OPINIÃO

Dois finais para uma briga de trânsito

13/04/2016 17:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
vm via Getty Images

Por originalmente publicado no blog da kikacastro:

Estamos no carro, descendo uma rua qualquer da Savassi, em Belo Horizonte. Logo ouvimos uma freada e uma buzinada agressiva, dois carros atrás. A caminhonetona de luxo emparelha com o carrão preto, não menos caro. Motoristas começam a bater boca. Passageiro da caminhonetona desce do carro e parte pra cima do motorista do carrão preto. Gesticula, agressivo, palavrões ao vento. Volta pra caminhonetona, mas os dois carros seguem emparelhados, tensos, com mais gritos e xingamentos sendo trocados pelas janelas abertas. Começa a se formar uma fila de carros atrás da caminhonetona, que não arreda o pé da briga de trânsito. Sinal não abre nunca. Passageiro da caminhonetona desce mais uma vez, agora disposto a esmurrar o motorista do carrão preto. Este saca uma arma, que estava debaixo do banco. "Vamos embora daqui!!!!", eu falo, assustada. Por fim, o passageiro cede ao medo do revólver, volta a se sentar na caminhonetona, o sinal fica verde e todos seguem seus rumos.

***

Imagino um segundo fim pra história: motorista do carrão preto tira a arma e atira contra o passageiro da caminhonetona, e foge pelo vácuo de carros à frente dela. Possivelmente acaba reconhecido e preso. Ele, que já beira os 60, pode bem acabar morrendo antes de se ver totalmente livre da punição da lei. O outro, morto. O terceiro, que dirigia a caminhonetona, arrasado. Três vidas destroçadas por causa de uma briga de trânsito. De uma fechada. De alguma barbeiragem estúpida qualquer.

***

Terá valido a pena? Nem sempre o ditado que diz que não devemos levar desaforo pra casa faz sentido. Às vezes, é preferível engolir os sapos e deixar as consequências só com a pressão arterial e as noites de insônia. É o caso das brigas de trânsito.

No trânsito, muitos viram animais. As ruas são o melhor laboratório para se observar a natureza humana. É onde surgem os psicopatas, os inconvenientes e os reclamões, dentre outros. Nunca se sabe qual arma cada um deles pode estar carregando: um possante, um muque, uma câmera, um distintivo, uma faca, um revólver. Existem regras -- até demais -, existem leis, com punições previstas em caso de descumprimento. A fiscalização delas, no entanto, é ineficiente. Por isso, contamos apenas com a educação e a civilidade do desconhecido, do rosto estranho. Como muitos são mal-educados, e ainda querem tirar vantagem a qualquer custo, usam a lei da selva: tentam ganhar no grito. Ou na buzina estridente e desnecessária.

Quando você estiver dirigindo e levar uma fechada, ou algo do gênero, sem consequências mais graves (tipo uma batida), não parta pra briga. Não perca seu tempo abaixando o vidro para xingar o roda-dura. Não desça do carro -- sob hipótese alguma! Você não sabe com quem está lidando, literalmente. O melhor é reagir com esperteza (como NESTE EXEMPLO) ou respirar fundo e ir em frente. Trânsito não é lugar de mostrar que você tem razão.

E o mundo anda perigoso lá fora, nestes tempos estranhos.

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