OPINIÃO

O homem que salvou minha mulher

23/11/2015 20:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
ERIC FEFERBERG via Getty Images
People gather at a makeshift memorial in tribute to the victims of a series of deadly attacks in Paris, in front of the Bataclan cafe on Voltaire Boulevard in Paris on November 23, 2015. Gunmen and suicide bombers went on a killing spree in Paris on November 13, attacking the concert hall Bataclan as well as bars, restaurants and the Stade de France. Islamic State jihadists operating out of Iraq and Syria released a statement claiming responsibility for the coordinated attacks that killed 130 and injured over 350. AFP PHOTO / ERIC FEFERBERG / AFP / ERIC FEFERBERG (Photo credit should read ERIC FEFERBERG/AFP/Getty Images)

Estou na frente da TV, com um copo de uísque escocês na mão. Diante de mim, os restos do jantar me lançam um olhar repreensivo por não tê-los levado de volta para a cozinha. Faço isso mais tarde. Minha filha está dormindo, e minha mulher saiu com uma amiga. Passo uma noite agradável e tranquila, sozinho.

Jeff Bridges enfrenta uma bruxa má e seu exército de assassinos, e meu telefone começa a vibrar. É Pat. Algum problema no bar? Será que ela precisa de alguma ajuda urgente? Atendo.

- Alô?

- Clem, tem notícias da Édith?

- Sim, ela está no show.

- Houve um atentado no Bataclan! Te ligo se tiver mais notícias...

Meu corpo começa a tremer. Minha respiração fica ofegante... Meu dedão não me obedece, não consigo manusear meu iPhone. Está chamando. Ela não atende. Meu coração explode. Segunda ligação. Meu amigo, a primeira pessoa para quem ligo nas horas difíceis, ou quanto tenho uma boas notícias para contar.

Quando minha mãe morreu, quando Édith ficou grávida, quando estava no hospital depois do nosso acidente. Minha voz treme, tento falar sem chorar. Ele está num restaurante, pagando a conta, correndo para o local.

Meu irmão me liga. Ele está com a noiva, que acompanhava Édith no show. Bateu o recorde entre Montparnasse e Oberkampf de scooter. Ela está em choque, mas bem. No dia seguinte, vai encontrar vestígios de balas nas costas e na coxa.

Ela se perdeu de Édith nos primeiros momentos da confusão, quando as balas começaram a atingir os espectadores. Ela chora. Eles vão ficar pelo bairro para procurá-la. O irmão de Édith os encontra. Pat também.

O telefone toca, os amigos ligam, eles vêm para casa me apoiar, para estar comigo, para se apoiar. Aqueles que estavam no local do atentado não podem fazer mais nada e decidem se juntar a nós. Bebemos, brindamos, fumamos. Choramos, esperamos...

Édith

As letras aparecem no meu telefone. Atendo e ela está do outro lado da linha. Ela treme, eu tremo. Ela, de medo, eu, de alívio. Ela está viva!

Ela me conta dos mortos, do sangue, dos amigos feridos, do bar transformado em hospital improvisado e de Bruno, o homem que salvou sua vida.

Por volta das 5h, ela chega em casa. Os amigos ainda estão lá para lhe abraçar, para chorar. A tristeza nos abandona por alguns minutos, para curtir Édith, cobri-la com nosso carinho.

Durmo algumas horas, ela, não. Nossa filha acorda e vai ficar com a madrinha. Queremos que ela fique longe de toda essa merda. Só mais tarde vamos entender como o terror chegou tão perto da gente.

Meu irmão chega com a namorada. As duas sobreviventes contam de novo suas histórias. Tento parecer forte. Estamos todos colados em nossos celulares. Não param de chegar informações sobre os ataques. Édith diz que adoraria reencontrar Bruno.

Eu também, porra! Minha vontade é abraçá-lo com força, agradecê-lo por ter salvado minha mulher. Escrevo um post no Facebook, jogando no oceano das redes sociais uma mensagem na garrafa e dando início, sem saber, a um movimento de solidariedade comovente.

Jamais poderia ter imaginado que essa pequena mensagem fosse compartilhada dessa maneira.

mensagem

Um homem salvou a vida da minha mulher ontem no Bataclan, escondendo-a sob as cadeiras e protegendo o corpo dela. Ele não a conhecia. Ele se chama Bruno, e adoraríamos agradecê-lo.

Nós a encontramos. Obrigado a todos. Não temos nada a fazer a não ser tomar um drinque juntos.

Temos de enfrentar um evento que só acontece com os outros. Que não acontece nunca. Primeiro, precisamos reconhecer seu status como vítimas de um atentado.

Depois, elas têm de conversar com psicólogos da equipe de atendimento de crise e prestar depoimento à polícia. Temos de apoiá-las, ser fortes, ser "homens". Sou uma pequena rocha à qual elas podem se agarrar.

Meu irmão é muito maior do que eu. Escuto o que elas têm a dizer, as abraço, seguro suas mãos, seus rostos, tão feliz de ainda poder fazê-lo. Mas também não largo o celular, que não para de tocar.

Ele toca o repertório inteiro de sons, avisos e "pings". Um para telefonemas, outro para SMS, outro do Messenger, Facebook, meus e-mails... Respondo a todas as mensagens de apoio, que chegam às dezenas. Aí eu paro, não dou mais conta, são muitas.

Mensagens gentis, doces, que me fazem chorar, que me insultam. "Espero que ela te abandone. Um idiota como você não a merece." Agradável...

Em meio a tudo isso, aparecem os pedidos de entrevista. É um "momento de esperança que tem de ser compartilhado", uma "luz nesse momento escuro". A pressão aumenta.

No primeiro dia, recebo mensagens de jornalistas, pelo menos 30. Todas as emissoras de TV e rádio, praticamente toda a imprensa tentou nos contactar para que contássemos nossa história ou para ter mais informações sobre o homem que salvou minha mulher. Tenho acesso ao "crème de la crème" da mídia, nas não vou citar nomes, não seria correto.

A imprensa do Japão, do Canadá, da Austrália, da Rússia, dos Estados Unidos, da Inglaterra, do Marrocos, da Bélgica, da Alemanha e de outros países também nos procura.

Os pedidos de entrevista são educados. "Sinto muito por incomodá-lo, sei que é uma hora difícil para você e para sua mulher, mas será que conseguiríamos nos encontrar para conversar?"

Outras não tanto. "Bom dia, sou jornalista, ligue para mim!" "Bom dia, você pode me passar o telefone do Bruno? Obrigado." De nada...

Tenho vontade de responder com sarcasmo, mas me contenho. Sou um filtro, uma peneira. Só mostro para Édith as mensagens de apoio e os nomes dos veículos.

Rimos um pouco, como se começássemos uma coleção de jornalistas.

Leio e releio as mensagens, me pergunto se não devemos aceitar. A insistência fustiga minha vontade, assim como os atentados tentaram minar minhas convicções. OK, falemos com um jornal.

Depois, mudamos de ideia. Mais tarde, voltamos atrás. Vamos falar, mas com quem? E por que com um só? Podemos dar entrevistas para todos. Entendo que deve ser fácil se afundar numa orgia midiática, chafurdar em talk shows, ocupar todas as colunas, todas as ondas.

Poderíamos passar mais de 24 horas dando entrevistas, gravando confissões, tête-à-tête, cara-a-cara. E quem não quer que você se interesse por ele? Em um momento como este, muitos dos que escaparam do inferno provavelmente precisam disso.

Eles devem sentir necessidade de dizer ao mundo o que têm no coração, querem se sentir protegidos, amados. Mas nem todos. Outros preferem a segurança ilusória do anonimato.

Os jornalistas - mas nem todos, obviamente - tentaram nos convencer de todas as maneiras possíveis, apelando à necessidade de reconhecimento ou até mesmo à culpa. "Vocês representam algo muito importante para as pessoas. Vocês têm de falar",

"Vocês começaram um movimento, agora precisamos que a conclusão seja a mais bela possível (de preferência no nosso canal)", "Vocês têm uma dívida com as pessoas que compartilharam a mensagem". Chegaram até mesmo a dizer: "Posso colocar vocês em contato com [nome de uma celebridade] antes do programa."

Uma mistura de carinho e ameaças subjacentes e certamente inconscientes. Hoje à noite, amanhã de manhã. O programa é gravado daqui 12 horas, ao vivo ao meio-dia...

Rápido, rápido, rápido. O pessoal da redação está me pressionando, meu chefe quer que eu consiga um furo, quero ser o primeiro a falar com vocês. Somos o alvo da vez, peça de colecionador, presa de prestígio.

E se demorar? Vai ser tarde demais? Nossa história vai desaparecer? Uma vez passada a tempestade vocês não vão mais precisar de gente? Não temos direito de refletir? Amanhã é tarde demais?

Sim, tem que ser agora, do contrário é como se você não tivesse passado por isso. Não será tão real se a história não for contada por um de nós, se não tivermos feito nossas perguntas, se não lhes mostrarmos em planos fechados. E o que nos sobra se a resposta for não? A dor...

Estou confuso, sobrecarregado. Então não respondo para ninguém. Não cabe a mim tomar essa decisão. Eu não posso nem impor nada à minha esposa, que passou tão perto da morte, ou a Bruno, que eu ainda nem conheço.

Me vingo no Facebook. Falo dos abutres. Recebo mais mensagens me insultando. Apago o post. Tarde demais, a rede BFM fala dele em seu site. Nova salva de "doces palavras de amor." Obrigado...

Artigos sobre nós se multiplicam na internet. Alguns tentam tapar buracos, outros fazem interpretações ousadas, mais se atêm aos fatos. Fico com raiva e nem sei bem o porquê.

Uma mulher entra em contato comigo para que eu leia o texto antes que ele seja publicado. A abordagem é admirável, apesar de tão óbvia.

Acho o texto muito bonito. Choro. Ligo para contar. Ela também parece abalada também. É como uma lufada de ar fresco, estou tocado, ainda choro. A pressão é um pouco menos forte.

O artigo tirou o peso do rancor, e acho que o apelo no Facebook pode finalmente ter servido a algum propósito. Talvez.

Mas a vida continua, a realidade me alcança. Penso em tudo o que temos de fazer, os papeis a preencher, o advogado que temos de contratar, um psicólogo para Édith, nossa filha, a escola, os vizinhos, a família, as contas, o trabalho, os amigos, aqueles que temos de visitar no hospital.

E as solicitações, como as mensagens, continuam chegando no meu celular. Como não respondo, eles contatam meus amigos, tentam descobrir meu telefone com as pessoas próximas. Por uma razão técnica, Édith é preservada por um tempo.

As mensagens que ela recebe são arquivadas numa pasta de "indesejadas", e ela não sabe como acessá-las. Sorte. Eu as encontrei depois de muito tempo. Não digo onde.

Além de tudo o que temos de enfrentar, tenho de continuar interpretando meu papel de filtro, respondendo às mensagens mais tocantes e desesperadas, dando conselhos a desconhecidos sobre assuntos que não domino, porque nunca passei por uma situação dessas.

E como se isso não fosse suficiente, tenho de lutar contra o canto constante da sereia que envolve uma celebridade efêmera. Escolha seu canal, seu jornal, sua rádio, a gente cuida de você.

Vamos até sua casa, nos encontramos, nos falamos, está com fome? Com sede? É só dizer o que precisa! Minha vontade era pedir dinheiro, só para ver até onde eles iam.

- Bom dia, o senhor poderia me passar o telefone do Bruno?

- Claro, são cem euros.

Podia pagar umas férias com esse dinheiro. Quem sabe.

Um amigo jornalista nos aconselhou a dar uma única entrevista para acabar com essa história toda. Um segundo amigo jornalista nos recomendou um terceiro jornalista para quem Édith e Bruno pudessem contar seu pesadelo.

Ele vai permitir que a gente leia a matéria antes da publicação. Por sorte temos amigos jornalistas.

E demorei 48 horas para levar meu prato de comida para a cozinha.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Le HuffPost e traduzido do francês.

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