OPINIÃO

Nem o Sarahah garante que seus feedbacks honestos são anônimos

São vários os rastros que o usuário do app deixa, o que o torna identificável.

04/08/2017 20:38 -03 | Atualizado 04/08/2017 20:38 -03
Montagem/Reprodução/Twitter
Coletivo Coding Rights analisa a questão da privacidade no app Sarahah.

Você tem um minutinho para ler sobre os termos de uso do app?

O posicionamento da empresa veio por meio de um tweet: "a equipe do Sarahah informa que o rumor sobre expor identidades no dia 1 de agosto é falso".

A reação do público foi de alívio. Óbvio: muitas declarações de crushs misteriosos, xingamentos, toques ~amigos~, ameaças e feedbacks construtivos depois, seria uma tragédia pessoal para muitos usuários se as identidades de quem se propôs a falar o que pensa para os outros, anonimamente, viessem à tona.

O Sarahah (algo como "franqueza", em árabe) é um site/app que permite que qualquer pessoa crie um perfil e receba feedbacks anônimos. Surgido na Arábia Saudita, ele conseguiu uma popularidade absurda no país e, nesta semana, se tornou o app mais baixado tanto para iPhone quanto para Android. No mundo, ele também está no topo da lista de downloads da App Store, acima do Instagram.

Com a popularidade, começaram também a surgir rumores sobre um possível vazamento das identidades. O teor distópico poderia até ser um episódio de Black Mirror, como postou no Facebook o consultor de mídias sociais Alexandre Inagaki:

"Um ep de Black Mirror em que um programador cria um app que permite que sejam enviadas mensagens anônimas para qualquer um. Pessoas sofrem bullying, recebem mensagens nocivas, têm relacionamentos abalados etc. Uma semana depois, todos os posts enviados de forma anônima passam a aparecer devidamente identificados. Junto com a novidade, a mensagem do desenvolvedor: 'Uma pessoa inteligente se decepciona uma única vez com um amigo'."

Se você está no Sarahah, sua identidade não está protegida

A distopia proposta está mais perto de se tornar realidade do que você pensa. Embora a empresa garanta que não haverá a revelação das identidades, o valor legal de um tweet é altamente questionável. O que vale mesmo são as regras descritas nos termos de uso do aplicativo. E ali, meu amigo, é que o bicho pega.

O Sarahah garante que manterá a privacidade e a confidencialidade das suas informações e não as revelará a ninguém, a não serquehaja uma requisição legal, se elas forem necessárias para que sejam cumpridas determinações legais ou para defender ou proteger os direitos de propriedade do site.

A empresa também diz que todas as informações serão coletadas com consentimento e não serão vendidas a terceiros, a não ser que você autorize expressamente ou que ela faça parte de uma massa de dados usadas para estatísticas e pesquisa e não tenha algo que te identifique. E as informações só serão enviadas se solicitadas por uma autoridade legal ou entidade organizacional.

Quando você entra no Sarahah, o seu IP de acesso é gravado, junto com a data, hora, o tipo de browser e o site que te levou para lá. As suas informações ficam armazenadas pela empresa - as condições para isso não são claras - e também podem ser utilizadas para exibição de anúncios fornecidos por outras empresas. Segundo o Sarahah, elas podem usar informações sobre sua visita ao site e outros sites para providenciar anúncios direcionados.

Não há nada, nos termos de uso e nos termos de privacidade, que garanta o anonimato completo na plataforma.

Feedback anônimo e bullying

O Sarahah não é o primeiro aplicativo de feedback anônimo que aparece por aí. No passado, Formspring, Ask.fm e, mais recentemente, o Curious Cat, caíram no gosto principalmente de adolescentes para receber recados sem identificação.

É divertido, claro. Mas as experiências anteriores também mostram que esse tipo de plataforma é, também, um terreno fértil para agressões virtuais, ameaças e cyberbullying. O Sarahah afirma que seu propósito é para feedbacks positivos, mas se isenta de qualquer responsabilidade em caso de danos provocados por suas mensagens. Seus termos de uso afirmam que que qualquer consequência negativa de seu uso é de total responsabilidade dos usuários.

Vale lembrar que, no Brasil, o Marco Civil da Internet obriga provedores de aplicações a guardar logs, ou seja, informações sobre IP, data e local de acesso do serviço. Além disso, segundo o mesmo Marco Civil, cada conexão sua à internet fica registrada, junto com os seus dados cadastrais do provedor de internet.

As informações de ambos os tipos de logs podem ser acessíveis por ordem judicial e, cruzando os dois, fica fácil saber nome e outros dados pessoais do IP que usou o app em determinada hora.

Também lembre que você se comunica com as pessoas do Sarahah utilizando um link, que identifica cada usuário. Por causa disso, dependendo das suas configurações do browser e com quem você está falando, fica registrado até no seu histórico de navegação, algo que não acontece em nenhum outro tipo de chat.

Se não quiser parar por aqui, tem mais: você baixa o app da PlayStore ou App Store, que deve ter seu e-mail e, às vezes, até seu cartão de crédito. Bem, digamos então que, com todos esses rastros, o anonimato passou longe.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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