OPINIÃO

Torço apenas para que não haja retrocesso no Brasil

10/05/2016 20:10 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazil's President Dilma Rousseff attends the opening of the National Conference of Women, in Brasilia, Brazil, Tuesday, May 10, 2016. The impeachment proceedings against Rousseff took another hairpin turn Tuesday after the acting speaker of Congress' lower house Waldir Maranhao put the impeachment process back on track a day after he sparked chaos and sowed further discord among Brazil's fractious political class by annulling an April 17 vote by the Chamber of Deputies for impeachment. (AP Photo/Eraldo Peres)

É difícil arriscar qualquer cenário nesses dias de noticiário político surtado, mas o mais provável é que, nas próximas horas, Dilma Rousseff, reeleita por 54,5 milhões de brasileiros, seja afastada por seis meses de seu cargo e dê lugar ao presidente interino Michel Temer.

No momento em que escrevo este post, o governo entrou com mandado de segurança no STF -- sua última cartada, após manobras fracassadas no Congresso e vários protestos nas ruas. Mas acho improvável que o Supremo interfira no processo do Legislativo.

Enfim, mesmo que interfira, agora ou no futuro, ou ocorra um milagre e o Senado não aprove a continuidade do processo de impeachment, vamos ser realistas:o segundo mandato de Dilma, que nem pôde começar, porque não deixaram ela governar até hoje, já acabou.

Se esse processo de impeachment não passar, qualquer que seja a razão, entrarão com outros. E assim farão até que Dilma caia ou renuncie. É isso: vitória da oposição na base do tapetão.

O Brasil vive e viverá ainda dias muito tensos, tanto política quanto economicamente quanto nas relações entre as pessoas, dada a polarização e o fanatismo em que se encontra a sociedade. Impeachment é traumático. E não espero boas coisas de um governo de um sujeito como Michel Temer, com os aliados que ele tem. Mas também: lá estava ele no governo Dilma, num dos cargos mais importantes da República. Então, paciência.

A esta altura não sei mais o que comentar sobre o impeachment, ou o chamado "golpe". Ou sobre o pior Congresso que este País já elegeu e agora conhece de perto. O que pude falar a respeito saiu aqui no blog no dia 15 de abril e em outros dias.

De lá pra cá, a Câmara aprovou a continuidade do processo com um placar razoável para os pró-impeachment, o orquestrador do processo de impeachment, Eduardo Cunha, foi afastado (o STF esperou tudo chegar bonitinho ao Senado para fazer isso, repararam?), a Comissão de Impeachment do Senado aprovou de novo a continuidade do processo com um placar de 15 a 5, e o presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão, fez uma pataquada ainda muito mal explicada, anulando o processo e revogando a anulação poucas horas depois.

Uma novela de ficção, daquelas que, se passasse no cinema, ia ser chamada de inverossímil e absurda, digna no máximo de entrar na categoria dos pastelões.

Não adianta esse grito de "não passarão" a esta altura ou espalhar hashtag de #nãovaitergolpe. Mesmo que o governo prometa entrar com um processo judicial atrás do outro, apelar a cortes internacionais etc.

Bom, pelo menos é o que eu acho. Acabou.

E, se eu fosse a presidente Dilma, tiraria uns dias de férias e descansaria a cabeça dos ataques infames que ela vem sofrendo em alguma praia agradável, com seu netinho, de preferência fora do Brasil.

(Se eu fosse mesmo a presidente Dilma, teria aproveitado os últimos dias no cargo para canetar várias coisas urgentes no Brasil, que ela não levou adiante por medo, como taxar as grandes fortunas -- um tema que meu pai aborda bastante aqui no blog).

Como não sou a presidente Dilma, resta-me apenas uma coisa: torcer para que a nova onda de governos conservadores que deve chegar ao Brasil nos próximos anos (talvez décadas, e me parece ser um ciclo mundial) não avacalhe demais as conquistas sociais e trabalhistas já garantidas, com muito custo, até agora.

Que não haja retrocesso.

E que consigam provar que podem fazer algo de bom pelo meu País. Porque, a esta altura, é só isso que me importa: muito além de questões partidárias ou mesmo de escopo ideológico, o que me interessa -- e vou torcer por isso -- é que o Brasil não saia dessa crise piorado. 

Faz favor.

Post publicado originalmente no blog da kikacastro.

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