OPINIÃO

Um adeus agridoce à gravidez

06/06/2015 12:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
Courtney Reynolds

1993. Foi esse ano que me deixou espantada. Eu já tinha visto datas da década de 1980 muitas vezes, mas 1993? Uma pessoa nascida em 1993 já tinha idade para ter um bebê?

Um dos muitos procedimentos levemente nojentos, mas obrigatórios para as grávidas no consultório de minha obstetra era deixar amostras de urina sobre uma mesinha no banheiro coletivo. Você escrevia - antes de colher a amostra, é claro - seu nome e sua data de nascimento sobre o copinho de plástico e depois o deixava ali, entre os nomes e as datas de nascimento de todas as outras pacientes.

Sendo eu de "idade materna avançada", eu tinha consciência aguda das idades das mulheres escritas ao lado da minha. Normalmente eu sorria quando via as datas de nascimento das gestantes mais jovens, mas 1993 me fez parar para pensar. Em 1993 eu estava na faculdade. Eu poderia ser a mãe dessa mulher. Ou seja, eu poderia ser avó. Ou seja, eu deveria parar de fazer essa matemática avançada.

Houve momentos como esses em minhas gravidezes que me fizeram sentir que eu sou velha, mas na maior parte do tempo eu me sentia jovem. Estar grávida queria dizer que eu ainda estava em idade de conceber, de correr atrás de filhos pequenos e de descer as escadas sem sentir dor nos joelhos (ok, essa última frase é mentira). Eu me sentia vibrante e forte; achei que meus cabelos grisalhos estavam se multiplicando mais devagar que de costume.

Perto do final de minha última gravidez, percebi que talvez essa fosse a última vez que eu oficialmente me sentiria tão jovem; por isso, procurei curtir mesmo os momentos menos agradáveis. O último exame de glicemia... a última cinta de gestante... a última vez em que não consigo enxergar meus próprios pés (espero). Cheguei a ficar nostálgica na manhã em que íamos sair do hospital, depois de eu dar à luz a nossa segunda filha, Meg. Me recordo de dito a meu marido: "Esta vai ser uma das últimas vezes que vamos estar no hospital por um motivo feliz".

Mas eu não estava preparada para o primeiro exame anual no consultório médico - onde eu agora recorreria apenas à especialidade de ginecologia, não mais de obstetrícia. Agora eu era apenas uma paciente comum. Não era uma grávida chegando com barrigão e morrendo de vontade de ir ao banheiro. Não estava trocando histórias e olhares com outras gestantes. Não estava em pé com os tornozelos inchados, marcando 18 consultas de uma vez.

Eu estava no consultório, mas estava fora do clube.

Foi uma experiência estranhíssima, de certo modo, como se eu estivesse me vendo de fora do meu próprio corpo. Fiquei olhando fixamente para a cadeira onde eu normalmente me sentava quando esperava ser atendida. Onde eu aguardei a confirmação de meu primeiro aborto espontâneo. Onde esperei pelo resultado do exame de cromossomos. A cadeira onde fiquei aguardando meu "título" se ampliar de esposa para mãe. Era uma cadeira marcada pela emoção, a ansiedade e a tristeza. Havia recordações emocionantes ligadas àquela cadeira e havia outras que quase tiravam a emoção da gravidez.

Olhei mais atentamente às mulheres sentadas à minha volta e vi o misto já conhecido de cansaço e alegria em seus rostos jovens, ainda com acne. Vi alguns sorrisos alegremente ingênuos, de mulheres que desconheciam quaisquer complicações possíveis, e alguns lábios apertados de pessoas que aparentemente já tinham passado por algumas tempestades.

Quando finalmente chamaram meu nome, passamos direto pelas salas de ecografia e fomos para a sala de mamografia, onde não há nada que faça você se sentir feminina ou fértil. Então conversei com a médica sobre os benefícios dos exercícios de Kegel e as dificuldades de interação entre criancinhas de 1 a 2 anos e bebês pequenos. Não fiz perguntas do tipo "como está a batida cardíaca dela hoje?" ou "e se eu não soubesse que o queijo não era pasteurizado?". Mesmo a expressão da médica estava mais comedida na consulta. Seu tom de voz não era colorido pela alegria de "você vai ter um bebê!".

Antes de me deixar dominar pela nostalgia, me lembrei da pergunta que a médica me fez na nossa última consulta. "Vocês pretendem ter mais filhos?", ela perguntou em tom calmo. Quando eu respondi que não, ela soltou um suspiro de alívio e disse: "Graças a Deus". Minha filha, Meg, veio ao mundo com tudo perfeito, mas a situação ficou séria assim que ela nasceu, e meu útero quase foi removido. Parece que, se eu quisesse voltar a dar à luz, seria necessária cautela máxima.

Estava acabado, e eu tinha que encarar essa realidade. Tinha que entender que o capítulo da maternidade em que eu fui gestante acabou para mim, que era hora de fechar aquele livro, deixar de pensar no pré-natal e pensar na pré-escola.

Quando a consulta terminou, voltei à sala de espera, falei à recepcionista que a veria de novo no ano seguinte e sorri para "minha" cadeira, mentalmente deixando-a para a próxima gestante. O que a nova "dona" acharia daquela cadeira? Como na história de Cachinhos Dourados, só posso supor que às vezes a cadeira seria dura demais e às vezes macia demais - mas que, no final, todas nós encontramos uma que seja perfeita.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.