OPINIÃO

Toda criança tem o direito de nascer na hora certa

É preciso entender a importância do trabalho de parto espontâneo e os riscos das cesarianas eletivas.

10/05/2017 14:27 -03 | Atualizado 10/05/2017 16:25 -03
laflor via Getty Images
O Brasil é o 2º país no mundo em percentual de cesarianas, enquanto a OMS estabelece em até até 15% a proporção de partos por cesariana, no Brasil, esse percentual é de 57%.

Os direitos de cada criança devem ser garantidos desde os primeiros momentos de vida. Estudos recentes mostram que o desenvolvimento infantil acontece de forma intensa até os 3 anos de vida. Trata-se de uma janela de oportunidade única para investir na saúde em todo o potencial de desenvolvimento de cada um dos meninos e meninas brasileiros.

O primeiro passo para isso é garantir o acesso da mulher a um pré-natal de qualidade, e o direito dela e do bebê de esperar o momento certo para o nascimento.

A maneira mais precisa de saber se uma criança está pronta para nascer é esperar que ela mesma dê o alerta. Quando o bebê está pronto, o trabalho de parto começa espontaneamente e pode resultar em um parto normal – quando tudo corre bem – ou em uma cesariana, caso seja necessária uma intervenção cirúrgica.

Utilizar a cesariana de forma eletiva – como regra, não exceção – é inaceitável do ponto de vista das evidências científicas.

Passar pelo trabalho de parto é benéfico para a mãe e o bebê. Mas nem todas as mulheres e crianças brasileiras têm essa oportunidade garantida. Embora o Brasil tenha avançado na redução da mortalidade infantil, um grande número de bebês corre o risco de nascer sem estar totalmente maduro.

Segundo a pesquisa Nascer no Brasil, em 2012, 35% dos bebês nasceram entre a 37ª e a 38ª semana de gestação. Embora não consideradas prematuras, estudos demonstram que essas crianças – aparentemente saudáveis – são mais frequentemente internadas em UTI neonatal, apresentam problemas respiratórios, maior risco de mortalidade e déficit de crescimento.

O grande número de nascimentos entre a 37ª e a 38ª semana de gestação está associado ao elevado número de cesarianas realizadas antes do trabalho de parto espontâneo.

O Brasil é o 2º país no mundo em percentual de cesarianas. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece em até 15% a proporção de partos por cesariana, no Brasil, esse percentual é de 57%. Eles representam 40% dos partos realizados na rede pública de saúde. Já na rede particular, chegam a 84% dos partos.

Além de privar mulher e bebê dos benefícios do trabalho de parto espontâneo, a cirurgia os expõe a riscos e procedimentos desnecessários.

Sabe-se que, em uma situação de alto risco, a cesariana pode salvar a vida da mulher, do bebê ou de ambos. No entanto, utilizar a cesariana de forma eletiva – como regra, não exceção – é inaceitável do ponto de vista das evidências científicas.

Além de privar mulher e bebê dos benefícios do trabalho de parto espontâneo, a cirurgia os expõe a riscos e procedimentos desnecessários. Segundo a Organização Mundial da Saúde, há um risco seis vezes maior de complicações graves para a mulher, associadas à cesariana, especialmente quando realizada em mulher sem fatores de risco que justifiquem a cirurgia.

Garantir o direito de esperar o trabalho de parto espontâneo é um dos desafios atuais do Brasil para assegurar a sobrevivência e a saúde de mulheres e seus bebês.

É esse o alerta que a UNICEF vem fazendo, desde o mês de abril, por meio da campanha Quem Espera, Espera. Nossa proposta é sensibilizar as mulheres e a sociedade sobre a importância de esperar o trabalho de parto espontâneo, evitar cesarianas desnecessárias e promover o parto e nascimento humanizados.

Por meio da campanha, o compromisso com o País de ajudar a garantir os direitos de mulheres e crianças, desde os primeiros momentos de vida é reforçado. Afinal, esperar pelo trabalho de parto é importante para o bebê, para a mãe e para a vida toda.

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