OPINIÃO

Os flanelinhas e nossas duas opções

17/06/2015 15:03 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO

Post originalmente publicado no Blog da Kikacastro

Normalmente eu sou uma pessoa calma, mas, se você quiser me ver fora do sério, brava mesmo, me acompanhe até o carro no dia em que um "tomador de conta" me abordar. Não vou chamá-los de flanelinhas, porque foi-se o tempo em que carregavam uma flanela qualquer que aparentasse remotamente uma prestação de um serviço.

É um dos poucos momentos em que eu fico realmente furiosa. "Vou olhar seu carro, tá?" geralmente é uma pergunta retórica, acompanhada de uma ameaça velada: "Se não me pagar por isso, seu pneu pode não estar tão cheinho quando voltar".

Eu nem respondo. Geralmente, só olho carrancuda, bem nos olhos da pessoa, e continuo no mesmo passo. Obviamente, o tomador de conta não toma conta de nada.

E, quando volto do trabalho, costuma ver outro me recepcionando com um agressivo: "E o dinheiro do cafezinho?". Respondo com faíscas nos olhos: "Não!". E ele fica puto, claro.

Mas não tanto quanto eu. Todos os dias o ritual se repete. Muitas vezes prefiro parar bem longe do jornal, no fim do quarteirão, só para não ter que passar por esses diálogos irritantes.

O tomador de conta é, no meu ponto de vista, uma pessoa que ganha a vida com base na coerção. Ele pratica uma extorsão, sem que nenhum serviço real seja oferecido em troca.

Aliás, esse é o ponto em que eu queria chegar. O cara que está na rua lavando os carros merece todo o meu respeito. Ele oferece um serviço e pede um dinheiro por isso. Mesmo que não esteja pagando os impostos, isso é lá com a Secretaria da Fazenda. A mim, ele não me causa qualquer transtorno, vejo como um trabalhador autônomo que está ganhando a vida.

Já o "tomador de conta" não faz nada além de tomar conta da rua, tomar o espaço público para si de forma desonesta. Já vi alguns segurando vagas para outras pessoas (aquelas que topam pagar para eles), o que é totalmente ilegal.

Já vi váááários pedindo pagamento adiantado -- de R$ 10, R$ 20, R$ 30, até R$ 100!!!!! -- em dias de eventos mais concorridos. Sem seguro, sem nada que justifique você ter que pagar para aquela pessoa física, além da mais pura coerção ou falta de opção. Muitos saem do universo velado e partem pra agressão verbal explícita. "Se não pagar, vai ver...".

E a gente tem duas opções: pagar, e alimentar esse loteamento das ruas públicas, ou não pagar, e arriscar-se por isso. Eu sempre opto pela segunda.

Por mim, podem riscar o carro inteiro, de cima a baixo, mas me recuso a compactuar com esse roubo velado. (E fico torcendo para só o carro ser o alvo de uma possível vingança, não eu.) Às vezes, até, essa opção pode render uma punição de verdade. É raro, mas acontece.

E você? Como vê essa situação e como reage a ela? No seu bairro ou cidade isso também é muito comum?

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