OPINIÃO

Por que você deve procurar saber sobre a origem da madeira que utiliza

O declínio acontece por uma série de fatores associados a informalidade, ilegalidade e insustentabilidade.

09/02/2017 16:58 BRST | Atualizado 09/02/2017 17:00 BRST

Quando compramos madeira, geralmente não nos passa pela cabeça perguntar se ela tem origem legal e sustentável. Tal omissão alimenta um processo de declínio de nossas florestas e de toda a economia em torno dela. Você pode não saber, mas existe uma economia da florestal tropical, rentável, inclusiva e determinante para a própria preservação das florestas.

O setor madeireiro promove a extração legal de cerca de 15 milhões de m3 de toras das florestas tropicais amazônicas brasileiras, gerando em torno de R$ 8 bilhões de receita anual. Baseado na disponibilidade de matéria-prima, tem o potencial de crescer pelo menos dez vezes. Mas, ao contrário, vem diminuindo, tanto em volume de produção, como em receita gerada.

O declínio acontece por uma série de fatores associados a informalidade, ilegalidade e insustentabilidade. Diversos levantamentos (do Ministério do Meio Ambiente, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia e até da Interpol) estimam que cerca de 70% dos produtos madeireiros da Amazônia provêm de exploração ilegal - roubo em terras devolutas, Unidades de Conservação e reservas indígenas, além de trabalho escravo são algumas das muitas situações irregulares.

Nos <em>rankings</em> internacionais, o Brasil figura no topo do risco da ilegalidade. Além disso, fica aquém dos padrões - menos de 3% da produção de toras na Amazônia têm certificação FSC (sigla de Forestry Stewardship Council, que em português significa Conselho de Manejo Florestal).

Essa combinação desastrosa criou uma tendência de redução de demanda pela madeira amazônica fora do país e mesmo aqui. No mercado doméstico, há uma crescente substituição por outros materiais na construção civil. Nos mercados externos, as exigências de novas legislações ambientais (US Lacey Act, nos Estados Unidos, e EU TR, na Europa), ou relacionadas ao conceito de sustentabilidade (caso da certificação FSC), formam entraves à importação de madeira amazônica.

No lado da oferta, observa-se uma redução da produção em torno de 40% ao longo da última década. Atrelado a isso, empresas que tentam atuar dentro da legalidade fecham, devido à competição desleal com operadores que descumprem a legislação e reduzem seus custos operacionais. O resultado é muito negativo: na ausência de mecanismos de valoração da floresta em pé, nossas florestas se tornam vulneráveis às pressões por conversão para outros usos da terra.

Diante desse cenário, está mais que na hora de iniciar um processo de renovação, na verdade, de transformação, do setor madeireiro amazônico, introduzindo novas tendências, práticas de mercado e padrões para retomar o crescimento. Tal processo requer um conjunto de ações:

- envolvimento e capacitação de associações de produtores e de distribuidores de madeira;

- desenvolvimento de mecanismos de controle;

- incentivo ao monitoramento e ao uso de madeira legal e, gradualmente, certificada nos departamentos de compras do setor público e privado;

- fomento da indústria nos mercados internacionais.

O pré-requisito para essa mudança está em conduzir o setor para legalidade. Para tanto, são necessários o desenvolvimento e a adoção de sistemas de monitoramento, controle e rastreabilidade da produção, bem como do processamento e do transporte da madeira tropical brasileira. Qualquer iniciativa desenvolvida nesse sentido depende da transparência de informação.

Sistemas como o Sistema Integrado de Monitoramento e Licenciamento Ambiental (Simlam) e o Sistema de Comercialização e Transporte de Produtos Florestais (Sisflora), adotados nos estados do Pará e de Mato Grosso, disponibilizam muitos dados relacionados ao setor, embora melhorias e mais transparência sejam ainda desejáveis. O Sisflora 2, recentemente implementado no Pará, é um passo na direção certa. Em contraste, nos estados que adotam o sistema do governo federal (Sistema DOF - Documento de Origem Florestal), cria-se um ambiente propício à fraude.

Por isso, é essencial que o governo federal e os demais estados amazônicos caminhem para possibilitar mais controle e monitoramento. Você também pode fazer sua parte. Da próxima vez que for comprar um produto de madeira, exija que o vendedor demonstre sua origem. Uma nova cultura de consumo vai ajudar a reerguer o setor madeireiro brasileiro e a elevá-lo a outro patamar.

*Pedro Moura Costa é diretor do Instituto BVRio.O BVRio é membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. O autor participa do Grupo de Trabalho de Economia da Floresta Tropical da Coalizão.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.