OPINIÃO

Esquerda Nostálgica

04/05/2016 10:47 BRT | Atualizado 27/01/2017 00:31 BRST
ASSOCIATED PRESS
Brazil's President Dilma Rousseff attends a ceremony with foreign doctors who are part of the More Doctors Program, at Planalto presidential palace in Brasilia, Brazil, Friday, April 29, 2016. Rousseff is facing impeachment over allegations her administration violated fiscal laws, in what her foes say was a bid to prop up flagging support through government spending. Brazil's first female president has insisted the procedure amounts to an attempted coup against her. (AP Photo/Eraldo Peres)

Durante o regime militar havia uma "esquerda de luta" e uma "esquerda festiva".

A primeira fez parte dos movimentos que levaram à conquista da democracia; a última foi decisiva na realização das revoluções estética e comportamental, que ocorreram naqueles anos.

Hoje, estão atuantes uma "esquerda nostálgica", enquanto uma "esquerda perplexa" tenta sair dos escombros provocados pela queda do Muro de Berlim, pela amplitude da globalização, a profundidade da revolução científica, o poder e a universalização dos novos instrumentos de tecnologia da informação; além de tentar se recuperar do constrangimento com a degradação ética e a incompetência dos últimos governos.

Diferente da "esquerda festiva", que fez revoluções na estética e nos costumes, a "esquerda nostálgica" não contribui para a transformação estrutural da sociedade e da economia; louva o passado, se agarra ao presente e comemora pequenas conquistas assistenciais.

Prisioneira de seus dogmas, com preguiça para pensar o novo, com medo do patrulhamento entre seus membros, viciada em recursos financeiros e empregos públicos, a "esquerda nostálgica" parece não perceber o que acontece ao redor.

Independentemente das transformações no mundo, no País, nos bairros, continua orientada aos mesmos propósitos elaborados nos séculos XIX e XX, mantém a mesma fidelidade, reverência e idolatria aos líderes do passado, especialmente aqueles que têm o mérito do heroísmo da luta durante o regime militar, mesmo quando não foram capazes de perceber as mudanças no mundo, nem os novos sonhos utópicos para o futuro.

Com nostalgia do passado, reage contra o "espírito do tempo" que exige agir dentro da economia global e romper com a visão de que a estatização é sinônimo de interesse

público; não reconhece que a inflação é uma forma de desapropriação do trabalhador; que o progresso material tem limites ecológicos e é construído pela capacidade nacional para criar ciência e tecnologia; que os movimentos sociais e os partidos devem ser independentes, sem financiamentos estatais; ignora que a revolução não está mais na expropriação do capital, está na garantia de escola com a mesma qualidade para o filho do trabalhador e o filho do seu patrão; que a igualdade deve ser assegurada no acesso à saúde e à educação, sem prometer igualdade plena, elusiva, injusta e antilibertária ao não diferenciar as individualidades dos talentos; não assume que a democracia e a liberdade de expressão são valores fundamentais e inegociáveis da sociedade, tanto quanto o compromisso com a verdade e a repulsa à corrupção.

Para sair da perplexidade, uma nova esquerda precisa fugir da nostalgia por siglas partidárias que tiveram a oportunidade de assumir o poder e construir seus projetos, mas traíram a população, os eleitores e a história, tanto na falta de ética, quanto na ausência das transformaçõessociais prometidas.

*Texto originalmente publicado em O Globo.

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