OPINIÃO

Sexo na adolescência: amor ou moeda de troca?

24/02/2014 14:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

A filha adolescente de uma amiga aqui em Viena está vivendo um dilema terrível: seu ficante diz que, se ela o ama, deve fazer sexo com ele. Em troca ele promete que a leva à Itália, a compra uma bolsa do Vuitton e revela ao mundo que são namorados. Apaixonada e já com corpo de mulher e todas as vontades associadas, a menina não sabe o que fazer. Briga com a mãe todos os dias, aos gritos. Diz que a mãe não sabe o que diz, que os tempos são outros, que 15 anos já é idade legal para transar na Áustria. Que ela pode.

Na semana passada veio aqui em casa fazer biscoitos em forma de coração para o dia dos namorados. Entre medidas de farinha e manteiga, contou-me que o menino é filho de empresário milionário russo, bonito, bem vestido, com dinheiro de sobra para sair à noite com qualquer outra menina. Mas é com ela que ele quer transar. Porque o tempo está passando depressa e logo, agora em abril, ele volta para o país de origem. E depois disso, talvez nunca mais o veja.

Procuro colocar a história num contexto moderno. No século 21, um flerte sem consequência entre dois adolescentes vivendo num ambiente privilegiado de escolas internacionais e diplomatas, como pano de fundo a cidade de Viena, a harmonia dos prédios centenários, pessoas com expressão serena passeando com educados cães nos parques graciosamente espalhados pela cidade. E o amor fugidio e ao mesmo tempo eterno, que todos já vivemos em algum momento da vida.

Mas não dá. Sofro de déjà vu. Enquanto a menina fala, descortinam-se as memórias. Aquele chefe na redação, colocando minha mão no seu pênis debaixo de uma mesa de restaurante, os colegas à volta; o grande repórter -- coitado -- cheio de si, bucha de canhão, sempre dando má notícias, mas se achando o homem mais sexy do mundo e prometendo -- o que mesmo? Ou o oficial do exército brasileiro, que, depois que ela não foi aos finalmentes, denunciou a colega correspondente por assédio sexual e descompostura profissional.

Dupla moral, certamente. Demitida daquele jornal, a correspondente continuou firme e forte na carreira, sentando-se no colo de quem quisesse em inúmeras guerras aí pelo mundo -- já foi fácil assim obter informação confidencial de homens de uniforme --, recheando a matéria na cama entre colegas e fontes. Até que um dia abriu um ninho de marimbondos: esqueceu-se em que cama estava e chamou um amante pelo nome do outro. E daí uma carreira certamente também recheada de mérito próprio esvaiu-se como num passe de mágica.

Mas voltando à nossa adolescente. O fato é que, ao me contar que o namorado é rico e poderoso, a menina na verdade pedia implicitamente minha permissão para usar o sexo como moeda de troca. Lamento que nessa estará sozinha. Posso afirmar com toda a certeza de quem já viu esse filme -- que será moeda passageira. Vide o exemplo da colega jornalista. Abusar da ética pode parecer fácil nesta época de moral dupla e conturbada que vivemos, mas no longo prazo não é nada lucrativo. Porque apesar de cada um lutar com as armas que tem, alcançar a paridade dos sexos exige que se feche as brechas de comportamentos específicos a homens e mulheres, especialmente os que implicam em qualquer tipo de assédio.

Eventualmente, a menina terá de enfrentar o espectro do dúbio mérito -- e a meu ver inteiramente desnecessário -- de ter transado com um chantagista. Gostaria de pensar -- chamem-me ingênua -- que em 2014 e mais ou menos 70 anos após o primeiro sufrágio feminino e 44 anos pós-Verão do Amor, a mulher possa agora padecer de caráter forte, expressar sua sexualidade e ainda assim ganhar seu lugar ao sol. Sem transar com quem quer que seja. Fora é claro por puro prazer, ou até mesmo por amor. Quanto à menina: no lugar dela mandaria o sujeito passear.