorte de conseguir uma bolsa: em 2015, mais de 75% dos alunos de mestrado e doutorado no Brasil não dispunham desse tipo de financiamento (conforme dados da CAPES).

Mas a questão financeira é obviamente só parte do problema. Os programas de pós-graduação via de regra são geridos por acadêmicos cujas preocupações estão centradas na obtenção de recursos financeiros e na classificação de seus programas na CAPES ou em outros rankings.

Com honrosas exceções (tive a sorte e privilégio de ter sido orientado por uma), orientadores e professores da pós-graduação não se portam nem se responsabilizam por seus orientandos e alunos como educadores. O rigor acadêmico é utilizado como desculpa para o destrato, o desrespeito e a humilhação.

Quem viu Whiplash – em busca da perfeição sabe do que estou falando. Um professor sádico manipula emocionalmente seu aluno, argumentando que a exigência elevada foi necessária para que Charlie Parker desenvolvesse seu talento. Infelizmente, na prática, um regime de trabalho excessivo e sem reconhecimento produz muito mais pessoas com transtornos psicológicos do que cientistas brilhantes.

Um estudo recente concluiu que metade dos alunos de doutorado na Bélgica sofre de stress psicológico, e um terço corre o risco de desenvolver distúrbios psiquiátricos.

Os alunos não dispõem de recursos, estrutura ou orientação para pesquisa, mas tais fatores são desconsiderados na exigência a que são submetidos ou na avaliação de seus resultados. Quem foi ou convive com um pós-graduando conhece a rotina: não há dia nem noite, não há finais de semana, não há férias.

A fórmula é velha: exigir daqueles que estão no início de carreira que se esforcem além de seu limite, mediante a promessa de que, caso se dediquem bastante, poderão chegar ao "eldorado". Nesse momento, poderão fazer com outros o que foi feito com eles.

Bancas de defesa de dissertação ou tese constituem o ápice dessa tradição. O absurdo da cerimônia é patente: o aluno é submetido a um "tribunal" público no qual deve respeitosamente se defender – mas não muito - das críticas nada respeitosas de docentes que usualmente não participaram da construção do trabalho e não possuem compromisso com sua formação. Não vejo sentido em submeter alguém a essa humilhação, com a exceção de reforçar uma cultura acadêmica arcaica e autoritária.

Até quando toleraremos a humilhação corriqueira de alunos para que professores possam exibir sua "genialidade"? Até quando colegas que deveriam colaborar entre si continuarão a assimilar e reproduzir acriticamente essas práticas? Até quando negaremos que a diversidade do corpo discente demanda diversidade de práticas pedagógicas no treinamento de pesquisadores?

E não se diga que lidar com esse problema seja inviável.

Ei, CAPES: que tal introduzir, nas avaliações dos cursos de pós-graduação, um indicador de satisfação ou, ao menos, da existência de um canal para manifestação dos alunos? Não há nada de revolucionário nisso.

Em 2011, o governo inglês publicou um relatório no qual se propôs a colocar os estudantes no "coração" do sistema de ensino superior. Diferentes medidas são citadas para garantir que os estudantes sejam ouvidos, como obrigar que universidades publiquem os resultados de pesquisas de satisfação de cursos e disciplinas.

Ei, CNPq: e se a avaliação dos professores e orientadores por seus alunos constituísse um critério para a aprovação e financiamento de projetos? Talvez esses docentes fossem mais cuidadosos no trato com seus alunos, não acha?

Independentemente do caminho, o importante é desconstruir a cultura de arrogância e desrespeito que parecem permear o ethos atual da pós-graduação. Que essas últimas palavras escritas na lousa sejam um chamado para esse enfrentamento. Para nós, chega!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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