OPINIÃO

Sem coincidências, Viena aproveita crise na Ucrânia para explorar aluguéis

12/05/2014 13:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Austrophoto Austrophoto via Getty Images

Proprietários em Viena deleitam-se frente à crise na Ucrânia, que se perpetua a olhos vistos. Aqui nesta pacata capital europeia, onde a hidra da crise econômica de 2008 só agora começa a levantar a cabeça, a situação na Ucrânia e por extensão da Rússia vem aplacando a baixa moral financeira das famílias proprietárias nos bairros mais tradicionais da cidade.

Numa cidade onde um percentual bastante alto dos edifícios do centro da cidade - primeiro distrito - é de propriedade unifamiliar, o mercado imobiliário primeiro oscilou para depois dar uma forte guinada, com os preços dos aluguéis subindo mais de 25% durante o último mês.

Ocorre que se num primeiro momento a Áustria teria sido instruída por países mais poderosos que ela a suspender vistos de entrada às famílias russas, pelo contrário, agora o país volta à sua vocação de sempre - de porta dos fundos das mais variadas vias políticas do mundo, que por motivos de hedging o estabelecimento ocidental precisa abrigar.

"Viena sempre serviu bem pra isso", conta um advogado Vienense. Quando a revolução russa aconteceu, lembra, quando Viena ainda era capital do Império Habsburgo, o revolucionário Leon Trotsky estava como de hábito sentado no Café Central de Viena lendo o jornal. Conta o anedotário que, ao escutar que havia começado a revolução, levantou-se da mesa com um estrondo, e saiu correndo para fazer as malas e pegar o primeiro comboio em direção a Moscou.

A especulação imobiliária vienense é uma amostra de como se aproveitar de uma crise, seja ela ou não fabricada. De fato, não será fácil acreditar em teorias da conspiração quando se trata da Ucrânia. Mesmo com toda a história de espionagem e dos atos terroristas executados pela ex-KGB, tanto na Rússia quanto nos países vizinhos e ex-satélites da extinta União Soviética, é preciso haver vontade para sustentar uma revolução popular como a da Ucrânia durante tantas semanas seguidas.

Neste caso, se houve algum sopro conspiratório, limitou-se ao fato de a crise ter começado na primavera, numa época em que o preço do gás liquefeito não faz muita diferença. O que poderá se transformar num problemão se a crise se estender até o outono, atingindo o bolso do consumidor alemão, dependente do gás russo para aquecer a sua casa.

Ou não, dado o imenso potencial do gás de xisto vindo principalmente da América do Norte.

O fato é que o ocidente - liderado pelos Estados Unidos - vem preparando as bases para colocar de uma vez por todas um ponto final no poder da Rússia, corroído ano a ano desde as reformas econômicas lançadas pela Perestroika e a dissolução da União Soviética, na década dos 1980. Desde aquela época, institutos bancados pelo ocidente vêm influenciando os currículos das escolas primárias, às universidades, lançando as sementes da insatisfação e a vontade na população de fazer parte de um mundo onde haja oportunidades para o progresso individual, mais ou menos no modelo da social democracia aplicada na Polônia.

Outro advogado, um norte americano radicado em Moscou - conta que por detrás das posturas, cara e bocas, o grande urso russo está nervoso. O apoio à política autocrática do presidente russo Putin no leste da Ucrânia e na própria Rússia vem de uma geração que se deixa levar pelo saudosismo de uma era de abastância. Esse apoio será de curta duração, porque os jovens não se satisfazem mais com as promessas do regime. Sem lembrança dos áureos tempos pré-glasnost, exigem a participação no processo econômico.

Apesar de ser impossível - como no caso de Trotsky - saber exatamente quando ocorrerá, ou mesmo se haverá revolução, é preciso estar alerta. Pouco a pouco, o ocidente vem avançando sobre as ex-repúblicas soviéticas e estas demonstram sua preferência clara pelo capital norte americano e da Europa ocidental. Não tanto por ideologia - é preciso deixar de lado idéias ingênuas de que haveria algum compromisso com ideais democráticos à la revolução francesa - mas por ser mais conveniente. Melhor um patrão localizado do outro lado do mundo, que um respirando sobre a sua nuca ali do lado.

Assim, na semana passada o Presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, rejeitou um convite de Putin, preferindo encontrar-se com William Burns, sub-Secretário de Estado dos Estados Unidos. Sem agenda específica, o encontro faz parte de uma ampla estratégia para desestabilizar Putin e - sendo o Uzbequistão um dos maiores produtores de ouro e de urânio no mundo - assegurar o abastecimento de minerais importantes para a máquina bélica ocidental.

Está também entre as muitas ações recentes do poder ocidental, o acordo nuclear com o Irã, outro forte e tradicional aliado russo, que provavelmente será fechado em algum momento este ano. Nesta altura da história, não valeria à pena cultivar qualquer animosidade ideológica com o Irã. Mais importante para o ocidente será assegurar o mercado de minerais iraniano, incluindo mais um vez urânio, plutônio e petróleo, praticamente fechado desde a queda do regime do Xá Reza Pahlevi em 1979.

Enquanto isso a Rússia segura-se com o que tem. E ainda tem. Com cerca de pelo menos 1.800 mísseis nucleares de longo alcance, de acordo com um ensaio estratégico publicado no ano passado pelo seu Estado Maior do exército russo, especula-se o uso de armas nucleares numa guerra tática, se for preciso. Um bom artigo para entender como está pensando o governo russo e a área nuclear está aqui.

O fato é que ninguém sabe realmente o que vai acontecer. Aguarda-se a eleição na Ucrânia no dia 25 de maio próximo e se Putin levará a sério as ameaças de novas sanções econômicas, desta vez setoriais, da premiê alemã Angela Merkel e do presidente François Hollande, da França.

Enquanto isso, na terra da valsa e da ópera, para a alegria do mercado imobiliário, todos os dias chegam oligarcas russos e ucranianos, aproveitando a crise para instalar suas famílias longe do trânsito e da violência de Kiev e Moscou e mais próximo dos dinheiros que vêm há anos retirando dos seus países e lavando nos bancos por aqui.


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