OPINIÃO

Surpresa Prevista

Quando lembrados que trabalhador armado não deve fazer greve, PMs rebatem: "então parem a fábrica de bandidos em que se transformou o Brasil".

21/02/2017 14:28 -03 | Atualizado 27/02/2017 19:19 -03
Paulo Whitaker / Reuters
PMs cruzaram os braços na Grande Vitória em fevereiro.

Em fevereiro, quem perguntou aos policiais militares do Brasil o que eles pensavam sobre os eventos em Vitória (ES) provavelmente ouviu como resposta a expressão: "é um aviso". E a explicação: "o que acontece ali pode se espalhar por todo o País".

Para eles, foi lembrado que diante do esgotamento das finanças estatais, do aumento na esperança de vida e da queda na taxa de natalidade, não é mais possível manter antigos direitos que se transformam em privilégios dos adultos de hoje contra os do futuro.

Ao lembrar isto aos PMs, ouvi uma sugestão: "cortem primeiro os privilégios dos parlamentares, juízes e altos funcionários, os altos salários, o valor das verbas indenizatórias, carro oficial, seguro de saúde ilimitado, ajudas de aluguel mesmo morando na cidade; cortem isto e depois conversamos sobre nossos privilégios".

Quando disse que essa medida economizaria muito pouco, um deles retrucou: "É porque vocês não percebem o exemplo e o respeito que teriam se fizessem isso".

Foi isso que escutei e também: "talvez sejam necessários ajustes para equilibrar as irresponsabilidades fiscais dos últimos anos e fazer reformas que equilibrem gastos e receitas. E por que não começar cobrando mais impostos dos mais ricos e menos dos mais pobres; taxando as grandes fortunas; suspendendo as mordomias no setor público e impedindo que no setor privado elas sejam pagas com recursos públicos; iniciando a austeridade por aqueles que provocam desperdícios; por que não diminuir o gasto de quase R$ 1 bilhão por ano com Fundo Partidário".

Quando lembrados que trabalhador armado não deve fazer greve, os PMs disseram: "então parem a fábrica de bandidos em que se transformou o Brasil e que armados estão nos assassinando", "querem cumprir a Constituição sobre nós, mas por que o presidente do Senado não respeitou um mandado judicial do Supremo, ou por que a presidente da República foi cassada, mas não perdeu os direitos civis?". Escutei: "parem de driblar a Constituição para beneficiar a vocês e aceitaremos que ela seja aplicada contra nós".

Todo encontro hoje nas ruas com o povo serve para sentir o humor da população. O brasileiro sente frustração com o clima de guerra civil, o excesso de privilégios e gastos, as obras inacabadas, o legado frustrado da Copa e das Olimpíadas, o roubo em forma de propinas e superfaturamentos.

Mas ao mesmo tempo que se fazem os ajustes fiscais, a pergunta é: por que continuamos com a mesma maneira de fazer política, repetindo o que criticávamos no passado?

Há anos estão avisando e esperando, descontentes e descrentes, indignados e dispostos a romper as regras.

Faz anos que o povo avisa e sugere.

Por não os ouvir temos a estranha sensação de surpresa diante do fato anunciado e esperado: como a paralisação dos PMs em Vitória em fevereiro.

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